[Cevdopagem] Dick Pound na Veja

Ana Teresa Guazzelli Beltrami aninhabeltrami em hotmail.com
Sexta Setembro 29 17:09:50 BRT 2006


Luciano, Caio, Alexandre... e demais listeiros

Primeiramente peço perdão pelo atraso da resposta, mas não poderia deixar de 
fazê-la.

Luciano e Caio, sabias palavras tradutoras do inquisitivo sistema antidoping 
vigente, o qual desrespeita direitos básicos e essenciais inerentes à 
humanidade estabelecidos por duras penas ao decorrer de sua história.

É um retrocesso em pleno século XXI!

Realmente, a "a corda nunca arrebentou tanto do lado mais fraco", acredito 
que quem utiliza doping frequentemente não é pego no exame, pois a industria 
do doping está um passo à frente do antidoping. Infelismente a maioria cai 
nessa como "boi de piranha".

Não pensem que faço alguma oposição aos testes, ao contrário, sou totalmente 
à favor da moralidade, transparência e honestidade em tudo e o esporte 
precisa dessa garantia pelo reestabelecimento da lisura nas competições.

O resgate do ideal olímpico para acabar com as fraudes esportivas deve ser 
trabalhado com paciência respeitando as particularidades de cada caso, 
evitando assim, afronta aos direitos dos protagonistas esportivos, pois 
antes de atletas, ídolos e modelos de comportamento, são seres humanos, e 
como nós possuem direitos.

Outra atrocidade brutal é a afirmação de que atletas são trabalhadores 
especiais merecedores de leis particulares. Qual o caráter especial que 
exclui desses trabalhadores o direito a ampla defesa, ao julgamento julto, à 
presunção de inocência para poderem trabalhar? Com que dignidade?

Alexandre, há alguns anos quando comecei estudar o doping, também acreditava 
que o "strict liability" era justo e que os atletas se dopavam sim! 
Acreditava que os testes não falhavam e que  imprimir um "código de barra" 
metábolico na categoria poria fim ao doping.
(Razão pela qual por várias vezes discuti com Alvaro e com o Dr Sabino sobre 
a necessidade dos testes nos moldes em que estão estabelecidos)

Ledo engano! De lá para cá inúmeros casos de doping surgiram e sabe-se lá 
quantas injustiças foram feitas...

Abraço a todos

Ana Teresa.





>From: Alexandre P. Simões <alexandre em rsst.com.br>
>Reply-To: Legislação Desportiva  <cevleis em listas.cev.org.br>
>To: Legislação Desportiva  <cevleis em listas.cev.org.br>
>Subject: Re: [cevleis] Dick Pound na Veja
>Date: Fri, 22 Sep 2006 14:38:16 -0300
>
>Prevados Caio, Luciano e demais Cevlisteiros,
>
>Respeito a opinião dos colegas, mas dela manifesto minha divergência, pois, 
>sou favorável à linha-dura adotada pela WADA, sobretudo no que tange à 
>adoção do princípio da responsabilidade estrita ("strict liability") e me 
>apoio nos resultados práticos obtidos nos últimos tempos, como a 
>desmontagem de um certo laboratório europeu (que funcionava como uma 
>"fábrica de doping") , e o questionamento a vários atletas e treinadores 
>que, até então, eram mitos e responsáveis por marcas impressionantes.
>Se o futuro da prática desportiva exigirá um abrandamento dessa posição ou 
>não, isso eu não me arrisco a avaliar, porém que atualmente a 
>conscientização dos malefícios do uso de substância proibidadas e o combate 
>efetivo à dopagem progrediram, disso não tenho dúvida.
>Acredito que o Futebol é um esporte no qual, se mais testes fossem 
>realizados, principalmente de surpresa e em treinos, seríamos todos 
>surpreendidos com os resultados, pois existem muitos atletas com 
>performances incompatíveis com sua idade ou com o seu histórico atlético 
>(carreira).
>Essa é minha visão.
>Abraços,
>Alexandre P. Simões
>
>----- Original Message ----- From: "Caio Medauar" 
><caio_medauar em yahoo.com.br>
>To: "Legislação Desportiva " <cevleis em listas.cev.org.br>
>Sent: Friday, September 22, 2006 2:10 PM
>Subject: Re: [cevleis] Dick Pound na Veja
>
>
>>Grande Luciano,
>>
>>Faz tempo que não me manifesto sobre doping, mas eu sempre fui contrário 
>>ao
>>CMAD, principalmente pelo fato de achar que o "strict liability" seria
>>considerado inconstitucional pois fere a ampla defesa e o contraditório,
>>criando um responsabilidade sem culpa nem nexo de causalidade.
>>
>>Você bem colocou que se tenta atraves de uma norma autoritária e extrema,
>>ganhar uma luta quase perdida.
