[cevleis] Conheça a vida de Roman Abramovich

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Quinta Janeiro 20 22:00:37 BRST 2005


Rodrigo Simonin RodriguesMão Aberta
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Infância pobre, ligações políticas, negociatas polêmicas... Conheça a vida de Roman Abramovich, que investiu US$ 800 milhões e tornou o Chelsea uma potência européia

Ele é o dono de clube com o qual todo torcedor sonha. Roman Abramovich, o homem mais rico da Inglaterra, com uma fortuna avaliada em US$ 14,5 bilhões, já gastou US$ 800 milhões desde que comprou o Chelsea em julho de 2003. O russo de 38 anos é venerado pelos torcedores do clube inglês conhecido como "Blues". Tudo parece mesmo mais do que azul para o time que manda no Campeonato Inglês e foi o primeiro a se classificar para as oitavas-de-final da Liga das Campeões, em que vai pegar o Barcelona. 
Russo agora é chique na badalada King's Road, em Londres. Ali perto, no estádio de Stamford Bridge, os alto-falantes saudaram esta revolução tocando "kalinka" enquanto a galera exibia chapéus russos típicos, conhecidos como "shlyapas". 
– Eles pararam com a música porque seria como tocar "Viva Espanha" se o bilionário viesse de Madri – diz Trizia Fiorellino, que faz parte de associações de torcedores e escreve sobre o Chelsea para sites e o jornal "Irish Examiner".
Trizia, inglesa de origem italiana, conta para A+ que divide um sentimento com os outros torcedores do Chelsea:
– É terrível ter que admitir mas eu não ligo, pouco me importa de onde o dinheiro dele veio e a maioria das pessoas também não tem idéia de como ele acumulou a fortuna. Mas ele está limpando nossas dívidas, construindo um centro de treinamento, enfim, melhorando as coisas. 

Do nada ao tudo
Abramovich começou sofrendo cedo na vida. Nascido a 24 de outubro de 1966, em Saratov, à beira do rio Volga, no sul da Rússia, o menino de origem judia perdeu a mãe aos 2 anos e meio e o pai pouco depois, num acidente de obra em maio de 1969. O pequeno Roman ficou aos cuidados de tios. Primeiro com Leib em Ukhta, 1.350 quilômetros a nordeste de Moscou, aprendeu noções básicas de economia. Com Abraao em Moscou, desfrutou de uma educação exemplar. Como gratidão, depois que ficou rico, equipou a escola onde estudou com as melhores e mais modernas instalações.

Com 18 anos, ele abandonou os estudos no Instituto Industrial de Ukhta para servir no exército – por dois anos, como todo russo. Dominic Midgley e Chris Hutchins sustentam, na biografia não-autorizada "Abramovich – the billionaire from nowhere" ("Abramovich – o bilionário de lugar nenhum"), que os rigores do regime militar ajudaram a moldar uma "personalidade mais refinada socialmente, mais independente e auto-confiante".

Aos 20 anos, Abramovich casou em dezembro de 1987 com Olga, uma loura estudante de geologia três anos mais velha do que ele. Nesta mesma época, quando o então líder soviético Mikhail Gorbachev flertava com a chamada perestroika e acabou a proibição sobre a iniciativa privada, Abramovich foi um dos primeiros a montar um negócio próprio, abrindo uma fábrica de bonecas. A receita informal com a revenda em Ukhta de artigos de luxo comprados em Moscou complementava a renda que na época chegava a 4 mil rublos, 20 vezes mais do que o salário de um trabalhador estatal. 

O ano de 1991 foi fundamental na vida da União Soviética e também para Abramovich. O império acabou. E além de casar pela segunda vez, com Irina, uma aeromoça da companhia estatal Aeroflot com quem tem cinco filhos, ele entrou na "família" que passou a circular na esfera de poder do presidente Boris Yelstin. Biógrafos contam que Abramovich também ficou muito amigo, talvez íntimo demais, da filha de Yeltsin, Tatyana. 

Num encontro num iate em 1995, nascia a parceria mais bem-sucedida na curta e cruel história do capitalismo russo. Abramovich foi apresentado a Boris Berezovsky. O aliado de Yeltsin, 20 anos mais velho e experiente, ficou impressionado com o talento de comunicador do jovem russo, que confirmava mais uma vez a fama de estar sempre com as pessoas certas, no lugar certo e na hora certa. Esta habilidade de identificar novas oportunidades fez de Abramovich um dos primeiros a conseguir licença para explorar petróleo num tempo que isso era como uma licença para imprimir dinheiro.

