Rico menino pobre
Futebol argentino está falido, mas não vive crise técnica, como o Brasil
RODRIGO BUENO
DA REPORTAGEM LOCAL
O futebol argentino vive hoje a maior crise de sua
história.
Dizer isso no Brasil hoje parece piada, mas não é. Financeiramente,
a Associação de Futebol Argentino (AFA) e os clubes do país estão praticamente
quebrados.
O futebol argentino, mesmo com investimentos de multinacionais
muito menos vultosos do que os que recebem a seleção brasileira e grandes clubes
nacionais, vive ótima fase técnica, diferentemente do que ocorre no Brasil.
O
Campeonato Argentino deveria começar hoje, mas, por razões econômicas, foi
adiado. No Brasil, devido a uma longa batalha jurídica, o principal torneio
nacional esteve ameaçado de não acontecer, mas teve início anteontem, como
originalmente previsto.
A terrível crise financeira por que passa a Argentina
atualmente já chegou ao futebol do país faz tempo. O grande símbolo da derrocada
econômica do futebol do país é o Racing, tradicional clube que teve falência
decretada e patrimônio comprometido em 1998.
Jogadores de vários clubes
argentinos estão com salários e prêmios atrasados. O sindicato dos atletas do
país não admite o início do Torneio Apertura na Argentina se as dívidas não
forem sanadas. A federação negocia com o sindicato desde maio, quando prometeu
arcar com a dívida, mas está sem dinheiro.
Julio Grondona, presidente da AFA,
tem pedido empréstimos de quase US$ 30 milhões a bancos para pagar os jogadores,
mas, devido à crise no país, não tem conseguido sucesso. O dirigente também tem
apelado para o governo, que está bem mais preocupado agora com o fato de sua
imagem no exterior estar deteriorada.
"Não há futebol. Estamos em um
impasse", disse Grondona após uma reunião, anteontem, com Patricia Bullrich,
ministra do Trabalho do país.
Antes do encontro, líderes dos jogadores já
esperavam que o Torneio Apertura fosse adiado.
"Neste domingo, é impossível
que haja futebol. E é difícil que o torneio comece no outro fim de semana porque
não vejo resposta dos dirigentes", disse Sergio Marchi, secretário-geral do
Futebolistas Argentinos Agremiados.
Grondona pediu empréstimo nesta semana ao
Banco de la Nación deixando o contrato da federação com uma emissora de TV como
aval, mas não foi atendido.
Pelo menos 11 clubes da primeira divisão têm
dívidas com seus atletas. O sindicato dos jogadores alega que a federação tinha
assumido um compromisso de pagar, até o fim de maio, 35% das dívidas, mas a meta
não foi cumprida.
A AFA conta oficialmente com cinco patrocinadores:
Coca-Cola, Quilmes, Reebok, Visa e Repsol.
Segundo a Folha apurou, a Reebok
paga cerca de US$ 6 milhões por ano à AFA, menos da metade do que a Nike paga à
Confederação Brasileira de Futebol (CBF).
A Coca-Cola teve seu contrato com a
entidade que rege o futebol brasileiro rescindido neste ano após a
desvalorização do real em relação ao dólar. O apoio de Quilmes e Repsol à AFA
seria irrisório.
Quem fornece as bolas de futebol para as competições na
Argentina já há quatro anos é uma empresa brasileira, a Penalty.
Apesar desse
quadro, o futebol argentino está mais cotado que o brasileiro. A seleção do país
lidera as eliminatórias sul-americanas com folga -o Brasil é só o quarto
colocado. A Argentina é campeã mundial júnior. O Boca Juniors é bicampeão
sul-americano e venceu o Mundial interclubes-2000.
Com agências internacionais
Boca e River são sobreviventes em meio à crise
DA REPORTAGEM LOCAL
Boca Juniors e River
Plate, os dois principais clubes da Argentina, são os únicos do país que têm
disputado títulos internacionais com sucesso nos últimos cinco anos -outros
cinco times argentinos, em outros períodos, ganharam a Libertadores.
Equipe
mais popular da Argentina, o Boca atraiu a Nike, empresa norte-americana de
materiais esportivos, assim como o Flamengo no Brasil -no passado, teve parceria
com a Parmalat.
Apesar dos títulos das duas últimas Libertadores, a situação
financeira do clube é delicada. Desde a semifinal da Libertadores deste ano, os
jogadores estão em atrito com a diretoria, que deve cerca de US$ 2 milhões aos
atletas. O clube promete abater a dívida até outubro.
Já o River tem seguido
vivo devido à venda de várias de suas promessas, como Ortega, Crespo, Aimar e
Saviola.
Apelidado de ""milionário", o River não ganha um título de expressão
internacional desde 1997, quando ganhou a Supercopa.
Na Copa Mercosul,
interclubes sul-americano mais rentável -dá quase US$ 4,7 milhões ao campeão-,
os argentinos têm sido um fiasco. As três edições da competição tiveram finais
com times brasileiros. (RBU)