>>
>>O Código Anti-doping, para mim, é a prova de incompetencia da WADA de 
>>lidar
>>com o problema, com o agravante da sensação de que só quem tomou doping 
>>por
>>engano é pego.
>>
>>Parece alguns processos administrativos que eu atuo, em que a defesa é
>>perfeita, temos provas etc, mas a autoridade pune ainda sim, pela 
>>malfadada
>>verdade sabida, surgida na ditadura vargas e que se manteve em muitos
>>estatutos. Eu já ouvi gente dizer: "a defesa é coisa de advogado. tá na 
>>cara
>>que ele é culpado".
>>
>>Transpondo isso pro doping é a mesma coisa. "Tá na cara que ele está
>>dopado."
>>
>>Judiciário neles!!!
>>
>>Os escândalos no Estados Unidos estão mostrando isso. Tão prendendo gente 
>>e
>>coisa e tal.
>>
>>Um abraço
>>
>>Caio Medauar
>>----- Original Message ----- From: "Luciano Hostins" <lhostins em uol.com.br>
>>To: "Legislação Desportiva " <cevleis em listas.cev.org.br>
>>Sent: Friday, September 22, 2006 11:58 AM
>>Subject: Re: [cevleis] Dick Pound na Veja
>>
>>
>>| Na entrevista do Senhor Richard Pound nas "Páginas Amarelas" de Veja
>>(Edição
>>| n.º 1974, de 20 de setembro de 2006), pode-se colher a atual realidade 
>>que
>>| cerca o doping quanto ao seu aspecto jurídico.
>>|
>>|
>>|
>>| Como Advogado militante na área esportiva há dez anos e, há seis atuando
>>em
>>| casos envolvendo doping, diferente de muitos Advogados, pouco atuo no
>>| futebol, limitando a minha área às demais modalidades. E foi neste vasto
>>| universo de modalidades além do futebol, e que por fraqueza se curvaram 
>>à
>>| Agência Mundial Antidoping, presidida pelo Senhor Richard Pound, que 
>>pude
>>| constatar os verdadeiros absurdos jurídicos que são cometidos em prol do
>>| ideal - que igualmente defendo - de ver o esporte livre das drogas. 
>>Porém,
>>| tal ideal não pode jogar por terra preceitos universais que estão
>>estampados
>>| na Declaração Universal dos Direitos da Pessoa Humana[1] e são
>>recepcionados
>>| pela Carta Olímpica[2].
>>|
>>|
>>|
>>| Na verdade o sistema antidoping da Agência Mundial impõe às Federações
>>| Internacionais que adotem os princípios do Código Mundial Antidoping. Um
>>| único elemento deste Código merece todas as críticas. Aquilo que é 
>>chamado
>>| de "strict liability", ou, em bom Português, "responsabilidade
>>estrita"[3].
>>| Diante deste preceito, tudo aquilo que é encontrado nos fluídos 
>>corpóreos
>>do
>>| atleta, e que consta da lista proibida da Agência Mundial, é considerado
>>| doping. Portanto, basta a presença da substância para estar 
>>caracterizado
>>| doping. Neste sentido, tem razão ao Entrevistado ao dizer que "se os
>>atletas
>>| quiserem gastar o dinheiro deles com advogados caros, ainda assim vão
>>acabar
>>| perdendo." Tem razão em parte, pois houve casos de absolvição de 
>>atletas,
>>| graças ao trabalho de bons e bem pagos Advogados. Além do mais, esta é 
>>uma
>>| estratégia antiga utilizada por qualquer regime totalitário: calar a
>>| justiça.
>>|
>>|
>>|
>>| Mas os casos falam por si. A Atleta Maurren Higa Maggi foi absolvida da
>>| acusação de doping no Brasil. Mais recentemente o Atleta Sebastião
>>Ferreira
>>| Da Guia Neto foi absolvido em duas instâncias da acusação de doping no
>>| Brasil. Na Itália, a Atleta Giorgia Squizzato[4], teve sua pena reduzida
>>| pela metade, dentre tantos outros casos. É claro que não é fácil 
>>defender
>>um
>>| atleta cuja única prova considerada é aquela que acusa a presença da
>>| substância em seus fluídos corpóreos.
