[Cevleis-L] Futebol de portugues

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Subject: [Cevleis-L] Futebol de portugues
From: "Milene Castilho" <milenecastilho@xxxxxxxxxxx>
Date: Fri, 22 Mar 2002 09:25:03 -0300
Futebol de português

Corrupção em futebol e baralho político não é só coisa de brasileiro. Em Portugal, políticos e dirigentes de clubes trocam passes de craque no negócio. Há gente mais revoltada que já chama o esporte de futpol * misto de futebol e política. Aliás, por lá tudo se mistura, é difícil entender num só lance. Envolve dirigentes de clubes falidos que agem como empreiteiros e constróem com dinheiro público seus estádios de futebol; é árbitro que ameaça greve caso tenha que abrir sigilo bancário; é candidato a presidente com voto declarado de clubes em troca de regularização de dívidas fiscais de times falidos.

Ser árbitro em Portugal já é sinônimo de corrupção. É um cheque antes e outro depois dos jogos, pagamentos de todo tipo, carros em troca de arbitragem que favorece os grandes times. A escolha de quem apita um jogo é cheio de mistérios. Até o presidente da Federação Portuguesa de Futebol acha que tem que mudar. Mas não muda. Tanto bafafá, o governo resolveu entrar em campo para moralizar o esporte. Para isso, apitou contra os cartolas, cobrando a entrega de suas declarações de patrimônio e rendimento. Eles mostraram cartão amarelo, ameaçando entrar em greve.

Houve quem também apitasse em favor dos árbitros. "O governo interessado em moralizar o futebol, * poderia preocupar-se com questões mais interessantes * dirige a sua atenção sobre os árbitros. Mas apenas sobre os árbitros?", questiona Patinha Antão, em artigo no jornal Expresso.

Quem se interessa em saber mais sobre o futebol português sente um cheiro de podridão. As notícias chegam aos torcedores em retalhos. Para entender o que se passa, deve-se montar um quebra cabeça. Cada dia, é uma história nova. É cartola corrupto, é estádio de clubes com obras em ponto de bala para o campeonato europeu da EURO 2004 com obras embarreiradas, é prisão de dirigente responsável pelas obras de estádios por trapacear o governo em outras obras públicas e até jogador brasileiro participando de campanha eleitoral.

Um apaixonado pelo esporte resolveu juntar os retalhos. Criou uma página e pôs seu material sobre a Máfia do futebol. Lá contou o que sabe sobre o "Sistema", inclusive com direito a versão em inglês. Segundo ele e seus colaboradores, o administrador do Porto, Reinaldo Teles, seria dono de casas de prostituição freqüentadas pelo pessoal das chuteiras, apitos e bandeirolas.

"Quando o presidente de um clube "A" quer subir de divisão paga, por exemplo, 200 mil contos ao Sistema, que por sua vez gasta 50 mil contos em árbitros e guarda 150 mil. Outro exemplo: o árbitro "X" tem algumas dificuldades monetárias. O Sistema empresta dinheiro e depois o exige de volta. Como o árbitro não pode pagar de imediato, torna-se escravo do Sistema. Como resultado as vergonhosas arbitragens a que estamos habituados."

Pinto da Costa, dirigente do time do FC Porto, é apresentado como o Al Capone da máfia do futebol português, que faz outros trambiques como o de supervalorizar a venda de um jogador com a ajuda de uma rede de treinadores e jornalistas. Em declarações aos jornais parece com o estilo Eurico Miranda. "Se não houver Euro 2004 no estádio das Antas não haverá Euro 2004 em Portugal", esbravejou no jornal "O Jogo".

O moçambicano Godilho Lopes é outro atolado em lamaçal de picaretagem. Essa semana, o número dois na hierarquia do Sporting Clube de Portugal foi detido pela polícia judiciária acusado de lucro ilícito privado em projetos em grande evento realizado em Portugal, a Expo 98. Colocou nos bolsos cinco milhões de euros e devolveu ao Estado um prejuízo de 20 milhões de euros. O dinheiro teria sido depositado em paraísos fiscais. Nada de Ilhas Cayman. Os paraísos fiscais de portugueses ficam em Gibraltar e Panamá.

