Meu esporte
A visão empresarial dos
organizadores do Rally dos Sertões e da Expedição Mata
Atlântica.
A adrenalina como prova de
profissionalismo
Por Suzana Barelli, De
São Paulo
| Foto: Rogério Assis/
Fotosite/ Valor |
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| Marcos Ermírio de Moraes, organiza
o rali desde 96: custo da prova caiu de US$ 1,2 milhão para
R$ 1,2 milhão |
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O amadorismo, se é que existe, está apenas na
modalidade esportiva. É o tino empresarial, profissional, que vem
garantindo o sucesso do Rally Internacional dos Sertões e da corrida de
aventura Expedição Mata Atlântica. Genuinamente nacionais,
as duas jovens competições de aventura estão ganhando ares
internacionais nesta entrada de século.
O rali, que perdia velocidade em 1994, negocia agora a sua
inclusão como uma das etapas do Campeonato Mundial da categoria, que
inclui oito etapas ao redor do mundo, entre elas o badalado Rally Paris-Dacar.
"É uma negociação política, mas o nome do Rally
dos Sertões é forte", afirma Marcos Ermírio de Moraes,
presidente da Dunas Race, a entidade que organiza a prova
desde 1996 (a primeira corrida aconteceu em 1993, num circuito que homenageava o
cantor Luiz Gonzaga, passando por Exú, onde ele nasceu, e Asa
Branca).
Na mesma linha, Alexandre Henrique de Freitas, presidente da
Sociedade Brasileira de Corridas de Aventura, comemora a inclusão, neste
ano, da Expedição Mata Atlântica (EMA) como etapa do
campeonato mundial da categoria. "Trabalho agora para vender as imagens da
prova para um canal fechado de televisão", afirma Freitas. Ele se
baseia no sucesso da Eco-challenger, prova que acontece na Nova Zelândia,
em parceria com o canal de TV Discovery, ou da Discovery Channel World
Championship, em setembro nos alpes suíços. E parece estar no
caminho certo. A quarta edição, entre 23 de novembro e 2 de
dezembro, já é a terceira maior prova de aventura deste ano no
mundo, com prêmios de R$ 130 mil.
Parte do sucesso dos dois eventos é explicada pelo
perfil de seus organizadores. Marcos Ermírio de Moraes, autêntico
herdeiro do clã Votorantim, segue na Dunas Race os
mesmos princípios da Citrovita, empresa do grupo da
qual é diretor-superintendente. Fundador da
Síntese, hoje uma empresa de asset management, Freitas fez
carreira no mercado financeiro, onde está há quase 20 anos.
Atualmente, a divisão do seu tempo pende mais para a corrida de aventura
(uma espécie de rali humano que nasceu em 1989 na Nova Zelândia,
com a Raid Gauloises) do que para a administração de seus fundos,
de perfil agressivo, claro.
Marcos estima dedicar 60% do seu tempo à empresa de
aventura, mas nem sempre foi assim. Já fez muita reunião à
noite, depois de se desvencilhar dos compromissos de trabalho. "A
reorganização do grupo abriu espaço para os acionistas
também se dedicarem a seus projetos pessoais", revela o
empresário que acabou de voltar da Tunísia. Estava lá,
competindo no Optic 2000 Rallye Tunisie do qual acabou em 26° lugar, na
categoria motos.
A viagem uniu a paixão do empresário pelo
mundo da velocidade (ele conheceu o Rally dos Sertões, então
organizado por Dyonísio Malheiro, como competidor) com a
preocupação de trazer para cá as últimas novidades
em rali. Serão mudanças técnicas, como desenhos maiores das
planilhas liberadas a cada noite para as equipes, e logística: o percurso
de transferência (que não conta pontos para a
classificação) não precisa ser tão tortuoso para as
equipes. "A idéia foi voltar a sentir o dia-a-dia dos pilotos",
afirma Marcos, que confessa uma certa "saudades enrustida" dos seus
dias de corredor.
A 9° edição do Rally dos Sertões,
entre 6 e 22 de junho no caminho de São Paulo a Fortaleza, deve custar ao
redor de R$ 1,2 milhão e tem patrocínios fortes como
Banco Real ABN-Amro Bank, BFGoodrich e
NeraTelecomunicações. É um valor bem menor do que
os US$ 1,2 milhão (o equivalente a R$ 2,68 milhões nos dias
atuais) gastos em 1996, quando a Dunas comprou o evento. Naquela época,
oito carros e 52 motos recebiam o transporte e a hospedagem de graça.
Neste ano, a previsão são 90 motos e 100 carros, em equipes que
pagam até R$ 6.500 pela inscrição e arcam com suas
próprias despesas. Novas categorias chegam a cada edição -
agora será a vez da ultraleve, cujo vencedor será aquele que
apresentar a melhor regularidade. Até então, o ultraleve só
era usado por Marcos para coordenar a competição.
A redução dos custos é o exemplo da
administração profissional implantada no rali. "A imagem de
tecnologia, de modernidade de superar desafios, aliada a um evento bem
organizado é o principal atrativo do evento", diz Fernando Martins,
diretor-executivo de marketing do Banco Real, que investe na prova parte dos R$
25 milhões anuais de marketing esportivo do banco. Martins conta que as
portas para o patrocínio, que acontece pelo segundo ano consecutivo,
foram abertas pelo bom relacionamento institucional do banco com a Votorantim,
mas o contrato só foi assinado pela visibilidade e
organização da prova. "Provas de aventura, como o
Eco-challenger, e rafting começam a acontecer e podemos até
patrociná-las", afirma o diretor.
Informação que pode animar Freitas, da EMA.
Ele diz que este será o primeiro ano em que deverá haver um empate
técnico entre o montante investido e o retorno. No ano passado, foram
gastos R$ 300 mil na competição. "A Síntese sempre foi
o sócio capitalista do investimento", diz Freitas. Sua
estratégia é difundir a competição, que reúne
canoagem, trekking, escaladas, mountain biking, rapel, rafting e
natação, por meio de corridas menores, algumas até de um ou
dois dias para os não-iniciados e com custo a partir de R$ 250 (nos
eventos de um dia). "A infra-estrutura faz a diferença, com cuidados
na organização, sem amadorismo", diz José Roberto
Pupo, dono da Canoar, uma das empresas pioneiras em rafting e
que está na sua segunda prova de aventura. A competição,
diz Pupo, é disputada por muitos executivos e profissionais de mercado
financeiro, o que pede uma organização à altura.
E, nestes tempos de ecologicamente corretos, pedem
também cuidados com o meio-ambiente. E as duas competições
organizam doações e parcerias com as distantes localidades por
onde passam, diz Simone Palladino, coordenadora-geral da Dunas, contratada por
Marcos desde 1996 para se dedicar a organização do rali.
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