Em 1995, o governo precisava fazer caixa e inventou o programa ações-por-empréstimo. Empresas estatais passavam ao controle acionário de empresários que em troca davam um dinheiro ao governo. Como não iam receber de volta, os chamados oligarcas ficaram com as empresas todas para eles. 
Foi seguindo este filão que a dupla Abramovich-Berezovsky assumiu o controle da gigante de petróleo Sibneft, pagando US$ 225 milhões no esquema ações-por-empréstimos quando o valor de mercado era US$ 2,8 bilhões. Em 2003, a empresa estava avaliada em US$ 15 billhões. Abramovich também investiu em alumínio e comunicações antes de se desfazer da maioria dos seus negócios na Rússia e se mudar para a Inglaterra.

Questão de estilo
As privatizações na Rússia foram um xadrez de oportunidades e não há dúvida de que Abramovich foi sempre um mestre em adivinhar o próximo movimento. Como diz a biografia: "Ninguém fica bilionário em menos de dez anos sem cortar uns atalhos".

Uma das revelações do livro é de que Abramovich entrevistou todos os candidatos ao gabinete do então primeiro-ministro Vladimir Putin, em 1999. Também liderou a criação do partido da Unidade e foi o principal arrecadador de fundos para a eleição de Putin à presidência em 2000. 

Nem todos os oligarcas tiveram o mesmo destino de Abramovich ou Berezovsky, auto-exilado na Inglaterra após ser forçado a vender sua parte na Sibneft por preço abaixo do mercado para o ex-parceiro, com quem acabou brigando. Outro barão do petróleo, Mikail Khodorkovsky, ex-homem mais rico da Rússia, está preso e sendo processado por fraude no império falido da outra gigante russa do petróleo, a Yukos. 

Abramovich tem um apartamento em Londres e uma casa de campo, Fynings Hall, numa área de 1,8 km2 em Sussex, comprada por US$ 23 milhões do magnata australiano Kerry Packer. Possui ainda o Chateau de Croe, um castelo de US$ 54 milhões em Cap d'Antibes, no sul da França. A propriedade já pertenceu ao milionário grego Aristoteles Onassis, ao rei Henrique VIII e sua mulher americana divorciada Wally Simpson e recebeu visitantes ilustres como Winston Churchill. Na dacha que tem em Moscou, as estantes trazem livros falsos que não passam de volumes decorativos, com títulos na capa mas vazios por dentro. 

Ele tem aviões, helicópteros mas é no mar que Abramovich reina absoluto. Um dos seus três iates, o Pelorus, custou US$ 100 milhões. Vem com equipamento antimíssil, vidros à prova de bala, acomodação para 20 hóspedes, cinema, sauna e piscina. 

Empregados e seguranças viajam em embarcações adicionais mais modestas. Com os iates equipados com toda tecnologia, um empresário pode comandar seu império de águas internacionais, como se estivesse em Londres ou Nova York.

Durante a Eurocopa de 2004, a presença do iate de Abramovich era uma das atrações das docas de Lisboa. Curiosos e a mídia chegavam perto, mas o máximo que conseguiam ver era o vai-e-vem de entregas. Até a BBC, que tinha cedido o sinal de sua transmissão para o barco do bilionário russo, não conseguiu uma cena sequer lá de dentro.

Abramovich não fala inglês nem dá entrevista. Quem já conseguiu chegar perto dele nota que prefere discutir negócios relaxado num sofá do que na formalidade das mesas de gabinete. Adota o estilo descontraído, de jeans, camisa sem gravata e paletó solto. Nos estádios, está sempre cercado de guarda-costas mas aceita dar autógrafos sorridente. Tem uma suíte executiva mas são tantos os amigos russos que já ofereceu pagar quase US$ 6 milhões por um dos camarotes ao lado. 

Em busca da fama
Os biógrafos de Abramovich acham que ele resolveu comprar o Chelsea para se divertir. Acontece que, depois dele, o futebol nunca mais será o mesmo. Em julho de 2003, com o clube à beira da falência, Abramovich surgiu das estepes, pagou a dívida do clube de US$ 154 milhões e comprou o resto das ações por US$ 115 milhões. 

Tudo o que o novo patrão tinha a dizer veio neste comunicado: 
– Estamos contentes com o acordo para comprar o que já é um dos grandes clubes da Europa. Temos os recursos e a ambição para conseguir ainda mais por causa do grande potencial deste clube.
Ken Bates, que fechou o negócio com o russo e faturou US$ 32 milhões com a venda de suas ações, foi mais descontraído:

– Qualquer pessoa que enche um barril de petróleo por US$ 1,70 e vende a US$ 20 merece meu respeito.

