FUTEBOL
Parceria com a TAM não é unanimidade entre
os grandes; prejudicados cogitam ida à Justiça
Acordo
pode parar nos tribunais
DA REPORTAGEM LOCAL
A parceria entre Clube
dos 13 e TAM para o Brasileiro não foi aprovada por alguns dos principais clubes
do país e, por prejudicar agências de turismo ligadas tradicionalmente a equipes
de futebol, pode acabar até na Justiça.
"Nossa programação é totalmente
distinta. Queremos ter liberdade para escolher uma companhia aérea. Às vezes,
queremos sair às 9h, e não às 11h. Hoje, arrumamos vôos se fazemos uma
alteração", disse José Dias, diretor de futebol do São Paulo, time que não
fechou acordo.
O time voltou de Ribeirão Preto, onde atuou na quarta-feira à
noite, em vôo fretado da Rio Sul.
O Corinthians também não assinou o
contrato. ""Nosso time tem jogos como mandante fora de São Paulo que o acordo
com a TAM não prevê. Temos contrato com a Pepsi na camisa, o que seria outro
problema. Para os clubes com pouco poder financeiro, o contrato é bom. Para
outros, não", disse Antonio Roque Citadini, vice de futebol corintiano.
O
Corinthians voltou de Presidente Prudente, onde também jogou na quarta, pela
Total Linhas Aéreas. Neste fim de semana, outros clubes já agendaram viagens sem
a TAM -o Flamengo vai para Goiânia pela Total Linhas Aéreas, e o Atlético-MG
deve ir a Caxias do Sul com a Rio Sul e voltar para Belo Horizonte pela
Total.
O contrato entre Clube dos 13 e TAM oferece cerca de R$ 7 milhões aos
times em passagens aéreas. Os clubes cedem espaços nas camisas, caso do Bahia,
ou em placas, caso do Cruzeiro -outros espaços, como a faixa do capitão do time,
seriam exploradas.
"O contrato é bom para os clubes e para a TAM. Os técnicos
não têm que reclamar, pois eles não pagam as contas. E é normal que as agências
de turismo reclamem", disse Jaime Franco, diretor de marketing do Clube dos
13.
A TAM, que ainda espera fechar com todos os clubes, diz que o contrato é
""experimental" e que ainda precisa ser melhorado porque foi desenhado em meio à
indefinição sobre o Brasileiro. A companhia nega ter praticado dumping -estaria
dando desconto de 95% nas passagens.
"Não é um contrato de venda. É de
patrocínio, só para um campeonato. E é um contrato experimental", disse Paulo
Pompilio, assessor de imprensa da TAM.
A Associação Brasileira de Agentes de
Viagens (Abav) cogita ir à Justiça. ""É um contrato de compra e venda, com
permuta, que prejudica as agências. A TAM chega a oferecer 62% de desconto nas
passagens. Isso é dumping, concorrência desleal. E o contrato precisa ser
assinado por todos os clubes. Sem um, o Clube dos 13 não tem poder de
representação", disse Nelson Petrone, advogado da Abav.
(RODRIGO BUENO)
Baixo clero refuta proposta
feita por C13 e CBF
DA REPORTAGEM LOCAL
Os times da Série B do
Campeonato Brasileiro estão descontentes com uma oferta que teriam recebido do
Clube dos 13 e da CBF que exigia vôos pela TAM.
Os times do baixo clero do
futebol nacional teriam que concordar com a cessão dos direitos de captação,
fixação e transmissão de sons e imagens de todos os jogos que fizerem na
competição.
Em troca, cada clube receberia 23 passagens aéreas da TAM para
jogos a mais de 400 km de distância ou ônibus especial para partidas mais perto
da sede.
Os times mais modestos do país, que normalmente têm dificuldades
para pagar o transporte nos torneios nacionais, ganhariam ainda de R$ 3.000 a R$
5.000 por jogo fora de casa. A proposta, porém, foi vista como indecente pelos
participantes da Série B.
A TAM disse que pode negociar com treinadores
""exigentes" horários de vôo. ""Nossa preocupação é oferecer o melhor produto
para todos. Acho exagerado um técnico reclamar de vôo por causa de uma hora. Com
os técnicos mais exigentes, podemos negociar", disse Paulo Pompilio, assessor de
imprensa da TAM. (RBU)
O COMEÇO
São José, que decolou em
1927, antecipou utilização de avião para equipes se locomoverem
Gaúcho é precursor em viagens aéreas
CARLOS ALBERTO DE SOUZA
DA AGÊNCIA FOLHA, EM PORTO
ALEGRE
A rotina de viagens aéreas a que os 28 clubes do
Brasileiro estarão entregues até dezembro teve como precursor o São José, time
da primeira divisão do Rio Grande do Sul que, em 5 de junho de 1927, decolou de
Porto Alegre para Pelotas a bordo do hidroavião Atlântico.
O jornal "Correio
do Povo", o mais antigo da capital gaúcha, registrou, no dia 7 de junho daquele
ano, que o São José "foi o primeiro clube da América do Sul, quiçá do globo, a
utilizar-se de avião para o transporte de um time de foot-ball".
Em 1927, um
dos principais assuntos da imprensa eram "as grandes provas aéreas", denominação
dada às tentativas, nem sempre bem-sucedidas, de vôos entre cidades
distantes.
Teve grande destaque, por exemplo, a façanha do piloto
norte-americano Charles Lindberg, que venceu as 3.600 milhas entre Nova York e
Paris em um vôo direto que durou 33 horas.
O Atlântico, então a única
aeronave da recém-fundada Empresa de Viação Aérea Rio Grandense, a Varig, levou
três horas para percorrer a distância entre Porto Alegre e Pelotas, que é de 255
km por via terrestre.
Atualmente, os aviões Brasília que operam no trecho
saem da capital às 14h30 e chegam à cidade da zona sul do Estado às 15h55,
fazendo uma escala de 15 minutos em Rio Grande.
O São José contratou o
Atlântico para que seus atletas "não fossem privados do seu labor diário [na
época os atletas eram amadores e trabalhavam"".
"A valente rapaziada do
zequinha [apelido do São José"" chegou duas horas antes do jogo, empatado em 2 a
2. Mas nem tudo foi tranquilo no embarque.
Poderia não haver lugar para toda
a delegação, o que causou preocupação, pois ninguém queria ficar de fora, e o
peso a ser transportado teve de ser recalculado, porque a pesagem inicial não
havia levado em conta os sobretudos dos passageiros.
A viagem, conforme
relata uma revista editada em 98 para comemorar os 85 anos do São José, foi
planejada quando o time retornava de bonde à sua sede, após um jogo. Os autores
da idéia foram Edgar Vielitz, então diretor de futebol, e o secretário Moisés
Antunes da Cunha.