Re: [cevhist] Educação Físiaca higienista...

To: cevhist@xxxxxxxxxxxxxxxxxx
Subject: Re: [cevhist] Educação Físiaca higienista...
From: "Tiemi Nogami" <tieminogami@xxxxxxxxxxx>
Date: Sat, 26 Oct 2002 01:47:07 -0200
Augusto César, bem vindo à lista. acabei de estudar na faculdade sobre educacao fisica progressista e tenho algo sobre educacao fisica higienista. é parte de um livro "Educacao Fisica Progressista" (agora infelizmente nao me lembro do nome do autor... procurarei saber. logo apos, comprometo-me a mandar). Segue abaixo o texto:

I. Introdução

A Educação Física brasileira está em ebulição. Desde o início dos anos 80, qualquer observador da área pode constatar que em vários estados do país pululam núcleos empenhados na rediscussão de temas que vão desde a redefinição do papel da Educação Física na sociedade brasileira até questões ligadas às mudanças necessárias ao nível da prática efetiva nas quadras, ginásios e campos.
É óbvio que essa discussão não surge por acaso. Ela é reflexo de uma discussão maior que envolveu o país a partir do abrandamento do sistema repressivo instaurado pela Ditadura Militar, situação essa que se verificou com maior velocidade e ênfase após a Anistia e, principalmente, após as eleições aos governos dos estados em 1982.
Apesar das discussões sobre a Educação Física nesse curto período ter avançado bastante, um ponto de estrangulamento tem-se mantido: praticamente não existem esforços teóricos no sentido de compor um quadro classificatório capaz de fornecer aos pesquisadores um esboço razoável sobre as tendências e correntes norteadoras da Educação Física brasileira. O que existe na literatura da área são estudos sobre as grandes linhas dos métodos ginásticos, ou ainda mais recentemente, artigos esparsos que procuram transpor, mecanicamente, quadros classificatórios sobre as correntes pedagógicas para a área especifica da Educação Física.
Conscientes dessa problemática, iniciamos na UNESP-Rio Claro um projeto de pesquisa que viabilizasse um texto introdutório à questão da confecção de um quadro classificatório das tendências e correntes da Educação Física brasileira. Tal pesquisa responsabilizou-se pela análise de 1863 artigos, publicados nos principais periódicos (revistas) de Educação Física do país dos anos 30 até os dias atuais. No período anterior, ou seja, nos anos 10 e 20, a análise foi feita a partir da leitura dos livros da época, já que não foi possível encontrar periódicos desses anos.
A partir desses dados, foi possível resgatar cinco tendências da Educação Física brasileira: a Educação Física Higienista (até 1930); a Educação Física Militarista (1930-1945); a Educação Física Pedagogicista (1945-1964); a Educação Física Competitivista (pós-64); e finalmente a Educação Física Popular.
É preciso ter claro que essas classificações não são arbitrarias; elas procuram revelar o que há de essencial em cada uma dessas tendências. Também é necessário ressaltar que a periodicidade exposta deve ser entendida com cautela. Isso porque, de fato, tendências que se explicitam numa época estão latentes em épocas anteriores e, também, tendências que aparentemente desaparecem foram, em verdade, incorporadas por outras.
Mais complicada ainda é a relação dessas concepções encontradas e a prática cotidiana da Educação Física, principalmente da Educação Física escolar. Nem sempre alterações na literatura sobre a Educação Física correspondem a uma efetiva mudança ao nível da prática. Muitas vezes a prática só se altera quando a concepção que lhe dá as diretrizes já perdeu hegemonia. Além do mais, essas defasagens ocorrem de maneira diferente para cada região do país.
O problema também é complexo quando desejamos entender a organização mental dos professores de Educação Física. Todas essas tendências são mais ou menos incorporadas, e estão vivas nas cabeças dos professores atuais. Elas são absorvidas em forma de amálgama e, não raro, levam a um ecletismo pouco produtivo.
Mas, então, sem mais demoras, convidamos o leitor, a conhecer e, principalmente, reconhecer cada uma das tendências encontradas. Vamos a elas.


1.EDUCAÇÃO FÍSICA HIGIENISTA
Existe pelo menos um ponto em comum entre as varias concepções de Educação Física: a insistência na tese da Educação Física como atividade capaz de garantir a aquisição e manutenção da saúde individual. Com maior ou menor ênfase, as concepções de Educação Física, de um modo geral, não deixam de resgatar versões que, em última instancia, estariam presas no lema ?mente sã em corpo são?.
No caso da Educação Física Higienista, a ênfase em relação à questão da saúde está em primeiro plano. Par tal concepção, cabe à Educação Física Higienista um papel fundamental na formação de homens e mulheres sadios, fortes, dispostos à ação. Mais do que isso, a Educação Física não se responsabiliza somente pela saúde individual das pessoas. Em verdade, ela age como protagonista num projeto de ?assepsia social?. Desta forma, para tal concepção a ginástica, o desporto, os jogos recreativos etc. devem, antes de qualquer coisa, disciplinar os hábitos das pessoas no sentido de leva-las a se afastarem de práticas capazes de provocar a deteriorização da saúde e da moral, o que ?comprometeria a vida coletiva?.
Assim, a perspectiva da Educação Física Higienista vislumbra a possibilidade e a necessidade de resolver o problema da saúde pública pela educação. A idéia central é a disseminação de padrões de conduta, forjados pelas elites dirigentes, entre todas as outras classes sociais. A robustez corporal de certa parcela da juventude, robustez advinda de uma vida de poucas privações, é colocada como paradigma para toda a juventude. E os meios para alcançar tal padrão são encontrados na adoção de um correto programa de Educação Física. Tal concepção entende que independentemente das determinações impostas pelas condições de existência material, o indivíduo pode e deve ?adquirir saúde?.
A Educação Física Higienista é uma concepção que se preocupa em erigir a Educação Física como agente de saneamento público, na busca de uma ?sociedade livre das doenças infecciosa e dos vícios deteriorados da saúde e do caráter do homem do povo?.