Apenas no primeiro ano, o Chelsea gastou US$ 200 milhões só em novos jogadores. 
– Sem o dinheiro dele, o panorama do mercado há um ano e meio seria bem diferente. Ele foi responsável por 60% das transações – esclarece para A+ Dan Jones, diretor da consultoria especializada em futebol Deloitte & Touche. – Ele botou o Chelsea no topo não só na Inglaterra como na Europa, particularmente com a chegada do técnico José Mourinho. As quantias que ele investiu são altas, mas, se você comparar com a fortuna que tem, não chega a ser tanto assim.

Dan adverte que a fórmula de achar um bilionário não é saída nem modelo para ser seguido por clube algum:

– É uma idéia completamente insustentável planejar um clube para alguém como um Abramovich assumir. Você não pode administrar na suposição de que um cara como ele vai surgir e injetar dinheiro. Se alguém for sortudo o suficiente de achar alguém como ele, a opção mais segura é garantir que este benfeitor fique ligado ao clube por muito tempo.

Abramovich certamente ficou tentado pela fama que o futebol traz, pela atração de aparecer na TV, de virar celebridade mesmo que silenciosa, pelo orgulho de estar em um time ganhador. O executivo da Deloitte & Touche justifica: 

– Se ele quisesse uma vida tranqüila, não tinha comprado um clube de futebol.

Comprar o Chelsea também permitiu diversificar o domicílio de parte de seus bens. Muitas das empresas do Chelsea Village que ele incorporou ao assumir o clube estão espalhadas em países que vão de Chipre às Ilhas Samoa e Maurício, além de paraísos fiscais como Ilhas Cook, Virgens e Guernsey.

Como bilionário bem-sucedido, Abramovich está fazendo tudo certinho para transformar o Chelsea numa nova força do futebol mundial. A contratação de Peter Kenyon para diretor executivo garante a experiência do empresário responsável pelo sucesso comercial do Manchester United e pelas parcerias com a Nike e a Vodafone. Na temporada que vem, Kenyon traz para o Chelsea o patrocínio da Nike e da empresa de telefonia francesa Orange.

Para a temporada 2004/05, foram gastos mais US$ 180 milhões em jogadores. Porém, se o Chelsea ganhar o sonhado Campeonato Inglês, esta conquista teria um sabor mais artificial do que especial? 
Mathew Holt, pesquisador do Centro de Governança do Futebol em Birbeck Collegue, na Universidade de Londres, alerta que um possível título do Chelsea nunca poderá ser comparado a clubes que têm uma longa história no futebol mundial, como por exemplo Manchester United e Real Madrid. 

– Se o Chelsea alcançar o sucesso, será sem este elemento de romance, porque este sucesso foi bancado pela riqueza de um indivíduo – raciocina o pesquisador.

Conseguir o que seria apenas o segundo título da história do clube no ano do centenário é o objetivo atual de Abramovich. O Chelsea até hoje só venceu o Campeonato Inglês de 1955, exatamente há meio século. 
Como governador da região de Chukokta, o bilionário russo construiu escolas, hospitais, shoppings. No melhor estilo populista, pagou férias para as crianças no Mar Negro. Agora, espera ser coroado rei no país que inventou o futebol antes de entregar a coroa do clube para o filho, Arkady, daqui a dez anos. 

* Pedro Redig é jornalista, MBA em Futebol pela Universidade de Liverpool e ex-editor da Rede Globo em Londres


HISTÓRIAS REAIS
Bilionário anda com 30 guarda-costas

Segurança. A palavra que mete tanto medo nos brasileiros é também o maior tormento de Roman Abramovich. Ao todo, ele tem 30 guarda-costas. Na Inglaterra, são na maioria ex-soldados da SAS (o grupo de elite Special Air Service). Na Rússia, ex-agentes da KGB. Antes de cada deslocamento, agentes vasculham todo o roteiro, checando os postos de polícia e hospitais próximos. 
– Ele leva segurança muito a sério. Ao ficarem ricos, fizeram muitos inimigos e o medo de assassinato ou seqüestro é real – diz uma fonte próxima ao bilionário russo.


