Caro
Cobrinha Mansa.
Gostei
de seu comentário a respeito de meus ensaios sobre, "identidade e território na
capoeira", e gostaria de esclarecer que no que foi colocada, a subjetividade é a
grande relação que mapeia a minha percepção. A capoeira, hoje, no que diz
respeito a sua identidade e territorialização, não tem nada de subjetivo,
pois é um processo construído por indução. Digo isto porque participei
deste processo, no momento mais forte de sua construção, que é a década de 60.
Neste período, os arquitetos de sua fase original, sai de cena, o ideário
nacionalista da fase original, ganha uma nova roupagem e novos discursos e
mitificações. Salvador deixa de ser o centro da capoeira moderna, Bimba caí no
ostracismo. O eixo passa a ser o Rio e São Paulo.´Foi deste eixo que se
irradia o processo de massificação da capoeira. O estilo de movimentação gestual
que implementa esta revolução é o próximo a regional do Bimba, repetindo o que
ocorreu em Salvador na época de 30.Onde o grande Mestre edifica a base da
capoeiragem moderna, logo copiado por todos em Salvador, a ponto de ser o grande
divisor, pois quem não era Bimba era a outra, chamada de Angola.
A
partir desta época é que se cria um movimento que se aprende por pacotes
estabelecidos e aí que entra o que a baixo transcrevo do meu recente
artigo.
Na capoeira, a falta de uma identidade que
caracterize sua personalidade é o marco da controvérsia contemporânea. A
capoeira só se estabelece quando cria uma identidade social. Este fato
ocorreu no século XIX, na cidade do Rio de Janeiro. Neste cenário ela territorializa-se e personaliza estes
ambientes. O fator de construção deste espaço cultural foi à
diversidade de seus componentes, oriundos de um contexto, tão diverso e mestiço,
sob o ponto de vista da origem e etnia, que compunha a realidade urbana
carioca.
A
forma de expressar esta relação se deu através de uma comunicação gestual, onde na
teatralidade das interações entre seus elementos, a trama do tecido cultural era
visualizada.Na
sua contemporaneidade,
a capoeira perde a sua identidade social,
pois é desfeita sua estrutura coletiva, desfaz-se dos territórios e com isto acaba
sua magia. Todo o universo da riqueza de sua invisibilidade, produto do
espontâneo, é quebrado ao formalizar sua relação.
A
diferença entre a capoeira moderna e a original está exatamente na construção do
espontâneo da segunda e no procedimento induzido da arquitetura da primeira.
As
controvérsias, geradas na mitificação e discursos na capoeira moderna, são
frutos de seu artificialismo, onde o indivíduo some do seu espaço construtor,
sendo um mero copiador de sua comunicação gestual engessada em pacotes
formais.
A
territorialização de um contexto é feita no espontâneo (espontaneamente). A
leitura desta realidade só é possível através de uma perspectiva antropológica
vivenciada, ou seja, os atores tecem no espaço a estrutura que dará forma a sua
realidade. O que exige uma consciência, deste atores, de que são personagens da
construção deste contexto.
Os
discursos, étnicos, nacionalistas, da repressão, corporativista iniciatório e o
classista, mostram bem a necessidade de estabelecer uma idéia carregada de
verdades e tradições que os qualifique, como a linha que contempla a identidade
social, na contemporaneidade da capoeira.Identidade
que a capoeira hoje não tem, porém necessita criar, mas não no artificialismo
dos discursos e mitos, procedimento usual no sistema atual, mas sim na interação
entre a realidade do indivíduo e do contexto do qual está
inserido.
A
ótica da comunicação gestual se coloca para os discursos e mitificações, como
divisor entre ser capoeira e fazer capoeira. Enquanto um procura criar
referências, o outro é em si a própria referência, pois as relações são
construídas na própria vivencia, criando uma unicidade entre indivíduo e
contexto. A
ótica da construção de referência mostra a sua relação direta com a
racionalidade, onde toda perspectiva é fragmentada e, por conseguinte não
interativa. Não sendo interativa não há troca, sem troca não se constrói
contexto, sem contexto não existe identidade.
O
retorno a organicidade, no ato de vivenciar um contexto é, de fato, o único
elemento plausível de restaurar, na capoeira, sua identidade social ao
proporcioná-la ser elemento da construção do espaço onde se insere.A
identidade cultural é dinâmica, pois é construída no processo interativo que
forma um determinado espaço. Seus elementos estão em constante troca e com isto
produzindo mutação na organização da forma de um contexto. Ao desenvolver a
consciência do momento vivenciado, o indivíduo, percebe sua identidade com o
contexto, o que lhe confere percepção do espaço que está inserido.
Na
fase embrionária de sua modernidade, o gestual é engessado pela construção de um
padrão funcional e estético, voltado para ter um lugar nas artes marciais. Foram
selecionados, dentro do gestual espontâneo, os elementos com as características
mais próximas da forma globalizada da arte marcial.
O
indivíduo, corpo estranho na modernidade, some do cenário da capoeira, passa a
ser um elemento de enfeite, sua personalidade não é interessante na construção
do tecido gestual. A necessidade do retorno do indivíduo na construção do
contexto por ele vivenciado é de extrema importância na sustentabilidade da
capoeira. A construção de um contexto capoeira se faz por informações gestuais
personalizadas, as quais ao interagir com as demais existentes neste ambiente,
produz no espaço vivenciado, uma forma única tanto em termos de tempo como
espaço, ou seja, uma unicidade.
Ao
conferir identidade ao processo capoeira, o que passa pelo indivíduo, cria-se na
capoeira um movimento de legitimação, pois a capacita edificar identidade social
no contexto que se insere.
Parte
destes comentários são de trechos de meu artigo, porém mostram a minha preocupação em ver a
capoeira se massificar no Brasil e agora no Mundo, porém muito mais como produto
de entretenimento do que algo que venha contribuir com a
edificação de identidade do indivíduo, para este se perceber construtor
de seu contexto e não um mero boneco repetido de uma realidade virtual induzida.
Nesta perspectiva, podemos restaurar os princípios da capoeira original e dá a
capoeira moderna uma sustentabilidade para sua
continuidade.
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