+ Esporte Escondendo o jogo "Invasão de Campo" disseca a rivalidade entre as alemãs Adidas e Puma, criadas por 2 irmãos , e sua disputa por nomes como Cruyff e Pelé ERNANE GUIMARÃES NETO DA REDAÇÃO Quem acompanhar os Jogos Pan-Americanos do Rio, de 13 a 29 de julho, além da competição esportiva, terá como história subliminar o resultado de uma briga de irmãos, presente nos logotipos que adornam cada peça de vestuário dos atletas. Não tolerando mais um ao outro, os alemães Adolf e Rudolf Dassler, que já obtinham projeção mundial com sua indústria de calçados esportivos em Herzogenaurach, separaram-se em 1948 e fundaram, respectivamente, a Adidas e a Puma -na mesma cidade, separadas apenas por uma ponte. E, nessa disputa, foram pioneiros no marketing esportivo. Adi coloriu as três tiras de reforço de seus calçados, tornando a marca facilmente identificável; Rudolf tornou praxe os contratos com grandes estrelas do esporte -como Pelé, o holandês Cruyff e o português Eusébio. "Invasão de Campo" (ed. Zahar, trad. Cristiano Botafogo, 360 págs., R$ 47), da jornalista Barbara Smit, oferece detalhes sobre como a disputa familiar incentivou o crescimento dessas marcas. E como, desconsiderando outros concorrentes, quase desapareceram. Nesta entrevista, a holandesa Smit, 39, fala de como a Puma obteve o contrato com Pelé em 1970 e da relação entre o herdeiro da Adidas e João Havelange, ex-presidente da Fifa, a mais alta entidade do futebol mundial. FOLHA - Como a Segunda Guerra influiu na sociedade que Adolf e Rudolf mantinham? BARBARA SMIT - Adi Dassler começou o negócio, nos anos 1920, quando havia muitas fábricas de sapatos na região. Como era fã de esportes, decidiu criar uma fábrica especializada em calçados esportivos, e a popularização do futebol na Alemanha ajudou o negócio a prosperar. Ele e Rudolf trabalharam bem, juntos, até a Segunda Guerra, quando a sociedade desmoronou. Ambos trabalhavam com os nazistas: faziam calçados para a seleção de atletismo. FOLHA - Eles tinham identificação ideológica com o nazismo? SMIT - É difícil separar o que era negócio ou política. Quando acabou a guerra, houve o processo de "desnazificação", com processos de investigação sobre as atitudes de cada um durante a guerra. Adi tinha testemunhas que reconheciam seu relacionamento com os nazistas, mas que atestavam sua postura apolítica. Ele vendia tanto para comunistas quanto para nazistas. Rudolf era, aparentemente, mais comprometido com a ideologia. Foi preso depois da guerra, acusado de participar do serviço de segurança nazista. Ficou convencido de que seu irmão o entregara. Como a situação ficou insustentável, decidiram dividir tudo. Em 1948, Adi fundou a Adidas, e Rudolf, a Puma. FOLHA - A Adidas saiu na frente nessa competição? SMIT - Não exatamente. Adi era o sapateiro e teve sorte e boas idéias: foi dele a iniciativa de pintar as listras. Eles usavam essas tiras para reforçar a lateral dos calçados, e a concorrência também usava -mas era sempre na mesma cor do sapato. Adi resolveu testar diversas variações das listras pintadas e chegou à conclusão de que três seriam o melhor equilíbrio para que a marca ficasse visível. Tinha também um bom relacionamento com os atletas. No início, porém, Adidas e Puma tinham qualidade comparável e muito acima dos concorrentes; seus calçados eram muito mais leves -tinham metade do peso das chuteiras inglesas, por exemplo. FOLHA - Mas os brasileiros também usavam chuteiras mais leves do que as dos ingleses. SMIT - Sim, isso deve ser por causa do estilo de jogo. A Inglaterra usava o "kick and rush" /, agressivo, por isso as chuteiras pareciam botas de pedreiro. Havia proteção para o tornozelo e cobertura metálica para os dedos. O jogo fluido do Brasil requeria