CRONOLOGIA
1966
Roman Abramovich nasce em Saratov, à beira do rio Volga, no sul da Rússia
1969
Fica órfão depois de perder a mãe e em seguida o pai num acidente de trabalho
1984
Larga os estudos no Instituto Industrial de Ukhta para servir no Exército durante dois anos
1987
Casa-se com Olga, 23, uma estudante de geologia três anos mais velha do que ele
1991
Casa-se pela segunda vez, com Irina, então aeromoça da companhia estatal russa Aeroflot
1995
Conhece Boris Berezovsky e juntos assumem a Sibneft, faturando com privatizações na Rússia
1999
Eleito membro da Duma, o Parlamento Russo, representando a região de Chokokta
2001
É eleito governador da província de Chukokta, onde exerce um mandato populista e polêmico
2003
Decide comprar o Chelsea e comanda todos os seus negócios a partir da Inglaterra


DITO E FEITO

"Eu não fiquei contente porque tudo foi feito sob pressão. Abramovich disse que, se eu não vendesse, (Vladimir) Putin ia destruir a companhia"
Ex-parceiro Boris Berezovsky, sobre a venda de ações na Sibneft 

"Nós somos amigos próximos, mas Berezovsky não me ajudou. Ele ajudou a si mesmo"
Abramovich sobre Berezovsky

"As pessoas falam sobre Abramovich como se ele fosse uma espécie de mafioso, mas ele está apenas mostrando a mesma habilidade que os homens de negócio proclamam na City"
Porta-voz da Sibneft, John Mann II, sobre o patrão

"Riquezas naturais devem ser controladas pelo Estado, por todos os russos, não por um Roman Abramovich. É errado colocar o interesse de uma indústria acima do Estado"
Vladimir Yudin, vice-presidente da Duma, o parlamento russo

"Eu não quero ser demitido, todo mundo sabe que Abramovich não bebe ou apronta, portanto ele não ficaria contente e acabaria sabendo porque tem um tremendo serviço de inteligência por trás"
Jogador não identificado sobre a mudança de comportamento do time

"Ele não fala muito, só cumprimenta as pessoas e procura não interferir nas conversas sobre o time. Ele só quer mostrar interesse e torcer pelo nosso sucesso"
Gudjohnsen, atacante do Chelsea e da seleção da Islândia, sobre o hábito de Abramovich de visitar o vestiário ao fim de cada jogo

"Ele quer vencer e tento explicar para ele minha filosofia de montar um time vencedor. Ele é sempre bem-vindo, os jogadores em geral gostam de encontrar com ele. Está sempre presente e é muito empenhado"
José Mourinho, técnico


NÚMEROS

Voando alto
108
milhões de dólares é o preço do Boeing 767 que Abramovich comprou e está sendo todo redecorado. Só a pintura por fora em branco e cinza saiu por US$ 540 mil 

Imagina o menu
200
dólares é quanto quatro pessoas pagam por meia horinha no restaurante Zuma, um dos preferidos de Abramovich em Londres

Grana russa
86
bilhões de dólares é a fortuna acumulada dos 23 oligarcas que se beneficiaram das privatizações na Rússia

Elenco forte
380
milhões de dólares é o valor gasto na compra de jogadores pelo Chelsea na era Abramovich 

Tudo azul
270
milhões de dólares é o valor que foi pago pelo Chelsea, incluindo a dívida e a compra do clube


SOBE E DESCE

SOBE:
Perfil ideal - Abramovich é descrito pelo autor Dominic Midgley como "sorridente e informal, sempre pronto para perceber uma oportunidade de negócio; astuto e paciente".

Mais graça - A chegada de um dirigente que não precisa se preocupar com custos e a montagem de um time para competir de igual para igual com o Arsenal e o Manchester United, acabando com a hegemonia dos dois clubes vermelhos, tornaram o Campeonato Inglês mais empolgante e imprevisível.

Louco por esporte - O russo, além de torrar dinheiro no Chelsea, gasta US$ 10 milhões por ano com o seu time de hóquei, o Avangard Omsk, e ajuda o CSKA Moscou (que contratou Vágner Love no ano passado) com um generoso patrocínio anual da Sibneft, de US$ 18 milhões.

DESCE:
Abandono - Muitos russos criticam Abramovich porque ele enriqueceu e levou o dinheiro dele embora do seu país natal. "Eu não gosto dele. Fez sua fortuna e se mandou", diz a russa Olga, residente em Londres.

Vantagem - Ninguém sabe até hoje por que o consórcio FNK, encabeçado por Abramovich e Berezovsky, venceu o leilão para ficar com a Sibneft com um lance de US$ 225 milhões, enquanto o rival Uneximbank era recusado, apesar de oferecer US$ 443 milhões, quase o dobro.

Alerta - Um inquérito acusa Abramovich de deixar o governo de Chukokta falido depois das melhorias que fez na região. A dívida de US$ 328 milhões é mais do que o dobro da receita e a Sibneft teria recebido benefícios fiscais de US$ 500 milhões na região mais remota do leste da Rússia.



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