(...)

II. AS FILOSOFIAS SUBJACENTES ÀS CONCEPCOES DE EDUCAÇÃO FÍSICA

1.Educação Física Higienista
A Educação Física Higienista é uma concepção particularmente forte nos anos finais do Império e no período da Primeira Republica (1889-1930). Pode-se até mesmo dizer quer esse período, que ultrapassa 40 anos, presenteou a Educação Física Higienista com a titulação de concepção hegemônica, frente a suas correntes mais próximas, principalmente a Educação Física Militarista.
A Educação Física Higienista é produto do pensamento liberal. O liberalismo do início do século XX em nosso país acreditou na educação, e particularmente na escola, como ?redentora da humanidade? (cf. Saviani, 1983, p. 165). Sobre os ombros da educação e da escola foram depositadas as esperanças das elites intelectuais de construção de uma sociedade democrática e livre dos problemas sociais. Os liberais não titubeavam em jogar às costas da ?ignorância popular? a culpa pelos problemas sociais que, em verdade, se originavam da perversidade do sistema capitalista.
É interessante reproduzir aqui uma passagem da figura paradigmática do liberalismo brasileiro, o advogado baiano Rui Barbosa:


?Ao nosso ver a chave misteriosa das desgraças que nos afligem é esta, e somente esta: a ignorância popular, mãe da servilidade e da miséria. Eis a grande ameaça contra a existência constitucional e livre da nação; eis o formidável inimigo intestino, que se asila nas entranhas do país? (Apud Ghiraldelli, 1986).

Coerente com a postura de quem acreditava na educação como a chave para as mazelas sociais, Rui soube expressar, enfaticamente, a necessidade da Educação Física que enraizasse na juventude hábitos higiênicos:

... é impossível formar uma nação laboriosa e produtiva, sem que a educação higiênica do corpo acompanhe pari passu, desde o primeiro ensino até o limiar do ensino superior, o desenvolvimento do espírito. Assim nessa quadra da vida estará arraigado o bom habito, firmada a necessidade, e o individuo, entregue a si mesmo, não faltará mais a esse dever primário da existência humana. Acredita-se, em geral, que o exercício da musculatura não aproveita senão à robustez da parte impensante da nossa natureza, à formação de membros vigorosos, à aquisição de forças estranhas à inteligência. Grosseiro erro! O cérebro, a sede do pensamento, envolve o organismo; e o organismo depende vitalmente da higiene, que fortalece os vigorosos, e reconstitui os débeis (apud Lourenço Filho, 1954, p. 109).

Defendendo a tese de que a ?higiene do corpo e a higiene da alma são inseparáveis?, Rui vai encontrar na Educação Física a disciplina escolar capaz de satisfazer o apetite infantil pelo movimento:

A primeira necessidade experimentada, na infância do individuo e na humanidade, é a da mais plena satisfação da vida física. A par das funções nutritivas, o apetite do movimento, a mais invencível tendência à atividade corpórea, domina o homem nesse período da vida. Daí a importância da ginástica, da musica, do canto no programa escolar. Atividade inteligentemente regulada, metodizada, fecundada pelo exercício geral e harmônico dos órgãos do movimento e do aparelho vocal; eis o primeiro dever da escola para com a infância, a homenagem mais elementar rendida aos direitos da natureza na constituição normal do homem (apud Lourenço Filho, 1954, p. 110).

Contra as tendências ?intelectualistas-espiritualistas?, que acusavam Rui de ?materialista?, por estar advogando o cultivo do corpo, ele contestava:

A ginástica não é um agente materialista, mas, pelo contrario, uma influencia tão moralizadora quanto higiênica, tão intelectual quanto física, tão impreenscindível à educação do sentimento e do espírito quanto à estabilidade da saúde e ao vigor dos órgãos. Materialista de fato é, sim, a pedagógica falsa, que, descurando do corpo, escraviza irremissivelmente a alma à tirania odiosa das aberrações de um organismo solado pela debilidade e pela doença. Nessas criaturas desequilibradas, sim, é que a carne governará sempre fatalmente o espírito, ora pelos apetites, ora pelas enfermidades (apud Lourenço Filho, 1954, p. 11).

Vários pontos defendidos pelo pensamento liberal em relação à Educação Física, e que desembocam naquilo que estamos designando de Educação Física Higienista, estão vivos, ainda hoje, permeando os discursos de autoridades governamentais, de pedagogos, de médicos e professores de Educação Física.
Mais recentemente, o fenômeno da proliferação das academias de ginástica, ainda se nutre, mesmo que minimamente, nessa crença, mais forte nas classes medias, de que existe uma real possibilidade de aquisição de saúde e beleza através da Educação Física. O cuidado como o corpo surge, então, desprendido das possibilidades (ou impossibilidades?) que cada individuo, inserido nesse sistema social, possui para adquirir e preservar a saúde e manter o padrão estético-corporal imposto pela mídia.


(...)


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