sapatos mais leves -que, para os padrões ingleses, estavam mais para chinelos. FOLHA - Em 1987, em crise, a Puma saiu do controle dos herdeiros de Rudolf Dassler. A Adidas sobreviveu melhor? SMIT - Sim, mas também passou maus bocados. Horst morreu em 1987. Em 1992 /, a Adidas esteve a um prazo de duas semanas da declaração de falência. Um ponto decisivo para o mercado foi a possibilidade de fabricar na Ásia, barateando a produção. A Nike aproveitou antes a oportunidade /. A Adidas e a Puma resistiram à idéia, o que quase acabou com elas. Competiam tanto entre si que ignoraram o avanço da Nike. FOLHA - Apesar da disputa, a sra. diz que eles fizeram o "pacto Pelé" na Copa de 1970? SMIT - Os atletas profissionais do futebol não sofriam a restrição do atletismo olímpico, supostamente amador -e proibido de receber dinheiro para usar marcas. O problema com os jogadores de futebol é que eles muitas vezes preferiam receber "por fora", em dinheiro vivo. Conta-se que em 1966, na Inglaterra, os Dassler eram vistos andando com sacolas cheias de dinheiro para os jogadores. Em 1970, os adversários concordaram que, se dessem lances por Pelé, o valor subiria demais, o que seria ruim para ambos -fizeram, então, um cartel. FOLHA - Pelé procurou a Puma para negociar um contrato? SMIT - Pelé tinha um contrato com a marca inglesa Stylo e ganhava relativamente pouco. Ninguém o procurava, o que era estranho. Mas o agente da Puma não agüentou a situação e começou a conversar com Pelé. Chegaram a um bom acordo /. FOLHA - A Puma e a Adidas foram pioneiras nos contratos com celebridades do esporte? SMIT - Sim. Havia outros, mas a rivalidade entre as duas acelerou as coisas. Era muito fácil para os esportistas: bastava atravessar uma ponte e barganhar com a outra firma. FOLHA - E a influência dessas marcas na política do esporte? SMIT - Foi Dassler quem começou a cultivar esse tipo de relação. Fez amizade com todo tipo de pessoa ao promover sua marca, como João Havelange. FOLHA - Por que a Adidas teria interesse na eleição de Havelange à presidência da Fifa, conforme a sra. aponta em seu livro? SMIT - Inicialmente, Dassler apoiava Stanley Rous /, que representava o futebol europeu, mais rico. Por meio de um amigo, soube que a Confederação Africana apoiaria Havelange, o que deixava o brasileiro como potencial vencedor. Horst decidiu ficar do lado do vencedor. Eles fizeram um pacto: Horst ajudaria Havelange a levantar o dinheiro para cumprir suas promessas de campanha; quando este assumiu, tiveram de fato uma boa relação. FOLHA - E eles criaram a empresa que venderia as licenças de propaganda para a Copa seguinte? SMIT - Horst juntou-se ao inglês Patrick Nally para vender as licenças, criando depois a ISL /. Tornaram-se líderes no marketing esportivo, e certamente isso ajudou a Fifa a ganhar dinheiro. FOLHA - Havelange participou dos negócios da ISL? SMIT - Ele não era membro, mas foi responsável. Ele certamente aprovou o fato de a ISL ser escolhida para vender os direitos -e não havia licitação. FOLHA - Que diz do mito de 1998, de que a Nike, patrocinadora da seleção brasileira, teria vendido a final da Copa do Mundo, vencida pela França, que vestia Adidas? SMIT - Acho impossível acreditar. Não vi indícios de nada nesse sentido /. Mas "impossible is nothing" /, como dizem na Adidas. Pelé diz que não conhecia estratégia DA REDAÇÃO Dois brasileiros proeminentes foram alvos da disputa entre as marcas esportivas alemãs. Pelé já tinha seu talento futebolístico internacionalmente reconhecido antes da Copa de 1970, quando fez contrato com a Puma. João Havelange teria sido alvo do lobby da Adidas desde a véspera de sua eleição à presidência da Fifa, em 1974. Em nota enviada por sua assessoria, Pelé confirma