>>|
>>|
>>|
>>| O velho ditado de que "a corda sempre arrebenta do lado mais fraco" 
>>nunca
>>| coube tão bem. O próprio entrevistado confirma isso ao dizer, quando
>>| questionado sobre a punição de treinadores e médicos, que "as regras do
>>| esporte já prevêem isso. O difícil é obter provas. Com atletas é fácil: 
>>se
>>a
>>| prova e a contraprova dão positivo, acabou." Mas o que se vê é que mesmo
>>com
>>| provas irrefutáveis, as Entidades Internacionais estão voltadas somente 
>>à
>>| responsabilidade do atleta e não sabem o que fazer quando há provas 
>>contra
>>| treinadores e médicos. O caso da Atleta Julyana Bassi Kury, nadadora
>>| brasileira atesta isto. A atleta testou positivo para a substância
>>| "stanozolol". Segundo as regras da FINA (que seguem a orientação do 
>>Código
>>| Mundial), se o atleta denunciar e provar quem ministrou a substância
>>| detectada terá a sua pena reduzida pela metade. Esta regra é tão clara
>>| quanto a regra do "strict liability". A Atleta Julyana apresentou à 
>>CBDA,
>>| que remeteu à FINA, a receita médica em que lhe foi ministrada a
>>substância
>>| vedada. A FINA disse que isto era irrelevante. A atleta não teve o
>>benefício
>>| previsto na regra. O médico que agiu desta forma, após sindicância no
>>| Conselho Regional de Medicina de São Paulo, teve instaurado contra si
>>| processo ético-disciplinar. Este caso denota uma outra verdade, 
>>investe-se
>>| tão somente na punição e não na prevenção. A Atleta Julyana, então com
>>| dezessete anos de idade, achava que estava tomando "suplementos". Só
>>| descobriu que o que tomava era considerado doping quando recebeu e leu a
>>| cartilha do COB às vésperas dos Jogos Olímpicos de Atenas. Já era tarde.
>>|
>>|
>>|
>>| Mas voltando à questão dos Advogados, diz o Senhor Pound que "chega uma
>>hora
>>| em que, por melhor que seja o advogado, não se pode fugir das 
>>evidências."
>>| Ocorre que o sistema baseado no "strict liability" não comporta 
>>evidências
>>| em contrário, pois o resultado do exame é absoluto. É o confronto das
>>| evidências da acusação e das da defesa que levam a se fazer justiça,
>>| condenando, absolvendo ou mitigando a pena. Vale como exemplo o caso da
>>| Atleta Marizete Resende, cujo exame indicou a presença da substância EPO
>>| (Eritropoetina Recombinante). No analítico do exame desta substância há 
>>um
>>| gráfico onde existem duas curvas, uma da "Eritropoetina Recombinante", 
>>que
>>é
>>| a artificial, e outra da "Eritropoetina Natural", que é produzida
>>| naturalmente pelo organismo. Quando uma pessoa toma a "Eritropoetina
>>| Recombinante" sistematicamente, a "Eritropoetina Natural" tem sua
>>fabricação
>>| pelo organismo praticamente anulada. Assim, um Atleta que utiliza
>>| sistematicamente a "Eritropoetina Recombinante", terá no gráfico de seu
>>| exame uma curva alta desta substância e uma curva baixa indicando a
>>| "Eritropoetina Natural". No exame da Atleta Marizete, as duas curvas
>>| caminhavam juntas até o pico, provando que a Atleta não era usuária
>>contumaz
>>| da substância. Ou seja, o mesmo laudo que provou que a Atleta usou
>>| efetivamente a "Eritropoetina Recombinante", não serviu para provar que
>>este
>>| uso não se deu de forma sistemática, o que poderia servir para uma 
>>redução
>>| da pena da Atleta. Ou seja, pelo sistema inquisitório adotado pela 
>>Agência
>>| Mundial, a evidência que serve para condenar, não serve para atenuar ou
>>| absolver.
>>|
>>|
>>|
>>| O Senhor Pound ainda responde à questão sobre a proposta do jornal
>>Financial
>>| Times para a liberação do doping dizendo que "é a procura de uma solução
>>| fácil para um problema complicado." Ora, solução fácil é basear-se tão
>>| somente numa única prova para condenar um atleta, o que pode chegar até
>>| mesmo ao seu banimento do esporte. O caso da Atleta Maurren Maggi bem
>>| ilustra isto. A Atleta teve em 2003 resultado adverso para a substância
>>| "Clostebol". Conforme todas as provas carreadas, ficou evidenciado que a
>>| substância adentrou em seus fluídos pela aplicação de uma pomada
>>(Novaderm),
>>| por uma médica que lhe aplicara um procedimento de depilação à laser.
>>Muito
>>| embora absolvida no Brasil, a Atleta não teve sua absolvição reconhecida
>>| pela IAAF. Procedimentos falhos podem ocorrer. A Agência Mundial, e os
>>| laboratórios, muito embora assim se coloquem, não são infalíveis. O
>>próprio
>>| Entrevistado reconhece isso ao mencionar o caso do Atleta Tyler Hamilton
>>| dizendo que "houve um erro de manipulação da contraprova no laboratório 
>>e
>>| ele não perdeu a medalha de ouro." Ou seja, a incapacidade de conter e
>>| prevenir o doping faz com que seja desrespeitado dos mais preciosos
>>valores
>>| da vida, o direito à defesa.
