O dólar acabou com o futebol
17/04/01
O sonho do futebol-empresa, com suas promessas em milhões de dólares,
construção das famigeradas arenas multiuso, receitas produzidas a partir da
exploração e licenciamento das ?marcas? dos clubes, vendas racionais de
cotas de TV, está se transformando em um monumental pesadelo. O primeiro, e
não será o único, desastre do futebol mercantilizado é a falência da ISL,
empresa suíça, decretada na semana passada, em seu país de origem. A ISL,
uma empresa símbolo do futebol-cifrão, estabeleceu no Brasil parcerias
administrativas com o Flamengo e com o Grêmio gaúcho. Em 1999, ela chegou
por aqui precedida pelos arautos da modernização da pelota, que asseguravam
em seus discursos que a vinda dessas empresas internacionais seria a morte
nas administrações ?amadoras? do nosso futebol. Agora, a sua falência já
está significando dias turbulentos para esses dois grandes clubes do Brasil.
O acerto inicial entre a ISL e o Flamengo previa, em 15 anos, um aporte de
US$ 80 milhões, dos quais o Fla já recebeu US$ 60 milhões, empregados nos
últimos dois anos na compra de jogadores, quitação de dívidas, despesas
operacionais e pequenas obras. O contrato com a empresa suíça também previa
a construção de um estádio com capacidade de 50 mil torcedores e um centro
de treinamento. Só para lembrar, a construção dos grandes estádios cariocas
e paulistas, com a exceção do Morumbi, datam do final dos anos 40. O que
significa que as administrações da maioria dos clubes paulistas e cariocas
fizeram pouco pelo patrimônio das agremiações. Da receita gerada pela
exploração da marca Flamengo, a ISL teria direito a 50%. Um percentual que é
um escândalo, quando se pensa que o Flamengo é como uma China do futebol, um
clube-mercado de mais de 35 milhões de torcedores, espalhados por todos os
cantos do Brasil.
Se num gesto de boa vontade cada torcedor do Flamengo destinasse US$ 3 ao
clube, isso já eqüivaleria instantaneamente ao montante total do
contrato-aventura, que ameaça mais de 100 anos de glórias. A ISL
praticamente comprou a marca Flamengo por um preço de bananas. Aproveitando
a descapitalização dos clubes e a ignorância que os dirigentes clubísticos
brasileiros têm sobre a avaliação do potencial de marcas, as empresas
alienígenas, européias e norte-americanas, colocaram as suas garras, em
troca de um punhado de dólares em um patrimônio de imagem praticamente
pronto. E quando se fala em imagem de clubes como Flamengo, Corinthians,
Vasco, Cruzeiro, Grêmio, só para citar aqueles que se meteram nessas Alcas
do futebol, isso compreende entrar num universo de emoções e história de
milhões de torcedores. O que significa para quem faz o marketing de produtos
e serviços a possibilidade de entrar em uma verdadeira mina de ouro.
Os santos de clubes como o São Paulo e a Portuguesa são fortes porque dessas
parcerias eles escaparam. Pior do que o dano para os cofres dos clubes, o
que imediatamente significará atrasos de salários dos profissionais do
futebol, inadimplência em relação a centenas de fornecedores e mais confusão
quanto aos rumos do futebol brasileiro, esses negócios ligados ao marketing
predatório e selvagem, bom só para quem tem contas na Suíça, corroem a
credibilidade do esporte bretão. Para se capitalizar, os clubes poderiam
seguir o modelo de privatização proposto para Furnas, que não será vendida
para nenhum mega-capitalista, mas para milhões de pequenos investidores
brasileiros. Afinal, torcedor quer se preocupar com o desempenho do clube e
não no pregão da Bolsa de Nova York.
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