[Cevmkt-L] PELÉ ESCANDALO

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Date: Sun, 18 Nov 2001 19:43:01 -0200
EXCLUSIVO FOLHA DE SÃO PAULO 18/11/2001

Empresa ligada a Pelé arma evento beneficente e fica com o dinheiro

MÁRIO MAGALHÃES
SÉRGIO RANGEL
DA SUCURSAL DO RIO

No dia 19 de novembro de 1969, ao marcar no Maracanã o gol historicamente considerado como o seu milésimo, o então jogador de futebol Pelé ofereceu o feito às "criancinhas do Brasil". Desabafou sobre as mazelas que as afligiam e pregou que o país olhasse por elas.
Num projeto beneficente de 1995, a preocupação de Pelé estendeu-se, formalmente, à infância carente da Argentina. No final, nenhuma criança do país de Maradona ganhou um só tostão ou doação. Já uma firma com o nome do ex-atleta, transformado em empresário esportivo e à época ministro dos Esportes, ficou com US$ 700 mil.
No dia 31 de janeiro de 1995, num contrato com a assinatura pessoal de Pelé, uma empresa localizada no paraíso fiscal das Ilhas Virgens (Antilhas) se comprometeu a organizar de graça, num gesto de generosidade, uma partida de futebol e um show, ambos com jogadores e cantores de renome mundial, para a seção argentina do Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância). Pelé participaria sem nada cobrar.
O evento, batizado de Move the World (Movimente o Mundo), não foi realizado. O Unicef-Argentina nada ganhou. E a PS&M Inc. (Pelé Sports & Marketing Inc.), que recebeu US$ 700 mil para promover a festa, não repassou dinheiro algum ao órgão da ONU.

O amigo das criancinhas


PS&M Inc. recebeu US$ 700 mil para organizar evento do Unicef que não aconteceu


DA SUCURSAL DO RIO

Investigação da Folha nos últimos três meses descobriu outros fatos no caso da empresa de paraíso fiscal ligada a Pelé, 61, que ficou com US$ 700 mil destinados a uma festa do Unicef que não ocorreu:
1) A Pelé Sports & Marketing Inc. assinou contrato com uma empresa de Miami (EUA), a Sports Vision. No documento, Pelé se comprometeu a convencer jogadores e cantores a doar seus cachês e ceder os direitos de imagem ao Unicef.
Com cláusula de confidencialidade, que obriga as partes a guardar segredo, definiu-se que a PS&M Inc. receberia US$ 3 milhões para organizar o evento, em Buenos Aires. A presença de Pelé, que divulgaria a festa em até 25 viagens, seria obrigatória.
