[Cevmkt-L] HTMF E CORINTHIANS

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Date: Sun, 5 Aug 2001 15:03:54 -0300
 
Domingo, 5 de agosto de 2001
Uma discreta revolução do Corinthians
Gastar pouco e investir em jovens jogadores promissores para formar novos ídolos. Clube e Hicks Muse adotaram o modelo idealizado pelo técnico Luxemburgo

O Corinthians e a Hicks Muse escolheram um novo caminho para mexer com o futebol brasileiro. Assustados com o inflacionado mercado de jogadores, dirigentes do clube e empresa resolveram apostar nos jovens - avaliados no máximo em US$ 1 milhão - para formar ídolos no time e garantir lucros mais tarde. O mentor dessa discreta mudança de curso é o técnico Wanderley Luxemburgo.

A história começou quando o Corinthians ainda vivia dias de incerteza no Campeonato Paulista. Luxemburgo e sua comissão técnica perceberam que o time deveria sofrer uma reformulação para dar início a uma nova estratégia. A conquista do título paulista facilitou a implantação do projeto.

Em 6 de julho, em uma reunião entre Alberto Dualib, presidente do Cortinhians, Richard Law, diretor da Hicks Muse, Wanderley Luxemburgo e assessores, o projeto foi aprovado. Clube e empresa sairiam atrás de jovens jogadores para dar início ao processo de renovação.

Luxemburgo assumiu as negociações investido no cargo de diretor-técnico do Corinthians. Na sua lista estavam Fabinho, volante e lateral do São Caetano; Deivid, atacante do Santos; Renato, meia-esquerda do Guarani; Doni, Luciano e Leandro, os três do Botafogo de Ribeirão Preto, e Edu Dracena, zagueiro do Guarani. A média de idade: 20 anos.

Dualib e Law encarregaram Luxemburgo de tratar com os clubes. A Hicks Muse abriu o caixa com uma ressalva: cada jogador não poderia custar mais de US$ 2 milhões.

O técnico procurou os dirigentes do São Caetano e fechou a contratação de Fabinho por US$ 1,5 milhão. Com o Botafogo, fechou o pacote com Leandro, Doni e Luciano por US$ 1,1 milhão - 50% do passe dos três jogadores. Renato, do Guarani, saiu por US$ 700 mil - 50% do passe. Os outros 50% pertencem ao empresário Fernando César.

No fim das contas, o consórcio Corinthians-Hicks Muse contratou seis jogadores e os gastos não passaram de US$ 4 milhões. Todos os atletas assinaram contratos por quatro anos.

Aos reforços, Luxemburgo promoveu o goleiro Rubinho, o zagueiro Marquinhos e o lateral Angelo, os três do time de juniores. Gil e Éwerthon, que saíram das categorias de base e participaram da campanha no primeiro semestre, também permaneceram no grupo apesar do assédio dos europeus.

Identidade com a torcida

"Quando decidimos seguir esse caminho, estávamos pensando não só no Corinthians mas no futebol brasileiro. Temos de formar novos ídolos, criar uma identidade entre os jogadores e os clubes. Isso, mais cedo ou mais tarde, acaba influenciando também na Seleção Brasileira", explicou Luxemburgo.

O técnico, que já passou pela Seleção, avalia que o futebol brasileiro está carente de ídolos e que se tornou urgente investir nos jovens jogadores. Ele explica sua tese: "Nossos melhores jogadores estão na Europa. Eles chegam aqui na Seleção e não têm mais identidade com o torcedor. São mais ídolos lá fora do que aqui. O Rivaldo, por exemplo, é assediado por onde o Barcelona passa. Aqui, a torcida não gosta dele e o trata mal. É por isso que os clubes brasileiros precisam mudar de filosofia. Devem deixar de investir nos jogadores consagrados e apostar na juventude."

Luxemburgo acredita que os jogadores promissores, que se destacam nos times pequenos, chegam no clube grande com mais gana. "Eles querem conquistar espaço no clube e ter o reconhecimento da torcida. O objetivo final é sempre a Seleção Brasileira. Tenho certeza que eles vão criar identidade com o clube, Seleção e com a torcida. Esse é o processo."

O outro aspecto do projeto é a valorização financeira. Quando a Hicks Muse concordou em bancar até US$ 1 milhão por cada um dos jovens, estava pensando também no lucro que terá com os garotos.

"Isso é inevitável e faz parte da estratégia de todos os investidores.

Ninguém vai pôr dinheiro sem pensar no retorno. A Hicks está investindo agora para faturar mais tarde. É até natural que seja assim", comenta o treinador.

Lucro projetado

No esquema, a Hicks espera faturar até cinco vezes mais do que está investindo agora. A projeção da empresa passa por um bom desempenho do Corinthians no atual Brasileiro.

"Se formos bem no campeonato, nossos jogadores serão assediados pelos clubes europeus. Exatamente por isso a maioria dos contratos foi feita por quatro anos. Os atletas serão valorizados e mais tarde o patrocinador poderá ter o lucro almejado", assinala o técnico.

A questão é essa: quem garante que um time formado por muitos garotos terá um bom desempenho no campeonato? A comissão técnica aposta em Scheidt, Otacílio, Rogério, Ricardinho, Paulo Nunes e no retorno de Luizão para dar suporte aos novos.

"Temos uma base pronta e com opções para suportarmos o campeonato. Os resultados virão com a seqüência do trabalho", insiste Luxemburgo.

No comando da Hicks Muse e do Corinthians a expectativa é de um bom Campeonato Brasileiro. Os dirigentes fizeram as contas e perceberam que não havia mesmo outro caminho a seguir.

Quando o clube e a empresa pensaram em repatriar um grande jogador que está na Europa, descobriram que não poderiam vencer a concorrência. Luxemburgo pondera: "Não podemos competir com os clubes que pagam US$ 150 mil por mês para um jogador. Nem temos condições de disputar um atleta no mercado internacional por US$ 10 milhões. Mas temos todas as condições de competir no mercado nacional com os jovens cotados a US$ 1 milhão. É a nossa realidade."


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