>>|
>>|
>>|
>>| Outra afirmação do Entrevistado que chama a atenção de que "deve-se ter 
>>em
>>| mente que as pessoas não se dopam para ficar iguais às outras, e sim 
>>para
>>| obter vantagem." Sem dúvida este é o princípio do doping. Mas não é 
>>regra,
>>e
>>| aí é que entra o trabalho do Advogado, desprezado pelo entrevistado. Já
>>| houve entendimento de que a utilização de uma determinada substância 
>>pode
>>se
>>| dar para elevar o nível de um Atleta ao de seus adversários quando sua
>>saúde
>>| assim o exige. É nesses casos que se utiliza, por exemplo a Exceção de 
>>Uso
>>| Terapêutico, TUE, como é mais conhecido na sigla inglesa. A própria 
>>Corte
>>de
>>| Arbitragem para o Esporte (CAS), assim se manifestou: "O apelante,
>>conforme
>>| provado, usou Ventolin por necessidade médica, e com a finalidade de
>>| habilita-lo para praticar esporte, inclusive o pólo aquático. Removeu um
>>| obstáculo, em lugar de fornecer uma escada. Nivelou a competição, e não
>>| utilizou isto em seu favor."[5] Neste caso o Atleta não obteve sua
>>| absolvição naquela Corte, uma vez que teria como alternativa a TUE. 
>>Porém
>>o
>>| entendimento da CAS lança luzes para futuras discussões. Aliás, esta
>>| discussão deve ser travada no âmbito dos Tribunais Desportivos, através 
>>de
>>| teses patrocinadas por Advogados. Advogados Desportivos, e não
>>| Tributaristas.
>>|
>>|
>>|
>>| Enfim, a luta contra o doping deve ser travada, não resta dúvida, mas 
>>esta
>>| luta não pode colocar de lado os preceitos universais e olímpicos já
>>| mencionados, sob pena de o esporte se equiparar a uma ditadura qualquer, 
>>a
>>| um regime inquisitório que esgota a si próprio.
>>|
>>|
>>|
>>| Luciano Hostins
>>|
>>| Advogado Desportivo
>>|
>>|
>>|
>>| 
>>--------------------------------------------------------------------------------
>>|
>>| [1] A PRESENTE DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS DO HOMEM como o ideal
>>comum
>>| a ser atingido por todos os povos e todas as nações, com o objetivo de 
>>que
>>| cada indivíduo e cada órgão da sociedade, tendo sempre em mente esta
>>| Declaração, se esforce, através do ensino e da educação, por promover o
>>| respeito a esses direitos e liberdades, e, pela adoção de medidas
>>| progressivas de caráter nacional e internacional, por assegurar o seu
>>| reconhecimento e a sua observância universais e efetivos, tanto entre os
>>| povos dos próprios Estados Membros, quanto entre os povos dos 
>>territórios
>>| sob sua jurisdição. (Enunciado da Declaração Universal dos Direitos do
>>| Homem)
>>|
>>|
>>|
>>| Considerando que o reconhecimento da dignidade inerente a todos os 
>>membros
>>| da família humana e de seus direitos iguais e inalienáveis é o 
>>fundamento
>>da
>>| liberdade, da justiça e da paz no mundo (Primeiro Considerando da
>>Declaração
>>| Universal dos Direitos do Homem)
>>|
>>|
>>|
>>| Todo homem tem direito, em plena igualdade, a uma justa e pública
>>audiência
>>| por parte de um tribunal independente e imparcial, para decidir de seus
>>| direitos e deveres ou do fundamento de qualquer acusação criminal contra
>>| ele. (Artigo X da Declaração Universal dos Direitos do Homem)
>>|
>>|
>>|
>>| Todo homem acusado de um ato delituoso tem o direito de ser presumido
>>| inocente até que a sua culpabilidade tenha sido provada de acordo com a
>>lei,
>>| em julgamento público no qual lhe tenham sido asseguradas todas as
>>garantias
>>| necessárias à sua defesa. (Artigo XI.1 da  Declaração Universal dos
>>Direitos
>>| do Homem)
>>|
>>|
>>|
>>| [2] O Olimpismo é uma filosofia de vida que exalta e combina num 
>>conjunto
>>| harmonioso as qualidades do corpo, a vontade e o espírito. Aliando o
>>| desporto com a cultura e a educação, o Olimpismo propõem-se criar um
>>estilo
>>| de vida baseado na alegria do esforço, no valor educativo do bom exemplo 
>>e
>>| respeito pelos princípios éticos fundamentais universais. (Princípio 2 
>>da
>>| Carta Olímpica)
>>|
>>|
>>|
>>| O objetivo do Olimpismo é por sempre o desporto a serviço do
>>desenvolvimento
>>| harmonioso do homem, com o fim de favorecer o estabelecimento de uma
>>| sociedade pacífica e comprometida com a manutenção da dignidade humana.