2) No dia 20 de novembro de 1994, quando a PS&M Inc. assinou o contrato com a Sports Vision, esta firma não existia, conforme registra certificado obtido pela Folha no Departamento de Estado da Flórida. A Sports Vision só foi criada em 19 de janeiro de 1995.
3) Em 20 de novembro de 1994 também não fora assinado o contrato da PS&M Inc. com o Unicef, firmado mais de dois meses depois. O documento no entanto contém, numa aparente adivinhação, referências minuciosas ao compromisso de 1995 entre a PS&M Inc. e o Unicef.
4) Outra empresa de Miami, a Global Entertainment Organization, tomou um empréstimo de US$ 3 milhões do Banco Patricios Cooperativo, da Argentina, com o objetivo de financiar a organização do Move the World. O banco quebrou antes de fazer o repasse total.
O endereço da Global é o mesmo da Sports Vision em Miami. E o valor do empréstimo é igual à quantia a ser entregue à PS&M Inc., que recebeu US$ 700 mil enquanto o Patricios não fechou.
5) Em 1999, num processo trabalhista movido por um ex-funcionário (ou ex-sócio, dependendo da versão), uma empresa nacional de Pelé, a Pelé Sports & Marketing Ltda., anexou uma carta do presidente da Global Entertainment, Guillermo Bassignani, endereçada à PS&M Ltda.
A carta se referia ao projeto Move the World e favorecia os interesses empresariais de Pelé e seu sócio Hélio Viana. Só que na data em que foi escrita, 7 de maio de 1999, a Global já estava fechada havia quase quatro anos -foi dissolvida em 25 de agosto de 1995, como também apurou a Folha no Departamento de Estado da Flórida.
6) Oficialmente, Pelé não é ligado a outras empresas envolvidas no projeto da Argentina, além da PS&M Inc. Curiosidade: em Buenos Aires, o endereço da PS&M Inc. informado no contrato com o Unicef é o mesmo de Guillermo Bassignani, da Global. Em Miami, o endereço da Global (existência de novembro de 1994 a agosto de 1995) é o mesmo da Sports Vision (janeiro de 1995 a agosto de 1996).
7) Embora Hélio Viana tenha dito, em abril, à CPI da Câmara (CBF-Nike) que investigou o futebol, que era apenas um procurador da PS&M Inc., ele e Pelé tratam em documentos oficiais dos US$ 700 mil como dinheiro seu.
Num documento entregue à Justiça trabalhista e assinado por Pelé e Hélio Viana, a PS&M Inc. e a PS&M Ltda. são tratadas como se fossem a mesma coisa. O registro comercial em paraísos fiscais como as Ilhas Virgens, sede da PS&M Inc., impede que se conheçam os donos das empresas.

