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Domingo,
5 de agosto de 2001
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| Uma discreta revolução do
Corinthians |
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Gastar pouco e investir em jovens
jogadores promissores para formar novos ídolos. Clube e Hicks Muse
adotaram o modelo idealizado pelo técnico Luxemburgo
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O Corinthians e a Hicks Muse escolheram um novo caminho para mexer com
o futebol brasileiro. Assustados com o inflacionado mercado de jogadores,
dirigentes do clube e empresa resolveram apostar nos jovens - avaliados no
máximo em US$ 1 milhão - para formar ídolos no time e garantir lucros mais
tarde. O mentor dessa discreta mudança de curso é o técnico Wanderley
Luxemburgo.
A história começou quando o Corinthians ainda vivia dias de incerteza
no Campeonato Paulista. Luxemburgo e sua comissão técnica perceberam que o
time deveria sofrer uma reformulação para dar início a uma nova
estratégia. A conquista do título paulista facilitou a implantação do
projeto.
Em 6 de julho, em uma reunião entre Alberto Dualib, presidente do
Cortinhians, Richard Law, diretor da Hicks Muse, Wanderley Luxemburgo e
assessores, o projeto foi aprovado. Clube e empresa sairiam atrás de
jovens jogadores para dar início ao processo de renovação.
Luxemburgo assumiu as negociações investido no cargo de
diretor-técnico do Corinthians. Na sua lista estavam Fabinho, volante e
lateral do São Caetano; Deivid, atacante do Santos; Renato, meia-esquerda
do Guarani; Doni, Luciano e Leandro, os três do Botafogo de Ribeirão
Preto, e Edu Dracena, zagueiro do Guarani. A média de idade: 20 anos.
Dualib e Law encarregaram Luxemburgo de tratar com os clubes. A Hicks
Muse abriu o caixa com uma ressalva: cada jogador não poderia custar mais
de US$ 2 milhões.
O técnico procurou os dirigentes do São Caetano e fechou a contratação
de Fabinho por US$ 1,5 milhão. Com o Botafogo, fechou o pacote com
Leandro, Doni e Luciano por US$ 1,1 milhão - 50% do passe dos três
jogadores. Renato, do Guarani, saiu por US$ 700 mil - 50% do passe. Os
outros 50% pertencem ao empresário Fernando César.
No fim das contas, o consórcio Corinthians-Hicks Muse contratou seis
jogadores e os gastos não passaram de US$ 4 milhões. Todos os atletas
assinaram contratos por quatro anos.
Aos reforços, Luxemburgo promoveu o goleiro Rubinho, o zagueiro
Marquinhos e o lateral Angelo, os três do time de juniores. Gil e
Éwerthon, que saíram das categorias de base e participaram da campanha no
primeiro semestre, também permaneceram no grupo apesar do assédio dos
europeus.
Identidade com a torcida
"Quando decidimos seguir esse caminho, estávamos pensando não só no
Corinthians mas no futebol brasileiro. Temos de formar novos ídolos, criar
uma identidade entre os jogadores e os clubes. Isso, mais cedo ou mais
tarde, acaba influenciando também na Seleção Brasileira", explicou
Luxemburgo.
O técnico, que já passou pela Seleção, avalia que o futebol brasileiro
está carente de ídolos e que se tornou urgente investir nos jovens
jogadores. Ele explica sua tese: "Nossos melhores jogadores estão na
Europa. Eles chegam aqui na Seleção e não têm mais identidade com o
torcedor. São mais ídolos lá fora do que aqui. O Rivaldo, por exemplo, é
assediado por onde o Barcelona passa. Aqui, a torcida não gosta dele e o
trata mal. É por isso que os clubes brasileiros precisam mudar de
filosofia. Devem deixar de investir nos jogadores consagrados e apostar na
juventude."
Luxemburgo acredita que os jogadores promissores, que se destacam nos
times pequenos, chegam no clube grande com mais gana. "Eles querem
conquistar espaço no clube e ter o reconhecimento da torcida. O objetivo
final é sempre a Seleção Brasileira. Tenho certeza que eles vão criar
identidade com o clube, Seleção e com a torcida. Esse é o processo."
O outro aspecto do projeto é a valorização financeira. Quando a Hicks
Muse concordou em bancar até US$ 1 milhão por cada um dos jovens, estava
pensando também no lucro que terá com os garotos.
"Isso é inevitável e faz parte da estratégia de todos os investidores.
Ninguém vai pôr dinheiro sem pensar no retorno. A Hicks está
investindo agora para faturar mais tarde. É até natural que seja assim",
comenta o treinador.
Lucro projetado
No esquema, a Hicks espera faturar até cinco vezes mais do que está
investindo agora. A projeção da empresa passa por um bom desempenho do
Corinthians no atual Brasileiro.
"Se formos bem no campeonato, nossos jogadores serão assediados pelos
clubes europeus. Exatamente por isso a maioria dos contratos foi feita por
quatro anos. Os atletas serão valorizados e mais tarde o patrocinador
poderá ter o lucro almejado", assinala o técnico.
A questão é essa: quem garante que um time formado por muitos garotos
terá um bom desempenho no campeonato? A comissão técnica aposta em
Scheidt, Otacílio, Rogério, Ricardinho, Paulo Nunes e no retorno de Luizão
para dar suporte aos novos.
"Temos uma base pronta e com opções para suportarmos o campeonato. Os
resultados virão com a seqüência do trabalho", insiste Luxemburgo.
No comando da Hicks Muse e do Corinthians a expectativa é de um bom
Campeonato Brasileiro. Os dirigentes fizeram as contas e perceberam que
não havia mesmo outro caminho a seguir.
Quando o clube e a empresa pensaram em repatriar um grande jogador que
está na Europa, descobriram que não poderiam vencer a concorrência.
Luxemburgo pondera: "Não podemos competir com os clubes que pagam US$ 150
mil por mês para um jogador. Nem temos condições de disputar um atleta no
mercado internacional por US$ 10 milhões. Mas temos todas as condições de
competir no mercado nacional com os jovens cotados a US$ 1 milhão. É a
nossa realidade."

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