>>Para
>>| esse fim, o Movimento Olímpico leva a cabo, autonomamente ou em 
>>cooperação
>>| com outros organismos e dentro das suas possibilidades, ações em favor 
>>da
>>| paz. (Princípio 3 da Carta Olímpica)
>>|
>>|
>>|
>>| [3] Constitui-se em violação a regra antidoping a presença de uma
>>substância
>>| proibida, dos seus metabolitos ou marcadores, em uma amostra fornecida 
>>por
>>| um atleta. (Artigo 2° do Código Mundial Antidoping)
>>|
>>|
>>|
>>| [4] FINA Doping Panel - 9 December 2004 - Giorgia Squizzato/Italian
>>Swimming
>>| Federation
>>|
>>| [5] CAS 96/149
>>|
>>|
>>|
>>| ----- Original Message ----- | From: "Ana Teresa Guazzelli Beltrami" 
>><aninhabeltrami em hotmail.com>
>>| To: <cevdopagem em listas.cev.org.br>; <cevleis em listas.cev.org.br>
>>| Sent: Monday, September 18, 2006 2:17 PM
>>| Subject: [cevleis] Dick Pound na Veja
>>|
>>|
>>| > Entrevista: Dick Pound
>>| > O doping será vencido
>>| >
>>| > Odiado por atletas e dirigentes, o presidente
>>| > da Agência Mundial Antidoping anuncia testes
>>| > contra a trapaça genética
>>| >
>>| > "Não se trata apenas de um atleta aqui e outro ali. Há equipes, 
>>médicos
>>e
>>| > treinadores trabalhando juntos para enganar"
>>| >
>>| > Um dos homens mais odiados do esporte é o advogado canadense Richard
>>| > Pound, "Dick" para os amigos e inimigos. Esse ex-nadador de 64 anos é 
>>o
>>| > presidente da Agência Mundial Antidoping (AMA) desde que a entidade 
>>foi
>>| > criada, em 1999. Nessa condição, comprou briga com gente poderosa do
>>| > esporte, a quem acusa de falta de interesse em perseguir e punir 
>>atletas
>>| > que usam substâncias proibidas. Desentendeu-se, por exemplo, com Sepp
>>| > Blatter, presidente da Fifa, até que a entidade máxima do futebol se
>>| > curvou ao Código Mundial Antidoping. Há quem diga que Pound está
>>| > ultrapassado e defende uma causa inglória, pois o doping nunca pareceu
>>tão
>>| > propagado. Para ficar apenas num exemplo recente, em agosto o 
>>velocista
>>| > americano Justin Gatlin perdeu o recorde dos 100 metros livres, que
>>| > igualara em maio, e foi suspenso por oito anos por uso de esteróides.
>>| > Nesta entrevista, Pound se define como um "idealista cínico" que sonha
>>com
>>| > um esporte limpo como no tempo em que foi atleta olímpico. Nos Jogos
>>| > Olímpicos de Roma, em 1960, foi sexto colocado na final dos 100 metros
>>| > nado livre, em que o brasileiro Manoel dos Santos foi medalhista de
>>| > bronze. Como prova de seu otimismo, anuncia para breve um teste contra 
>>a
>>| > nova ameaça - o doping por manipulação genética.
>>| >
>>| > Veja - Casos de grandes atletas, como Justin Gatlin, provam que o 
>>doping
>>| > não pode ser vencido?
>>| > Dick Pound - Não. O doping é um grande problema, mas temos feito
>>| > progressos, como se pôde ver nas investigações recentes na Espanha, na
>>| > França e na Itália (em que a polícia desbaratou redes de fornecimento 
>>de
>>| > drogas a atletas). Não se trata apenas de um atleta aqui e outro ali
>>| > tomando substâncias proibidas. Há equipes, médicos e treinadores
>>| > trabalhando juntos para enganar. Para enfrentá-los é preciso uma
>>| > combinação de esforços: programas de teste reforçados e uso do poder
>>| > investigativo das autoridades públicas.
>>| >
>>| > Veja - Isso significa que a luta antidoping virou caso de polícia?
>>| > Dick Pound - Significa que é preciso lançar mão de todos os poderes
>>| > disponíveis. Sabemos quem são os atletas e onde eles estão. Sabemos 
>>mais
>>| > ou menos o que eles tomam e quem são seus treinadores. Mas não temos o
>>| > poder de fazer apreensões e intimar testemunhas.
>>| >
>>| > Veja - Treinadores e médicos também devem ser suspensos?
