|
Sem dinheiro, Flamengo acaba com
seus esportes olímpicos Claudio Nogueira
Uma
tragédia em vermelho e preto. Acabaram os esportes olímpicos no Flamengo. Em
reunião ontem à noite, na sede da Gávea, a diretoria do clube decidiu retirar o
apoio aos esportes amadores, com exceção do basquete — o único cujos atletas,
entre os quais ala Oscar Schmidt — continuarão a receber salários.
O
remo, cuja existência é obrigatória por força do estatuto, também continuará a
ser apoiado, mas sem remuneração. Noutras modalidades tradicionais, como natação
e ginástica, também não haverá mais pagamento, nem mesmo aos nadadores Monique
Ferreira, Alexandre Massura, Flávia Delaroli e Kaio Márcio, da seleção
brasileira, ou à ginasta Danielle Hypólito, atleta olímpica.
O clube já
perdera o time feminino de vôlei, campeão da Superliga; o nadador Fernando
Scherer; o judoca Aurélio Miguel e o time de futsal.
— O Flamengo não
tem patrocínio para os esportes olímpicos. Se não tenho patrocínio, como vou
mantê-los? As federações e confederações, que vão receber dinheiro da Lei Piva
(repassa percentuais da Loteria Esportiva para o Comitê Olímpico Brasileiro) é
que têm de investir — afirmou o presidente Edmundo Silva.
Segundo ele,
os cortes são inevitáveis. Argumentou que a receita do futebol mantém o futebol
e a receita do social mantém as atividades sociais, mas a receita do esporte
amador só paga o basquete:
— O esporte amador vai ser realmente amador.
Só o basquete continuará remunerado, porque temos patrocínio específico. Em
todos os esportes, vamos pagar a todos tudo o que devemos. Aí, o esporte amador
passa a não ter mais remuneração.
Há informações de que Edmundo vai
preservar o basquete também porque um possível rompimento de contrato com Oscar
implicaria em multa pesada.
— Sou apaixonado por esporte amador. Sou
alucinado por vôlei, natação, ginástica... Mas o Flamengo não tem dinheiro. Como
vou mantê-los? Se não tenho dinheiro, não posso ter esses esportes. A prioridade
é sanear as finanças do clube — afirmou.
Perguntado sobre como fará com
nomes como Danielle Hypólito, ginasta que foi às Olimpíadas, Edmundo respondeu:
— Ela também não receberá nada. O Flamengo sempre formou atletas, mas
não recebe um centavo do governo. O esporte amador é cultura, mas não tem
patrocínio.
Edmundo informou que gasta mensalmente R$ 600 mil com os
atletas olímpicos. Deste total, R$ 150 mil no basquete e R$ 60 mil no remo.
Quando tinha o apoio da ISL, há três meses, gastava R$ 1,5 milhão/mês.
—
Eu trouxe Oscar, Leila, Aurélio Miguel, mas as empresas não estão se
interessando, talvez porque os clubes não tenham credibilidade. A partir de
quarta-feira, vou me reunir com todos os departamentos, e cada um pode buscar
seu patrocínio — afirmou.
O presidente reconheceu que o esporte amador
vai perder, mas reclamou:
— Por exemplo, a Confederação Brasileira de
Vôlei nos deu um cheque de R$ 2 mil pela temporada na Superliga Feminina. A CBV
tem dinheiro, mas os clubes, não!
A notícia pegou de surpresa a diretora
de esportes aquáticos, Patrícia Amorim, que em 2002, fará 25 anos de clube.
— Estou em estado de choque!...Vou tentar conversar com o presidente
para tentar mudar este quadro e tentar ajudar o clube de alguma forma. Fico
triste, porque existem a tradição e a história. Até esperava cortes, mas não sei
o que dizer — lamentou-se ela.
Patrícia afirmou que politicamente a
idéia de Edmundo é ruim. A realidade é que ele foi eleito duas vezes, com
votação maciça nos esportes amadores e escolinhas, que decidem eleições na
Gávea.
No caso da natação, os atletas que já disputaram qualquer prova
oficial pelo clube, ficam “presos” o ano inteiro, sem poderem se transferir.
— Vou correr atrás. No que depender de mim, a natação não vai acabar.
Tenho este compromisso de gratidão com a natação e com o Flamengo. Enquanto
viver, vou lutar pela natação — disse Patrícia.
|