ter conhecido Hans Henningsen, emissário da Puma, em 1970. Quanto ao pacto das concorrentes de não o procurar para não gerar uma guerra de ofertas, que Henningsen teria quebrado, Pelé declara: "Não tive conhecimento de toda essa estratégia de marketing mencionada no livro". O ex-jogador não comentou o valor do contrato, que, à época, seria de US$ 25 mil pela Copa e mais US$ 100 mil para os quatro anos seguintes. Procurado por e-mail, Havelange não respondeu até o fechamento desta edição. Por telefone, a secretária do ex-presidente da Fifa disse que ele estaria ocupado durante a semana com "assuntos pessoais". Três listras e uma ambição Empresas alemãs mudaram a face do esporte ao criar e disseminar o patrocínio e o merchandising JOSÉ HENRIQUE MARIANTE EDITOR DE ESPORTE Antes do Vale do Silício e dos japoneses, quem inventava coisas neste mundo eram os alemães. Da bomba atômica ao Fusca, boa parte do século 20 surgiu de alguma cabeça que pensava em alemão. Aparentemente, no esporte não foi diferente, revela a jornalista Barbara Smit, em "Invasão de Campo". Os Dassler não inventaram nenhuma modalidade, mas inventaram tudo o que hoje cerca o setor: patrocínio, merchandising, direitos de imagem, de comercialização e até os de TV. Tudo movido por uma disputa entre dois irmãos, que mais tarde se transformou numa disputa entre pais e filho, irmão e irmãs, primo e primo e que quase terminou em nada. Um enredo cinematográfico, com locações e personagens espetaculares -Jesse Owens /, Puskas, Pelé, Muhammad Ali /, Cruyff, Kareem Abdul-Jabbar /, Mark Spitz /, Franz Beckenbauer, para ficar apenas em unanimidades. Livre trânsito Horst, filho de Adi, o lado Adidas da história, é de longe o Dassler mais fascinante. Poliglota, sóbrio, obsessivo e paranóico, começou a atuar na Olimpíada de Melbourne /, em 1956. Aprendeu com os pais a tratar atletas com leite de pato, mas logo trocou os familiares chás da tarde na pequena Herzogenarauch por jantares suntuosos. Tinha uma das adegas mais caras da Europa em um hotel particular na Alsácia. Horst, descreve o livro de Smit, trabalhava como um diplomata profissional. Atravessava a Cortina de Ferro com impensável facilidade e era espionado pela CIA e pela Stasi. Convencer atletas (ainda amadores) a usar equipamento Adidas, com ou sem dinheiro, era só uma parte da história. Horst concluiu rapidamente que o negócio era começar por quem mandava. Os alvos eram dirigentes, confederações e até políticos de pequenos países -qualquer um que tivesse direito a voto em qualquer pleito. E, de voto em voto, o amadorismo foi acabando, contratos de exclusividade e patrocínio foram sendo assinados e o esporte virou moderno, virou negócio. Empresa tentacular Com tudo isso, Horst ganhou tanto poder que a Adidas do pai, a que vendia calçados e estranhava fazer roupas com a marca, ficou pequena perto da Adidas do filho -na verdade, a subsidiária francesa. E esta secretamente se transformou em uma tentacular empresa, que engolia rivais, criava marcas e, última fronteira, criou um novo negócio, os direitos de televisão. Pena que o livro não avance muito nesse último campo. Detalhes da criação da ISL, a relação com João Havelange e o plano de poder sobre o esporte mais popular do mundo estão lá. Prato cheio Mas a crise da agência, nos anos 90 -com Horst já morto-, e sua falência restam como história a ser contada (provavelmente com um capítulo especial para o futebol brasileiro, de causar arrepios nos cartolas locais). Para quem gosta de esporte, é um prato cheio, um grande quebra-cabeça de nomes, feitos e eventos que contam como uma atividade excêntrica se transformou, ao longo de um século, em algo global e bilionário.
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