| Sexta-feira, 3 de agosto de 2001 | |
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Botaram Cristo na crise da Seleção, e não foi nenhum pastor de almas.
Quem cometeu a heresia foi simplesmente o presidente da CBF, Ricardo
Teixeira.
À falta de explicações para o momento péssimo do time que leva o escudo da
entidade e quatro estrelas na camisa, Teixeira traçou uma analogia que soa
irreverente mas evidencia desconhecimento absoluto da matéria.
Cartola de vários bicos, o presidente que confessa ignorância no futebol é
um especialista quando se trata de negociar patrocínios, área em que não apenas
revela eficácia na defesa da entidade, como astúcia para garantir o seu. O
contrato firmado com a Ambev resultou numa comissão de US$ 8 milhões a uma
empresa que supostamente aproximou as partes. O detalhe é que o acordo já estava
feito, conforme informou o próprio Teixeira à CPI da Nike (10/4/01), e só mais
tarde a firma de intermediação foi incluída no negócio.
Assim caminha o futebol brasileiro, às vésperas de mais uma eliminatória
decisiva, que os otimistas consideram um jogo igual aos outros, imaginando que
os pontos classificatórios virão contra Chile e Venezuela. Na entrevista a Cosme
Rímoli, a única que concedeu em muitos meses, publicada no JT, o presidente
jactou-se de ter resolvido os problemas materiais da Seleção, que dispõe das
melhores condições para exercer seu ofício.
'Minha obrigação é fazer a Seleção jogar nas melhores condições, pagar
premiação e só', disse Teixeira.
Ora, se do posto executivo máximo do nosso futebol só se pedisse isso, seria
melhor contratar, por um salário dezenas de vezes menor, um administrador.
De um presidente se espera liderança, que ele não tem. Exige-se comando
sobre a cartolagem, para estabelecer um calendário com regras de acesso e
descenso. Pede-se iniciativa para combater, se não a corrupção de caixa 2, o
tráfico de menores que teve de ser apurado pela própria CPI. Cobra-se seriedade
para impor transparência na administração dos clubes e evitar calotes salariais
- para dizer o mínimo - que viraram praxe de comportamento até em grandes e
tradicionais agremiações como Flamengo, Vasco e Botafogo.
Como Ricardo Teixeira não demonstra nenhum apreço pelas causas acima
descritas, tornou-se refém, quem diria, dos resultados do time da CBF. Ao
repórter do JT, confidenciou que não suporta mais as cobranças de seu filho, e
este por sua vez também é pressionado pelos amgios a cada mau resultado da
Seleção.
Fica tenso só de imaginar o Brasil fora da Copa, situação que o colocaria na
condição de procurado nº 1 por 150 milhões de torcedores. 'Não vou ser eu esse
presidente, não', prometeu Teixeira a Cosme.
Nosso longo campeonato
Fora a goleada sofrida pelo São Caetano, nenhum resultado surpreendente na
abertura do Campeonato Brasileiro, que vai se estender por mais 26 rodadas e
terminar decidido em quatro partidas adicionais do tipo mata-mata entre os oito
melhores classificados.
Nem vale a pena reclamar dessa esquizofrenia que faz lotar de futebol os
horários noturnos dos dias úteis e as tardes de fim de semana, após o hiato em
que ficaram pendurados em total inatividade, por mais de dois meses, vários dos
grandes clubes - Santos, Fluminense, Portuguesa, Inter, Atlético Mineiro.
O lado poliana da competição é que, ao menos, vai oferecer confrontos
melhores em técnica e emoção que esta sofrível Seleção, agora adepta, por obra
de seu treinador, de trampolinagens.
O amistoso com o Panamá foi marcado para enganar os trouxas, isto é, os
clubes europeus, que serão obrigados a ceder os convocados até o dia 6, pois o
tal treino, como definiu Felipão, vai acontecer no dia 9. Como o dia seguinte é
uma sexta, não haverá tempo para que eles se reapresentem do outro lado do
Atlântico, e assim ficarão à disposição do técnico para enfrentar o Paraguai, no
dia 15.
Trata-se de manobra da mesma matriz que fez o auxiliar Murtosa surgir no
banco brasileiro, naquela desonrosa batalha diante de Honduras, embora estivesse
suspenso.
É o estilo Felipão. Se de um lado mostra personalidade, como reverenciou
Ricardo Teixeira na entrevista, é fundamentalista na busca de resultados para
seu time, algo que não raro o leva a lançar uma segunda bola em campo com a
partida em movimento, quando seu time está em desvantagem.
Uma crise na crise
Os jogadores argentinos decretaram greve e a primeira rodada do campeonato,
neste fim de semana, não deve se realizar. Os clubes quebraram bem antes do
país. O rombo, só em salários e benefícios atrasados, é superior a US$ 30
milhões.

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