[Cevlazer-L] SOBRE A CRISE ARGENTINA

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Subject: [Cevlazer-L] SOBRE A CRISE ARGENTINA
From: "Fernando Mascarenhas" <fernando.masca@xxxxxxxxxx>
Date: Sat, 24 Mar 2001 11:59:02 -0300
Caros colegas,
 
    Seguem algumas reflexões do Prof. Osvaldo Coggiola (USP) sobre a crise Argentina e seus desdobramentos para a Universidade Pública daquele país. 
    Abraços... Fernando Mascarenhas 
 



ARGENTINA: DA IMPLOSÃO ECONÔMICA À EXPLOSÃO SOCIAL

Osvaldo Coggiola

O drama em atos sucessivos que vive a Argentina não se reduz, como diz ou insinua a grande imprensa, a um troca-troca de ministros da fazenda. Ele já atravessou as barreiras da crise política, transformando-se, com a nomeação de Cavallo, num verdadeiro golpe de estado, e está incubando uma explosão social inédita. Em inícios de março, a renúncia de Machinea traduziu todo o impasse do regime da Aliança e do plano (com um pacote de US$ 39,7 bilhões) bolado pelo FMI para conter a degringolada argentina. Era o fracasso da "blindagem" e da política do FMI e do FED, aplicadas a fundo por Machinea.

Apenas dois meses depois do acordo, a taxa de juros da dívida externa argentina tinha voltado ao 14% anual, a produção industrial de janeiro tinha caído 5%, o déficit fiscal superava com folga os 400 milhões estabelecidos: a Argentina estava novamente falida, após três anos de recessão ininterruptos. Junto a isso, a nomeação de López Murphy era também uma resposta às denuncias de lavado de dólares da parte dos bancos e às denuncias contra o Banco Central. López Murphy era o homem da Associação de Bancos, a garantia de que as investigações não iam por em perigo os banqueiros.

O conjunto da situação punha em risco a conversibilidade peso-dólar. Machinea deu a entender que tinha apresentado sua renúncia porque sabia que se estava preparando um ataque ao peso, caso no qual teria preferido a desvalorização. López Murphy seria, ao contrário, partidário da dolarização. No quadro do escândalo bancário, ficou claro que os ministros eram designados ou derrubados pelos próprios bancos. Além disso, a maioria dos funcionários designados já tinham atuado sob a ditadura militar de Galtieri.

A designação de López Murphy significava a virtual liquidação da Aliança como coalizão de governo. Poucos dias depois, a Frepaso (uma das componentes da Aliança, junto com a UCR) renunciou ao governo. À crise "de cima" somou-se a iniciativa "de baixo": os "piquetes" de desempregados e localidades transformadas em cidades-fantasma começaram a estender-se nacionalmente, com marchas de dezenas de milhares, funcionários públicos (ameaçados por um plano de demissões), estudantes (o novo ministro anunciou cortes drásticos no orçamento educacional) saíram às ruas, ao mesmo tempo que professores universitários deflagraram uma ocupação nacional de prédios, com cortes de estrada; a greve geral paralisou o país a 21 de março. Foi isto, basicamente, que derrubou López Murphy, que não era peixe pequeno: presidente da FIEL, a fundação dos bancos, era o homem de confiança do capital financeiro.

Com a entrada de Cavallo no governo, a Aliança deu um golpe para sobreviver. O ex-vice-presidente "Chacho" Alvarez, da Frepaso, era o padrinho da entrada de Cavallo ao governo. Mas isto significava transferir ao gabinete poderes extraordinarios, implantar uma ditadura civil para atacar as aposentadorias, a educação e os salários. Nos contratos a prazo de um ano, o peso já não valia um dólar mas 0,85, ou seja, já existia uma desvalorização de facto. A bomba de tempo da crise é a falência da Argentina; o país não tem como pagar a dívida externa, que supera, no conjunto, 200 bilhões de dólares, com uma carga de interesses anuais de12 bilhões, 50% a mais do orçamento da educação. A crise financeira internacional (com a queda das Bolsas) está elevando os juros a serem pagos pelas companhias e países que têm dívidas elevadas: a Argentina não mais pode recorrer aos empréstimos internacionais para pagar seus vencimentos. A falência argentina tem dimensão mundial.

Com a crise, Cavallo demorou dois dias em derrubar Lopez Murphy. Politicamente, Cavallo exigiu concessões que tiram todo poder do Congresso e reduzem à Presidência a uma marionete, e isto para beneficiar o político (Cavallo) que foi derrubado em 1996 por uma mobilização popular, e depois derrotado nas eleições de 1999 e de 2000.

Economicamente, com anzóis como o "imposto do cheque", semelhante à CPMF (a evasão fiscal na Argentina atinge US$ 30 bilhões, para um PIB que não atinge US$ 280 bilhões, e um déficit fiscal de US$ 6,7 bilhões), pretende dar "ar popular" a um conjunto de medidas que beneficiam o grande capital: cortes de impostos, subsídios para exportação, barateamento da folha salarial via destruição do que resta da legislação trabalhista, demissões em massa de funcionários públicos, privatização do pouco que sobrou do patrimônio público. E o governo De la Rua, seu gabinete, e os legisladores, se agarram do "ditador civil" como da última tábua de salvação...

A anunciada revisão da TEC (Tarifa Externa Comum) jogaria a última pá de terra sobre o Mercosul, e abriria a estrada para a Alca e a "fast track" de George Bush. Para o Brasil mudaria o cenário político internacional, além de entrarem em queda livre as exportações das indústrias de base para a Argentina (previstas em pouco mais de US$ 14 bilhões em 2001, o dobro das exportações de bens de consumo). O secretário da Camex já disse que a reunião de abril em Buenos Aires, preparatória da Cúpula das Américas, "vai ser uma guerra". O Brasil tem elementos de pressão, pois absorve 20% das exportações argentinas. O que se vislumbra não é um "segundo milagre" cavalliano, mas um cenário de crise que, na medida em que envolve os fundos da maior operação internacional de salvatagem recente do FMI, compromete todo o sistema financeiro internacional.

Para os trabalhadores argentinos só há saída fora do FMI e Cavallo, cujos cenários são de catástrofe. A universidade pública era a mais golpeada pelo ajuste de López Murphy (que tirava US$ 900 milhões do já minguado orçamento educacional, dos quais 361 milhões, em 2001, e 542 milhões, em 2002, da universidade): os professores universitários, por isso, situaram-se na cabeça das lutas e manifestações de rua das últimas semanas. Mas a continuidade da luta depende agora de delinear um claro enfrentamento político, contra a "ditadura da união nacional". Isso exige independência de classe e, para os trabalhadores brasileiros, o dever da solidariedade internacionalista, da luta em comum contra a re-colonização do continente pelo cáuboi Bush montado em seu novo Cavallo.









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