>>| > Dick Pound - As regras do esporte já prevêem isso. O difícil é obter
>>| > provas. Com atletas é fácil: se a prova e a contraprova dão positivo,
>>| > acabou. Mas com técnicos e médicos é mais complicado. Por isso
>>| > estabelecemos na agência um modelo que inclui a ajuda de autoridades
>>| > públicas.
>>| >
>>| > Veja - Em centenas de testes na última Volta da França de ciclismo 
>>houve
>>| > apenas um caso positivo, o do campeão, o americano Floyd Landis. O
>>senhor
>>| > acha que ele foi o único a se dopar?
>>| > Dick Pound - Tenho certeza de que não.
>>| >
>>| > Veja - Como o senhor explica, então, só uma descoberta?
>>| > Dick Pound - Sempre tivemos dificuldades com os procedimentos da União
>>| > Ciclística Internacional (UCI). Ao ser chamado para o teste, o atleta
>>tem
>>| > até uma hora para se apresentar à sala de exame. Nesse lapso de tempo,
>>| > fica sem nenhuma escolta. É tempo demais para quem quer manipular o
>>teste,
>>| > tomando substâncias mascarantes, por exemplo.
>>| >
>>| > Veja - O que o senhor acha das desculpas que atletas como Landis e
>>Justin
>>| > Gatlin dão para seus casos?
>>| > Dick Pound - Precisamos ouvi-las, mas não precisamos acreditar nelas.
>>| > Landis deu cinco ou seis explicações diferentes entre a prova e a
>>| > contraprova. Primeiro, que era testosterona natural. Segundo, que 
>>foram
>>| > umas cervejas. Terceiro, que foi uísque. Quarto, que foi excesso de
>>| > exercício. E assim por diante. Ele terá, na apelação, oportunidade de
>>| > apresentar desculpas e veremos se os juízes vão aceitá-las. Algo me 
>>diz
>>| > que não.
>>| >
>>| > Veja - Landis alegou que foi testado oito vezes antes e todos os
>>| > resultados foram negativos. Como isso é possível?
>>| > Dick Pound - O nível de testosterona estava dez vezes acima do normal.
>>Se
>>| > essa fosse a condição normal do atleta, teria aparecido em testes
>>| > anteriores. E isso nunca aconteceu, ponto final. O resultado positivo
>>| > aconteceu no dia seguinte a uma etapa desastrosa, em que ele perdeu 
>>algo
>>| > como oito minutos. Foi um dia de um esforço heróico, em que ele 
>>reduziu
>>a
>>| > diferença a menos de 30 segundos. Um desempenho fantástico, justamente
>>no
>>| > dia em que se achou a testosterona. Diante dos fatos não há desculpas.
>>| >
>>| > Veja - Por que o senhor acusa a União Ciclística Internacional de não
>>| > enfrentar o problema?
>>| > Dick Pound - É uma evidência. Quando se vê que a organização da Volta 
>>da
>>| > França deste ano teve de excluir o segundo, o terceiro, o quarto, o
>>quinto
>>| > e o sexto colocados de 2005 e que a prova e a contraprova do vencedor
>>| > deram positivo, é sinal de que o problema está fora de controle e que 
>>a
>>| > UCI foi incapaz de agir.
>>| >
>>| > Veja - Por quê? Medo de prejudicar o próprio negócio?
>>| > Dick Pound - Imagino que essa seja uma possibilidade. Para mim, é 
>>muito
>>| > estranho que uma organização de grande importância e abrangência como 
>>a
>>| > UCI não consiga encontrar nenhum atleta dopado em seus testes.
>>| >
>>| > Veja - O senhor também acusou a Fifa de não fazer o suficiente contra 
>>o
>>| > doping. Que esportes estão atrasados nesse aspecto?
>>| > Dick Pound - O caso com a Fifa foi que, embora tenha adotado o Código
>>| > Mundial Antidoping, ela não mudou suas regras internas. Continuamos
>>| > pressionando por mudanças porque a Fifa representa o esporte mais
>>popular
>>| > do planeta, que tem doping como qualquer outro. O atletismo, o
>>| > halterofilismo e a natação também têm problemas. Nenhum esporte tem
>>doping
>>| > zero.
>>| >
>>| > Veja - Atletas acusados têm contratado advogados caros e agressivos -
>>que
>>| > contestam o procedimento dos exames. Isso ameaça a luta antidoping?
>>| > Dick Pound - Não. Se os atletas quiserem gastar o dinheiro deles com
>>| > advogados caros, ainda assim vão acabar perdendo. Esse foi o caso de
>>Tyler
>>| > Hamilton (ciclista americano suspenso quando um teste detectou sangue 
>>de
>>| > outra pessoa em sua amostra) e de Tim Montgomery (americano que teve
>>| > cassado o recorde mundial dos 100 metros rasos). Provavelmente Floyd
>>| > Landis vai pagar muito por um advogado. Seu teste também demonstrou 
>>que
>>a
>>| > testosterona, além de elevada, não era de origem natural. Chega uma 
>>hora
>>| > em que, por melhor que seja o advogado, não se pode fugir das
>>evidências.
