QUEM VÊ O
QUÊ
Grupo brasileiro une-se a empresa espanhola para criar
um novo instituto de medição de audiência na TV; emissoras divergem sobre o
assunto
Ibope deve ganhar concorrente ainda este
ano
Zulmair Rocha/Folha Imagem
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Gabriel Pazos, presidente do grupo de
pesquisa Gerp |
CLÁUDIA
CROITOR DA REPORTAGEM LOCAL
DOMINADO há quase 50 anos pelo Ibope -cujos números são responsáveis pelo
rumo seguido por grande parte da programação das emissoras e pelo destino dos
cerca de R$ 5 bilhões que são aplicados todos os anos em publicidade na TV -, o
mercado brasileiro de medição de audiência está prestes a ganhar um
concorrente. O grupo espanhol Corporación Multimedia, que desenvolve
tecnologias para televisão -entre elas a de medição de audiência, utilizada em
alguns países da Europa, como a Espanha- associou-se ao instituto Gerp, do Rio
de Janeiro, e até o final deste ano pretende estar medindo em tempo real a
audiência das emissoras em São Paulo e no Rio. "A amostra que a TV brasileira
possui hoje para verificação de audiência é insuficiente. Há um monopólio de
comum acordo entre emissoras e agências de publicidade nesse mercado, e é
preciso uma mudança", disse à Folha, por telefone de seu escritório em Madri,
José Luís Troiano, vice-presidente da Corporación Multimedia. "E estamos
chegando com uma proposta diferente de medição de audiência." Segundo
Troiano, as duas empresas estão desenvolvendo um projeto para a implantação da
pesquisa, que deve começar a ser testada no fim de setembro e pode ser
implantada até o final do ano. O investimento inicial, segundo os grupos, é de
US$ 1,8 milhão. Para tentar achar espaço nesse mercado, a Gerp Videorating -o
nome que vai receber a nova companhia, associação entre o Gerp e a Corporación
Multimedia- promete trazer inovações. Segundo Gabriel Pazos, presidente do Gerp,
a diferença entre o novo instituto e o Ibope estará tanto no universo pesquisado
quanto na apresentação dos resultados das pesquisas ao cliente. Pazos afirma
que o novo instituto vai instalar "peoplemeters" (aparelhos de medição de
audiência) em 1.200 domicílios na Grande São Paulo e 800 no Grande Rio, contra
750 e 450, respectivamente, do Ibope (veja como se dá a medição da audiência em
quadro ao lado). "Além disso, os clientes vão receber on line, em tempo real,
não só os números, mas o perfil da audiência de cada emissora no momento,
dividido por sexo, idade, classe social etc. Vai ser possível visualizar na
hora, por meio de gráficos, quando parte da audiência da Globo muda para o SBT,
por exemplo", afirma Pazos. Atualmente, as emissoras recebem do Ibope, em
tempo real, apenas os números da audiência em São Paulo. Os dados qualitativos,
com o perfil da audiência, só chegam no dia seguinte. As outras capitais não
recebem os números em tempo real. Para o Ibope, a concorrência é "bem-vinda",
mas não terá lugar no mercado. "Ninguém tem condições de pagar a dois institutos
diferentes para obter os mesmos resultados. Fazemos um serviço sério, as
emissoras e agências de publicidade estão satisfeitas conosco, confiam nos
nossos números. Então, não há espaço para mais um instituto", afirma Carlos
Augusto Montenegro, diretor-executivo do Ibope. A Folha apurou que,
para ter uma assinatura com a medição on line e os dados de perfil de audiência,
cada emissora paga ao Ibope cerca de R$ 1,5 milhão por ano por cada cidade
pesquisada. Reserva Profissionais do mercado publicitário ouvidos pela Folha
mostraram-se reticentes quanto à entrada de um concorrente do Ibope no mercado.
"Seria uma concorrência salutar para o mercado, mas é difícil que a nova empresa
consiga clientes", disse José Petrúcio de Melo, ex-diretor da Abap (Associação
Brasileira das Agências de Publicidade). Para Daniel Barbará, diretor comercial
da agência DPZ, é um investimento arriscado. "Ninguém que tentou entrar nesse
mercado conseguiu. É muito difícil, acho que as agências e as emissoras estão
satisfeitas com o Ibope." Entre as três maiores emissoras de TV, há posições
divergentes. O SBT, segundo seu diretor de programação, Mauro Lissoni, apóia a
iniciativa. "O monopólio tem suas desvantagens e a concorrência certamente fará
com que o Ibope melhore o serviço prestado, estabelecendo parâmetros de
comparação hoje inexistentes." A Globo, segundo o diretor da Central Globo de
Comunicações, Luís Erlanger, diz que está satisfeita com os serviços do Ibope e
que o novo instituto precisa "oferecer um diferencial muito grande, que
justifique o interesse da emissora". A direção da Record disse que não se
pronunciaria sobre o assunto. Essa não é a primeira vez que alguém tenta
concorrer com o Ibope. Em 1995, Silvio Santos associou-se à empresa
norte-americana Nielsen para montar um concorrente do instituto que chegou a ser
instalado. Mas, os números apurados nunca foram divulgados, e na época
suspeitou-se que os resultados ficaram muito próximos aos apresentados pelo
Ibope. Pouco depois, o instituto de pesquisa Toledo & Associados
desenvolveu um aparelho semelhante ao "peoplemeter" e tentou vender a nova
pesquisa a emissoras de TV e agências. Apesar de a investida não ter dado certo
na época, o instituto não desistiu do projeto e pretende novamente colocá-lo em
prática. "Na época, todos me desencorajaram, e o investimento era muito alto
para a empresa", diz Francisco de Toledo, presidente do instituto. "Mas
retomamos os estudos da medição de audiência e estamos desenvolvendo um novo
aparelho. Creio que poderemos pôr o projeto em prática com mais rapidez e menor
investimento." O que motiva os candidatos a concorrentes do Ibope são as
dúvidas constantemente levantadas quanto à confiabilidade dos dados do
instituto. Para checar a veracidade dos resultados da pesquisa, a Abap/Redes
(união da Abap com Globo, Band, Record e SBT) mantém uma auditoria constante no
instituto, cujo relatório é confidencial. "Não encontramos nenhuma falha que
comprometa a medição da audiência", diz Barbará, que participa da comissão da
Abap/Redes. Mesmo assim, defeitos técnicos já influíram no resultado da
pesquisa. Há cerca de dois meses, uma falha no sistema de processamento do Ibope
alterou a audiência da TV Gazeta durante cinco dias. O erro levou o canal a
divulgar que liderou a audiência durante o programa "Mulheres", que na verdade
estava em terceiro lugar. O programa "Clipper", que raramente passa de um ponto,
obteve sete de média nesse mesmo dia (cada ponto equivale a 80 mil
telespectadores na Grande São Paulo).
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