Dia internacional da mulher
O golfe vem
perdendo seu ar aristocrático e, no Brasil, começa a atrair
mulheres de negócios.
Um jogo misto no último clube do
Bolinha
Por Suzana Barelli, De
São Paulo
| Foto: Isabela
Carnevalle/Valor |
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| No golfe há um ano, a consultora
Maria Cecília Duarte organiza um campeonato feminino do
esporte |
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De ar aristocrático e origem inglesa, o golfe tem a
imagem de um esporte masculino, daquele que veta até a presença de
mulheres em seus clubes. Ou melhor, tinha. No final do ano passado, numa
reforma, o centenário São Paulo Golf Club acabou com o seu Men's
Bar, no qual a presença feminina era limitada a alguns dias da semana. O
fim de uma das últimas barreira sexistas (alguns clubes ainda limitam o
horário do jogo para as mulheres) coincide com o avanço de um novo
tipo feminino em seus campos - não mais aquelas que entram no esporte
apenas para acompanhar o marido, mas as que olham o golfe como uma atividade
esportista que pode, sim, render frutos nos negócios e ampliar seus
relacionamentos.
"O perfil das mulheres em campo está mudando, e
o golfe é um ótimo marketing de relacionamento", diz Maria
Cecília Duarte, de 43 anos, sócia da
Interação Consultoria. No esporte há pouco mais
de um ano, ela conta que já deu o "start" num contrato de
treinamento numa multinacional em pleno jogo. O diretor industrial era o seu
parceiro na partida e se interessou pela consultoria no caminho pelos 18 buracos
- percurso de cerca de quatro horas sem interrupções de
secretárias ou telefonemas.
Animada, Cecília faz campanha para suas amigas e
parceiras de negócios entrarem neste antigo clube do Bolinha (casada
há 1 ano e meio, ela diz que foi incentivada pelo próprio marido,
um amante do esporte, a entrar no golfe). "Tenho uma amiga executiva numa
empresa de telecomunicações que deveria jogar. No nível
dela, todos praticam o golfe", diz.
O próprio presidente da Confederação
Brasileira de Golfe, o advogado Luiz Arthur Caselli Guimarães Filho, diz
que é crescente a porcentagem de mulheres em campo, na faixa dos 25 aos
40 anos, mas numa proporção ainda menor do que ele gostaria.
Caselli acredita que o ambiente agradável, ligado à natureza, e o
fato de o esporte não deixar o corpo musculoso possam estar atraindo o
público feminino. "Talvez o desconhecimento do esporte pode ter
afastado a mulher do campo", diz, lembrando o clube inglês Saint
Andrews, o berço do esporte, onde as mulheres são barradas
há seis séculos. "Mas as novas praticantes desfrutam de um
bom ambiente social, onde é possível fazer muitos contatos
pessoais e profissionais", diz Caselli.
Que o diga a heroína do seriado "The
Street", exibido pela Sony, sobre as aventuras de um grupo de jovens
investidores de Wall Street. Num dos episódios, a personagem vivida pela
atriz Jennifer Connelly propõe, após ser cantada por um cliente,
resolver em campo se a sua empresa deve ou não ganhar o contrato. Ela
começou a praticar o esporte ainda no seu MBA, conquistando, assim, as
senhas para enfrentar os homens em seu próprio mundo. E o
"handicap" dela (índice que mede o nível do atleta), era
muito melhor do que o do cliente, o que lhe garantiu o contrato.
Não são todas as mulheres, no entanto, que
enxergam no esporte este lado de negócios. "Em campo, a mulher
não fala tanto de trabalho como os homens. Preferimos outros
assuntos", diz a publicitária Cristina Menichetti, de 37 anos, que
se tornou golfista profissional no ano passado. Mesmo assim, ela conta que deve
ao golfe o seu emprego, logo depois do nascimento da filha. "No clube, um
senhor pediu para jogar comigo. Ele era simplesmente o presidente da Pagenet e
acabou me contratando", lembra. O mesmo aconteceu com Mirella Ferrais,
gerente-administrativa do banco UBS Warburg. O esporte, para
ela, é uma terapia, um espaço para esquecer os problemas
diários, mas foi em campo que ela se recolocou profissionalmente quando
decidiu voltar a trabalhar. "Foi só falar com alguns executivos
golfistas e em 15 dias eu estava contratada."
A inauguração do Kaiser Golfe Center, no ano
passado, é outra razão para o aumento de mulheres no esporte.
Nele, é possível dar as primeiras tacadas e descobrir se tem
vocação para o esporte sem gastar com equipamentos ou
títulos de clube. A advogada Sandra Helena de Camargo, de 31 anos,
começou no golfe no KGC há quatro meses, 30 dias depois do marido,
e já descobriu as vantagens do esporte - praticado junto a natureza,
não exige maior preparo físico e já lhe rendeu contatos
profissionais. "Estou para agendar uma reunião com um
empresário que conheci em campo e me pediu orientações para
o seu departamento jurídico", conta Sandra.
A própria consultora Cecília dá as
tacadas para o primeiro campeonato feminino no KGC, com a
preocupação de marcar as partidas não durante o dia, mas
provavelmente no happy hour, quando as mulheres que trabalham também
podem jogar. Uma mudança e tanto no antigo e sempre seleto clube do
Bolinha.