Sócios rompem
Os contratos da PS&M Inc. com o Unicef-Argentina e a Sports Vision e a carta do presidente da Global Entertainment estão anexados ao processo 1.526/97, da 18ª Vara do Tribunal Regional do Trabalho, da 1ª Região, no Rio. Em sete volumes, os autos já somam 1.501 páginas.
Trata-se de uma reclamação trabalhista do empresário Roberto Diniz Seabra contra a Pelé Sports & Marketing Ltda. Ele se diz ex-funcionário da empresa, enquanto Pelé e Viana afirmam que Seabra é ex-sócio, o que invalidaria o pleito de caráter trabalhista.
Em 1996, ao sair da PS&M Ltda., Seabra assinou um pacto ("instrumento particular de pactuação de obrigações") com os dois principais sócios da empresa, Édson Arantes do Nascimento (o verdadeiro nome de Pelé) e Hélio Viana.
Seabra teria a receber 50% do lucro líquido de quatro contratos vigentes da empresa, destacadamente o Move the World.
Como não recebeu o que pensa ter direito -é contestado-, foi à Justiça, em 1997. Sem a disputa, não haveria hoje acesso público aos documentos relativos ao projeto na Argentina, juntados ao processo.
Vários aspectos chamam a atenção no contrato da PS&M Inc. com o Unicef-Argentina. Pela empresa, assinam duas pessoas -Viana e Seabra. Pelé assina como "interveniente".
Como no contrato com a Sports Vision e no pacto da ruptura com Seabra, Pelé assina pessoalmente -muitas vezes, ele usa procuradores. Ou seja: não só Viana e Seabra conheciam os detalhes do Move the World. Presente na celebração dos documentos, Pelé sabia de tudo.
Redigido em espanhol, em 17 páginas, o contrato com o Unicef repetidamente informa que a PS&M Inc. nada ganharia, assumindo eventual prejuízo com a realização do evento. Renunciaria "a receber alguma comissão que poderia lhe corresponder como organizador do evento em benefício do Unicef".
Pelé se compromete a jogar e a cantar uma música de sua autoria. Ele doa ao Unicef os direitos (filmagem, publicações etc.) relativos à iniciativa.
Já no contrato da PS&M Inc. com a empresa norte-americana Sports Vision -sete páginas escritas na língua inglesa-, Pelé volta a se comprometer a jogar. Promete até levar o filho, o então goleiro Edinho.
O texto não informa onde foi firmado o compromisso. Desta feita, a PS&M Inc. passa a ter direito a receber US$ 3 milhões, da Sports Vision, que assegura lugar de destaque a Pelé na divulgação: "Sua participação será enfatizada como a figura cativante, principal e central do evento".
Por sua vez, Pelé prometeu "empenhar todo o esforço para convencer os jogadores e cantores reunidos a participar do evento e doar seus ganhos e ceder ao Unicef os direitos de transmissão e reprodução relacionados à sua participação".
Meses depois, ele visitou Diego Maradona em Buenos Aires. Falou com entusiasmo das ações do Unicef, como registram reportagens da época. Na Argentina, o órgão da ONU divulgou as idéias do evento beneficente, destacando a generosidade dos futuros participantes, inclusive Pelé, que nada cobrariam.
Ou seja: Pelé tentaria convencer astros do esporte e da música a atuar de graça, em nome da solidariedade, enquanto a empresa ligada a ele receberia US$ 3 milhões pela sua presença e pela organização da festa.
No contrato com o Unicef-Argentina, Pelé renunciou "em favor do Unicef ao recebimento de alguma soma de cachê profissional, direitos de filmagem e publicação por qualquer meio da sua imagem, assim como da reprodução de sua assinatura, de sua voz e toda participação artística e exploração comercial de seu nome e imagem que esteja relacionada com o evento".
No contrato com a Sports Vision, o ex-jogador deu a essa firma "o direito de usar a imagem, fotografias, vídeos, anúncios de televisão (...) de Pelé em todo o mundo com objetivos relacionados ao evento".
Em suma: depois de se comprometer a organizar o Move the World de graça, a PS&M Inc. e Pelé firmaram contrato com outra empresa para ganhar US$ 3 milhões pelo trabalho.
A PS&M Inc. recebeu US$ 700 mil antes que o Banco Patricios fechasse. Nada foi organizado para o evento. O contrato com o Unicef foi extinto em abril de 1996. Os US$ 700 mil não foram devolvidos nem à Sports Vision nem ao banco (que requisitou a devolução) nem ao Unicef.
Na introdução do contrato com o órgão da ONU, assinado por Pelé, está escrito: ""a Pelé Sports manifestou sua vontade de colaborar com a missão que o Unicef-Argentina leva a cabo no país, concedendo prioridade absoluta à proteção da vida e do desenvolvimento da infância". (MÁRIO MAGALHÃES E SÉRGIO RANGEL)


