Monitoramento da pressão arterial identifica síndrome
do jaleco branco
Com um
histórico de hipertensão arterial na família, o assessor de imprensa Edmilson
Silva, 43 anos, não sofria sintomas da doença, como dor de cabeça e taquicardia.
Mas num check up anual, a médica mediu a pressão de 16.10mm de mercúrio -
considerada alta - e receitou um composto de maleato de enalacril. Após seis
meses, ainda sem sentir nenhum sintoma, Edmilson desconfiou do remédio e
procurou a equipe do Hospital Universitário da UFRJ, onde trabalha. Confirmado o
nível alto, resolveu submeter-se ao teste com aparelho de pressão que permanece
no braço durante 24 horas.
Descobriu-se, então, que Silva
era mais um dos 36% dos pacientes de hipertensão vítimas do efeito do jaleco
branco - quando a pressão do paciente aumenta apenas diante da presença do
médico mas se mantém normal durante a rotina diária. Um tipo de hipertensão
arterial esporádica que não necessita de tratamento à base de remédios, apenas
de monitoração. Ele estava tomando remédios sem necessidade.
O estudo no Hospital do Fundão
sobre a síndrome revela que 73% dos hipertensos da instituição que usavam mais
de três medicamentos ainda não conseguiam controlar a doença. Optou-se para
esses pacientes pelo uso do Mapa, o aparelho de Monitoração Ambularial da
Pressão Arterial, que permanece dia e noite no braço do paciente, medindo a
pressão arterial em intervalos de meia hora e gravando o resultado em fita, que
depois é analisada no computador.
A partir do exame das fitas com
os resultados de 158 pacientes, chegou-se à conclusão: o efeito do jaleco branco
é mais comum do que se imagina. Metade desses pacientes teoricamente hipertensos
não-controlados não apresentavam qualquer sinal de elevação da pressão arterial
no dia-a-dia. A outra metade tinha a pressão arterial elevada, mas ainda assim
menor do que a medida no consultório, permitindo a eliminação do uso de remédios
desnecessários.
As vítimas da síndrome do jaleco
branco eliminaram totalmente o uso de remédios. E aqueles cujos índices de
hipertensão do dia-a-dia se elevavam ainda mais diante do médico descobriram a
real necessidade de medicamentos, podendo reduzir dosagens ou modificar o
tratamento. Considerando os custos mínimos de R$ 10 por mês por paciente, a
alteração significou uma economia mensal de R$ 1.580 em remédios para o
hospital.
De acordo com o Ministério da
Saúde, cerca de 22% da população sofre de hipertensão arterial. São,
aproximadamente, 3,5 milhões de brasileiros. Se toda essa população tivesse
acesso ao tratamento monitorado da hipertensão arterial, a possível redução do
uso de remédios, na mesma taxa verificada na prática do HU da UFRJ,
representaria uma economia nacional de mais de R$ 2,5
milhões.
Mas, afinal, o que justifica a
elevação da pressão apenas por estar diante do médico? Para a doutora Elizabeth
Muxfeldt, do programa de hipertensão arterial do Hospital do Fundão, a principal
causa é o estresse emocional. Ela participou de um estudo para detectar se as
mudanças de índice de pressão no consultório estão associadas à relação tensa
entre o médico e o paciente. “Descobriu-se que os fatores de alteração
independem do relacionamento entre eles, já que mesmo aqueles que possuem uma
relação de amizade com o médico podem sentir o efeito do jaleco branco”, explica
a médica. "Acredita-se que o clima de hospital e o contato com outros doentes
graves aumentem a tensão emocional e o estresse do paciente”.
(Jornal do Commercio,
08/08/01)
Site:
www.jcom.com.br