Com fortes ligações à Câmara de Lisboa liderada por João Soares, Godinho conseguiu muito trabalho para suas construtoras Soconstroi e Somague. Projetos polêmicos e escandalosos, sem concurso público nem consulta ao mercado.

Agora, Godinho é o responsável pela construção do Estádio José Alvalade (EJA), um dos dez que sediará o Euro 2004.

Depois que assumiu a vice-presidência do clube Sporting, cada vez mais responsável por setores comerciais, o engenheiro e empreiteiro tratou de encomendar o levantamento total dos terrenos que o clube possuía em Lisboa para uma reorganização e sua valorização através de negociações com a Câmara Municipal de Lisboa, onde a frente estava seu amigo Soares.

Montou quatro sociedade imobiliárias do clube * era presidente de todas elas * para viabilizar financeiramente o "Projeto Roquette", sobrenome do número um do clube. Era a construção de um novo estádio e centro de formação de jovens talentos.

Para evitar que fuçassem o buraco do Sporting, Godilho, depois de detido, se demitiu da presidência do Estádio José Alvalade (EJA). Como futebol e política muitas vezes se joga com a mesma chuteira por lá, o indicado para assumir a cadeira é João Oliveira Martins, antigo ministro dos Transportes, Obras Públicas e Comunicações.

Cartolas corruptos, dirigentes corruptos, nada disso é motivo para o governo deixar de oferecer aquela mãozinha aos clubes. O Estado está abrindo os cofres e despejando milhões de contos sobre os clubes para que preparam Portugal para o campeonato europeu de futebol, o Euro 2004. Agora só se fala na reforma dos estádios da Luz, das Antas e José de Alvalade. "Torna os dirigentes de futebol nos mandatários financeiros do Estado * com poderes ilimitados * para a realização de obras ditas de interesse público", chia Antão. O Euro 2004 virou mesmo interesse público. Não se fala de outra coisa nos jornais. É assunto tão importante quanto o novo presidente.

Os imbróglios não envolvem só o FC Porto ou o Sporting. O Benfica, outro que arrebanha uma grande torcida, não sai imune. Nas vésperas da eleição presidencial, o dirigente do clube declarou que uma vitória do PSD tiraria a corda do pescoço do clube, afogado em dívidas fiscais geradas entre 1998 e 2000. Assim, o estádio da Luz, do Benfica, poderia ser construído com o dinheiro público sem o embargo da Caixa Geral de Depósitos (CGD). Pelo que conta o jornal Público, o candidato social democrata Durão Barroso, vitorioso nas urnas nesse fim de semana, teve dois encontros com os dirigentes do Benfica. Ficou acordado debaixo dos panos que o clube se comprometeria a dar apoio institucional ao PSD e o enforcamento fiscal seria resolvido em parcelas suaves, com um financiamento da CGD.

São tantas as maracutaias que o jornalista Marinho Neves resolveu arriscar a pele e escrever, de forma romanceada, o livro Golpe de Estádio. Antigo jornalista do Norte Desportivo e Gazeta dos Desportos já foi sofreu represálias, mas não se calou. No seu livro a história da máfia do "futpol" aparece com nomes falsos. Mas o torcedor mais atento vai identificar quem é quem.

No país onde candidato líder de partido político aparece jogando futebol de botão com aliados, não podia faltar um drible brasileiro. O candidato do PSD, Durão Barroso, antes de enfrentar as urnas, foi fotografado em comício ao lado do famoso brasileiro Jardel. Foi motivo para o colunista do jornal Público, Edgar Correia, marcar um gol. "Uma campanha eleitoral que se via dominada por um desinteresse geral e pela monotonia se torna de repente viva por causa do futebol. Esse é o mais recente evento 'estranho' a acontecer neste país."




MILENE CASTILHO www.direitodesportivo.com

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