>>| >
>>| > Veja - No ano passado revelou-se que amostras da urina de Lance
>>Armstrong,
>>| > colhidas em 1999, tinham a proibida eritropoietina (EPO). Por que ele
>>não
>>| > foi punido?
>>| > Dick Pound - Tudo o que posso dizer é que o caso não foi totalmente
>>| > explorado. O laboratório francês tinha amostras congeladas de 1998 e
>>1999.
>>| > Elas foram analisadas anonimamente, para fins de pesquisa, e quinze
>>deram
>>| > positivo para EPO, substância que não podia ser detectada em 1999.
>>| > Repórteres do jornal L'Équipe obtiveram - não sei como - cópias dos
>>testes
>>| > de Armstrong na época, cruzaram números e publicaram a manchete
>>| > "Armstrong, a fraude". Dissemos à UCI que, se as regras da entidade
>>| > permitissem uma desclassificação com base nisso, eles deveriam assumir
>>| > suas responsabilidades e tomar uma decisão. Tudo o que fizeram foi
>>| > protestar pelo vazamento das informações.
>>| >
>>| > Veja - O senhor foi acusado de responsabilidade por esse vazamento.
>>| > Dick Pound - A AMA foi criada em 1999 e não poderia ter os formulários
>>dos
>>| > testes de Armstrong daquela época.
>>| >
>>| > Veja - Um relatório de um especialista contratado pela UCI inocentou
>>| > Armstrong.
>>| > Dick Pound - É claro que o relatório foi tendencioso. E não o 
>>inocentou
>>de
>>| > verdade. Disse apenas que havia a possibilidade de manipulação errada 
>>no
>>| > laboratório francês. Mas se trata de um dos melhores laboratórios do
>>| > mundo. Eles são muito cuidadosos. Se disseram que havia EPO nessas
>>| > amostras, é porque havia mesmo.
>>| >
>>| > Veja - É difícil confrontar atletas que são ídolos em seus países, 
>>como
>>| > Armstrong, que o chamou de "antiético"?
>>| > Dick Pound - Essa é uma das razões pelas quais criamos uma agência
>>| > internacional e independente. Depois do caso Festina (em que a equipe
>>foi
>>| > pega no maior escândalo de doping da história do ciclismo, em 1998),
>>| > ninguém confiava mais na UCI. Depois que Juan Antonio Samaranch (então
>>| > presidente do Comitê Olímpico Internacional) deu uma famosa declaração
>>| > (minimizando o caso Festina), ninguém confiava mais no COI. E nenhum
>>país
>>| > confiava no outro para punir seus próprios atletas. Então concluímos 
>>que
>>a
>>| > única solução era criar uma agência absolutamente independente.
>>| >
>>| > Veja - O jornal inglês Financial Times defendeu a liberação do doping. 
>>O
>>| > que o senhor responde a essa proposta?
>>| > Dick Pound - Acho que é a procura de uma solução fácil para um 
>>problema
>>| > complicado. Deve-se ter em mente que as pessoas não se dopam para 
>>ficar
>>| > iguais às outras, e sim para obter vantagem. Se todo mundo estiver
>>tomando
>>| > 10 gramas de estanozolol (um esteróide proibido), que tal se eu tomar
>>20,
>>| > 30 ou 40 gramas? Embarca-se em um círculo vicioso. Além disso, não se
>>pode
>>| > limitar a questão a uns poucos atletas de nível mundial, porque a
>>mensagem
>>| > resultante - para tornar-se um grande esportista, você tem de fazer
>>isso -
>>| > chegaria aos jovens no ensino médio. De repente, haveria 2 milhões ou 
>>3
>>| > milhões de jovens tomando drogas e se teria um problema de saúde
>>pública,
>>| > mais que qualquer outra coisa.
>>| >
>>| > Veja - Sua agência tem feito algo contra o doping genético?
>>| > Dick Pound - O doping genético é uma possibilidade concreta.
>>| > Provavelmente, dentro de poucos anos ele será usado. Mas a diferença 
>>em
>>| > relação ao doping tradicional, se é que posso chamá-lo assim, é que a
>>| > agência não está esperando que ele se torne problema antes de procurar
>>uma
>>| > solução. Da década de 1960 à de 1990, o movimento esportivo deixou o
>>| > doping tradicional fugir do controle. Agora, começamos quatro anos 
>>atrás
>>a
>>| > nos encontrar com os principais geneticistas do mundo. Acho que 
>>teremos
>>um
>>| > teste simples disponível na época em que começarem a usar o doping
>>| > genético. Chegaremos na frente.