OUTRO LADO
Pelé se cala; sócio afirma 'inocência'

DA SUCURSAL DO RIO

Procurado desde a última segunda-feira, o empresário e ex-jogador de futebol Pelé não se manifestou sobre os negócios envolvendo o projeto de 1995 com o Unicef-Argentina.
Foram deixados cinco recados em seu escritório de São Paulo. Num dos telefonemas, um assessor, José Fornos Rodrigues, o Pepito, foi avisado sobre as informações recolhidas para a reportagem.
Uma secretária disse que, horas depois, ainda na segunda, Pepito conversaria com Pelé.
Apesar de informado sobre os telefones, o fax e o e-mail do jornal, Pelé não respondeu. Por fax, lhe foram enviadas 15 perguntas, não respondidas.
O empresário Hélio Viana, seu sócio na Pelé Sports & Marketing Ltda., fez breve declaração, na quarta-feira: ""Prefiro não me pronunciar sobre esse assunto. Até porque a Pelé Sports & Marketing Ltda. e o Pelé estão totalmente inocentes nessa história. Jamais recebemos qualquer recurso ou qualquer dinheiro. O máximo que posso dizer é isso". Apesar de divergências que os têm afastado nos últimos meses, Pelé e Viana continuam formalmente como sócios na PS&M Ltda., uma das maiores agências de marketing esportivo do Brasil.
O empresário Roberto Seabra afirmou na terça-feira que só quer falar sobre o projeto Move the World nos autos do processo aberto com a reclamação trabalhista dele contra a PS&M Ltda. ""Por enquanto, falo apenas na Justiça", disse.
O advogado Arnaldo Blaichman, defensor da PS&M Ltda. no processo trabalhista, afirmou: ""A matéria está sub judice. Eu não posso falar sobre ela. Há um juiz, um pedido de comissões do dr. Roberto nesses eventos. Não posso falar nada."
Pelé, Viana e Seabra assinaram o convênio com o Unicef. O contrato com a Sports Vision, que pagaria US$ 3 milhões à PS&M Inc., foi assinado por Pelé e Viana. A Folha não conseguiu localizar em Miami os diretores das extintas Sports Vision e Global Entertainment.
Em 1999, o argentino Guillermo Bassignani, que de 1994 a 1995 foi o presidente da Global, enviou carta à PS&M Ltda.
Escreveu, no documento juntado aos autos pela empresa de Pelé e Viana: ""Informamos que o projeto Move the World, idealizado por nossa empresa em associação com a Sports Vision e o Unicef-Argentina, jamais se realizou em função da quebra do Banco Patricios, que pretendia investir no projeto. Como nenhuma outra empresa se interessou, o evento foi cancelado e os valores contratados com V. Sa. [PS&M Ltda." não foram pagos".
De acordo com documentos anexados ao processo, o dinheiro prometido era para a PS&M Inc., das Ilhas Virgens, e não para a PS&M Ltda., do Brasil. A PS&M Inc. reconhece que recebeu US$ 700 mil.
O Unicef na Argentina afirmou desconhecer que alguma empresa tenha recebido dinheiro pelo projeto frustrado. Julio Hurtado, coordenador de programas, disse que ""efetivamente se firmou um convênio, mas não se realizou a atividade". Por telefone, afirmou: "Não se levou o evento a cabo porque não se deram as condições. Essa é a notícia que temos. O Unicef nada recebeu".
Sobre o recebimento de US$ 700 mil pela PS&M Inc., Hurtado falou: ""Não sabemos disso. Para nós, até que vocês nos chamassem, não havia nenhum problema". (MM e SR)


Ex-atleta terá novo projeto

ROBERTO DIAS
EDITOR-ASSISTENTE DE ESPORTE

Pelé é a grande estrela esportiva da campanha conjunta que o Unicef e a Fifa anunciarão na próxima terça-feira em Nova York.
O projeto, parte do programa Say Yes for Children (Diga Sim pelas Crianças), desenvolvido pelo Unicef, transformará a Copa do ano que vem, que acontecerá na Coréia e no Japão, no primeiro Mundial de futebol dedicado a uma causa humanitária.
A iniciativa deveria ter sido mantida em sigilo. Só veio a público por causa de um engano da assessoria de imprensa da Fifa, que distribuiu nota à imprensa antes do acordado.
Os detalhes da ação, porém, só serão divulgados na terça-feira, dia em que o Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas) debaterá a situação de crianças em áreas afetadas por conflitos e guerras.
Além de Pelé, são esperados na cerimônia de Nova York o presidente da Fifa, Joseph Blatter, o secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, e o ator Roger Moore, que é embaixador do fundo da ONU para as crianças.
"Como entidade esportiva global, é obrigação da Fifa ajudar as crianças de todo o mundo, porque o futebol é educação e oferece diversão sobre uma base de tolerância, respeito e esportividade", afirma Blatter no comunicado.
Sob a gestão do suíço na Fifa, já foram desenvolvidas outras parcerias com o Unicef. No ano passado, por exemplo, um projeto viabilizou a doação de material esportivo em Kosovo, para crianças que viviam em campos de refugiados. Além disso, a entidade que comanda o futebol mundial trabalha junto com as Nações Unidas em campanhas de combate à poliomielite e na venda de diversos produtos com receita revertida para ações humanitárias em todo o planeta.



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