Minha etiqueta
Eventos esportivos azeitam as
relações comerciais, mas o lazer deve vir antes dos
negócios.
Pontos a mais para o bom tom na quadra
Por Suzana Barelli,de São Paulo
| Foto: Marisa Cauduro/Valor |
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| Os três Fernandos : Furlan, da Sadia
(à esq.), Moura, do Alfa (ao centro), e Terni, da Intelig:
lazer no fim de semana e contatos de negócios nos intervalos |
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Fernando Terni, presidente da Intelig,
é apaixonado por tênis antes mesmo do fenômeno Guga. Em
meados de maio, foi o anfitrião de um torneio fechado para cem executivos
escolhidos a dedo como possíveis clientes da sua operadora de telefonia.
Dois meses antes, Terni era um dos convidados de um campeonato do esporte
promovido pelo Deutsche Bank. Sacou e rebateu bolas como um
potencial correntista do banco.
Nos dois eventos, sempre aos sábados, Terni seguiu
regras de etiqueta próprias para a ocasião: a de jamais colocar o
emprego na frente do lazer. Ou seja, apesar de estar entre os seus pares, o bom
tom manda os negócios ficarem em segundo plano e os cartões de
visita bem guardados no fundo da carteira. "Leva uma raquetada na
cabeça quem falar em trabalho", brinca Jacques Wladimirski,
vice-presidente de Marketing da Intelig, sobre a regra não escrita.
Até o discurso do patrocinador, quando ocorre, deve
ser o mais breve possível. "Todos estão reunidos para se
divertir. É proibido perguntar de trabalho", afirma Marcelo Meyer,
dono da Meyer Tennis e organizador do campeonato. Quebrar a etiqueta só
quando o convidado (nunca o patrocinador) puxar o assunto empresarial. E isso
acontece. "Sempre há o momento da conversa de negócios, que
acontece naturalmente", afirma Fernando Pinto Moura, diretor-geral do
Banco Alfa.
No campeonato de tênis, ele foi parceiro de Terni em
uma das duplas e, entre uma partida e outra, até contou que o Alfa ainda
não havia escolhido uma operadora. Na semana seguinte, Moura confessava
que já havia levado à diretoria a idéia de definir uma
empresa de telefonia (não necessariamente a patrocinadora) e testado o 23
nas ligações de longa distância. "Até
então só usava o 21 nas chamadas particulares."
As conversas durante a partida são preciosas porque a
quadra é o local onde surgem afinidades não profissionais, como o
gosto pelo vinho ou por uma viagem específica, capazes de tornar uma
relação de negócios mais cordial. Mas, em campo, aqueles
que insistem em falar de trabalho são, até sem perceber, colocados
para escanteio."Já deixei de convidar um bom jogador de golfe porque
ele insistia em pedir favores de trabalho", afirma um desses seletos
jogadores, que pede o anonimato. "Os convidados não gostam de ser
assediados por ninguém", resume Moura. E ele fala com a
experiência de quem já atuou nas duas pontas - como convidado ou
anfitrião nos eventos de golfe promovidos pelo Alfa.
Moura tem o golfe e o tênis como hobbies e, quando
está no papel de patrocinador, conversa com desenvoltura sobre o esporte
em questão com os seus convidados. Além de estar sempre a postos
se o convidado tiver, digamos, uma dúvida bancária. E como as
conversas fluem melhor entre as rodinhas de jogadores, é
condição quase sine qua non que o patrocinador também seja
um esportista, ainda mais em tempos de valorização da qualidade de
vida.
"Quem joga está presente quando surge o assunto
de trabalho, além de saber o perfil do jogador", afirma o advogado
Luiz Arthur Caselli Guimarães Filho, presidente da
Confederação Brasileira de Golfe. Caselli usa cartões de
crédito e conta corrente de bancos que já patrocinaram o evento,
além de ter se aproximado de clientes cuja primeira abordagem surgiu
entre os 18 buracos. "O importante é sempre saber que o convidado
está num de seus momentos de lazer, jogando para se divertir",
afirma.
O cerimonial intrínseco a esse gênero de evento
parece até um contra-senso, já que o objetivo do patrocinador
é de fato aproximar um público tão seleto de sua marca.
Mas, na prática, não é. Golfe, tênis e até o
hipismo vêm atraindo grandes empresas dispostas a seguir a etiqueta para
atingir esse público numa conversa informal, seja na caminhada no campo
de golfe, no intervalos entre os sets ou na arquibancada, no caso das provas de
hipismo, onde os endinheirados torcem por seus filhos.
"São eventos onde não se anda 5m sem
encontrar alguém importante", diz Nelson Sabóia Ribas,
vice-presidente de Marketing da Texaco, patrocinadora de
provas de hipismo. Ribas, que anda a cavalo desde criança, lembra que
já começou a conversar com o dono de uma transportadora, que
torcia pela filha, numa prova de salto. Hoje, o empresário usa
óleos e lubrificantes de sua marca.
Na lista de patrocínios, o golfe parece ser o
campeão. A Accenture promoveu na primeira sexta-feira de maio o I
Accenture Golf Cup, no seleto São Fernando Golfe Club, com o objetivo
escrito de "estreitar relacionamentos com os nossos clientes". Dinners
e Unibanco também estrearam neste ano no patrocínio dos
esporte.
No tênis, Terni elogia a fórmula encontrada por
Meyer, que agora vai promover um evento de golfe para o Deutsche Bank.
São três jogos em cada campeonato, com revezamento de duplas e sem
a eliminação dos perdedores. A troca de parceiros evita a
competição entre os jogadores e torna as partidas mais
sociáveis. "O adversário vira parceiro na partida
seguinte", diz Moura, do Alfa, que dividiu com Terni o primeiro lugar no
campeonato. Os dois, convidado e patrocinador, levaram o troféu para
casa, num evento que reuniu outros grandes executivos, como Luiz Fernando
Furlan, da Sadia, Miro Motta, da Varig, e
José Salibi Neto, da HSM.