>>| >
>>| > Veja - Isso já acontecerá nos Jogos de Pequim, em 2008?
>>| > Dick Pound - Talvez seja um pouco cedo demais, mas quem sabe? Estamos
>>| > financiando e encorajando pesquisas e trabalhando ao máximo para
>>produzir
>>| > um teste não invasivo que possa determinar a diferença entre genes
>>| > originais e alterados.
>>| >
>>| > Veja - O senhor pode dar mais detalhes? Haveria um banco de DNA de
>>| > atletas? O teste seria com amostras da saliva?
>>| > Dick Pound - Não posso dar esse tipo de detalhe. Sou apenas um 
>>advogado
>>| > tributarista, não entendo muita coisa a respeito dos detalhes
>>científicos.
>>| > Mas sei que será algo simples.
>>| >
>>| > Veja - Dias antes das Olimpíadas de Atenas, em 2004, o senhor anunciou
>>um
>>| > teste para detectar hormônio de crescimento humano, o que teria feito
>>| > muitos atletas desistir de competir. A ameaça pode dissuadir
>>trapaceiros?
>>| > Dick Pound - Nós realmente dispúnhamos de um teste para HGH. Foi assim
>>que
>>| > Tyler Hamilton foi pego no ciclismo. Mas infelizmente houve um erro de
>>| > manipulação da contraprova no laboratório e ele não perdeu a medalha 
>>de
>>| > ouro. Depois não pudemos fazer mais testes, e não basta fazê-los 
>>apenas
>>na
>>| > época das grandes competições. É preciso ir aos treinamentos, sem 
>>aviso
>>| > prévio, mas não temos anticorpos de HGH suficientes. Trabalhamos com a
>>| > indústria farmacêutica para produzir a quantidade adequada a um número
>>| > maior de testes.
>>| >
>>| > Veja - Havia doping no seu tempo de atleta?
>>| > Dick Pound - Não. Isso começou com os levantadores de peso e os
>>| > arremessadores de peso, disco e martelo no fim dos anos 1960. Até 1968
>>não
>>| > havia sequer exames antidoping nos Jogos Olímpicos. Na natação, o 
>>máximo
>>| > que fazíamos para obter vantagem sobre os adversários era depilar as
>>| > pernas.
>>| >
>>| > Veja - A revista inglesa The Economist chamou-o de "idealista nos 
>>moldes
>>| > vitorianos". Sua luta não é utópica?
>>| > Dick Pound - Estão me chamando de velho? Gosto de pensar em mim mesmo
>>como
>>| > um idealista cínico. Sei como o esporte deveria ser, mas sou cínico o
>>| > bastante para saber que há pessoas que farão qualquer coisa para 
>>vencer.
>>| > Acho que isso destrói o esporte e é injusto com os outros 
>>competidores.
>>| >
>>| > Veja - Quais os maiores desafios da luta antidoping?
>>| > Dick Pound - O primeiro é que muitas federações internacionais parecem
>>não
>>| > insistir para que os países afiliados tenham programas antidoping
>>| > efetivos. O segundo é que levará muito tempo até que o público
>>compreenda
>>| > os perigos éticos e físicos do doping. A Interpol dispõe de uma
>>| > estatística segundo a qual o mercado das substâncias dopantes, como os
>>| > anabolizantes, é maior que o tráfico de maconha, o de cocaína e o de
>>| > heroína combinados.
>>| >
>>| > Veja - Isso não prova que tentar detê-lo é uma utopia?
>>| > Dick Pound - Não. O problema é que as autoridades sempre se 
>>concentraram
>>| > nas chamadas drogas recreativas, como a maconha. Vai levar tempo para
>>| > pensarem nos esteróides e começarem a processar quem compra, tem ou
>>vende
>>| > substâncias do gênero. Por outro lado, é verdade que a entrada do 
>>crime
>>| > organizado nesse mercado só complica as coisas.
>>| >
>>| > Veja - O senhor presidiu o comitê que investigou a atribuição dos 
>>Jogos
>>| > Olímpicos de Inverno de 2002 a Salt Lake City, quando membros do COI
>>| > receberam presentes em troca de votos. O doping não seria apenas um
>>| > aspecto da corrupção generalizada no esporte?
>>| > Dick Pound - O caso de Salt Lake City chegou perto, mas não chegou a 
>>ser
>>| > de corrupção. Foi de comportamento antiético. Ele mostrou que existe 
>>um
>>| > problema. Mas, assim como um alcoólatra só consegue lidar com o 
>>problema
>>a
>>| > partir do momento em que o admite, será impossível encontrar uma 
>>solução
>>| > enquanto o esporte não fizer o mesmo.
>>| >
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