[Cevdopagem] Dick Pound na Veja

Caio Medauar caio_medauar em yahoo.com.br
Sexta Setembro 22 14:10:48 BRT 2006


Grande Luciano,

Faz tempo que não me manifesto sobre doping, mas eu sempre fui contrário ao 
CMAD, principalmente pelo fato de achar que o "strict liability" seria 
considerado inconstitucional pois fere a ampla defesa e o contraditório, 
criando um responsabilidade sem culpa nem nexo de causalidade.

Você bem colocou que se tenta através de uma norma autoritária e extrema, 
ganhar uma luta quase perdida.

O Código Anti-doping, para mim, é a prova de incompetência da WADA de lidar 
com o problema, com o agravante da sensação de que só quem tomou doping por 
engano é pego.

Parece alguns processos administrativos que eu atuo, em que a defesa é 
perfeita, temos provas etc, mas a autoridade pune ainda sim, pela malfadada 
verdade sabida, surgida na ditadura Vargas e que se manteve em muitos 
estatutos. Eu já ouvi gente dizer: "a defesa é coisa de advogado. ta na cara 
que ele é culpado".

Transpondo isso pro doping é a mesma coisa. "Tá na cara que ele está 
dopado."

Judiciário neles!!!

Os escândalos no Estados Unidos estão mostrando isso. Tão prendendo gente e 
coisa e tal.

Um abraço

Caio Medauar




----- Original Message ----- 
From: "Luciano Hostins" <lhostins em uol.com.br>
To: "Abordagem interdisciplinar da dopagem" <cevdopagem em listas.cev.org.br>
Sent: Friday, September 22, 2006 11:58 AM
Subject: Re: [Cevdopagem] Dick Pound na Veja


| Na entrevista do Senhor Richard Pound nas "Páginas Amarelas" de Veja 
(Edição
| n.º 1974, de 20 de setembro de 2006), pode-se colher a atual realidade que
| cerca o doping quanto ao seu aspecto jurídico.
|
|
|
| Como Advogado militante na área esportiva há dez anos e, há seis atuando 
em
| casos envolvendo doping, diferente de muitos Advogados, pouco atuo no
| futebol, limitando a minha área às demais modalidades. E foi neste vasto
| universo de modalidades além do futebol, e que por fraqueza se curvaram à
| Agência Mundial Antidoping, presidida pelo Senhor Richard Pound, que pude
| constatar os verdadeiros absurdos jurídicos que são cometidos em prol do
| ideal - que igualmente defendo - de ver o esporte livre das drogas. Porém,
| tal ideal não pode jogar por terra preceitos universais que estão 
estampados
| na Declaração Universal dos Direitos da Pessoa Humana[1] e são 
recepcionados
| pela Carta Olímpica[2].
|
|
|
| Na verdade o sistema antidoping da Agência Mundial impõe às Federações
| Internacionais que adotem os princípios do Código Mundial Antidoping. Um
| único elemento deste Código merece todas as críticas. Aquilo que é chamado
| de "strict liability", ou, em bom Português, "responsabilidade 
estrita"[3].
| Diante deste preceito, tudo aquilo que é encontrado nos fluídos corpóreos 
do
| atleta, e que consta da lista proibida da Agência Mundial, é considerado
| doping. Portanto, basta a presença da substância para estar caracterizado
| doping. Neste sentido, tem razão ao Entrevistado ao dizer que "se os 
atletas
| quiserem gastar o dinheiro deles com advogados caros, ainda assim vão 
acabar
| perdendo." Tem razão em parte, pois houve casos de absolvição de atletas,
| graças ao trabalho de bons e bem pagos Advogados. Além do mais, esta é uma
| estratégia antiga utilizada por qualquer regime totalitário: calar a
| justiça.
|
|
|
| Mas os casos falam por si. A Atleta Maurren Higa Maggi foi absolvida da
| acusação de doping no Brasil. Mais recentemente o Atleta Sebastião 
Ferreira
| Da Guia Neto foi absolvido em duas instâncias da acusação de doping no
| Brasil. Na Itália, a Atleta Giorgia Squizzato[4], teve sua pena reduzida
| pela metade, dentre tantos outros casos. É claro que não é fácil defender 
um
| atleta cuja única prova considerada é aquela que acusa a presença da
| substância em seus fluídos corpóreos.
|
|
|
| O velho ditado de que "a corda sempre arrebenta do lado mais fraco" nunca
| coube tão bem. O próprio entrevistado confirma isso ao dizer, quando
| questionado sobre a punição de treinadores e médicos, que "as regras do
| esporte já prevêem isso. O difícil é obter provas. Com atletas é fácil: se 
a
| prova e a contraprova dão positivo, acabou." Mas o que se vê é que mesmo 
com
| provas irrefutáveis, as Entidades Internacionais estão voltadas somente à
| responsabilidade do atleta e não sabem o que fazer quando há provas contra
| treinadores e médicos. O caso da Atleta Julyana Bassi Kury, nadadora
| brasileira atesta isto. A atleta testou positivo para a substância
| "stanozolol". Segundo as regras da FINA (que seguem a orientação do Código
| Mundial), se o atleta denunciar e provar quem ministrou a substância
| detectada terá a sua pena reduzida pela metade. Esta regra é tão clara
| quanto a regra do "strict liability". A Atleta Julyana apresentou à CBDA,
| que remeteu à FINA, a receita médica em que lhe foi ministrada a 
substância
| vedada. A FINA disse que isto era irrelevante. A atleta não teve o 
benefício
| previsto na regra. O médico que agiu desta forma, após sindicância no
| Conselho Regional de Medicina de São Paulo, teve instaurado contra si
| processo ético-disciplinar. Este caso denota uma outra verdade, investe-se
| tão somente na punição e não na prevenção. A Atleta Julyana, então com
| dezessete anos de idade, achava que estava tomando "suplementos". Só
| descobriu que o que tomava era considerado doping quando recebeu e leu a
| cartilha do COB às vésperas dos Jogos Olímpicos de Atenas. Já era tarde.
|
|
|
| Mas voltando à questão dos Advogados, diz o Senhor Pound que "chega uma 
hora
| em que, por melhor que seja o advogado, não se pode fugir das evidências."
| Ocorre que o sistema baseado no "strict liability" não comporta evidências
| em contrário, pois o resultado do exame é absoluto. É o confronto das
| evidências da acusação e das da defesa que levam a se fazer justiça,
| condenando, absolvendo ou mitigando a pena. Vale como exemplo o caso da
| Atleta Marizete Resende, cujo exame indicou a presença da substância EPO
| (Eritropoetina Recombinante). No analítico do exame desta substância há um
| gráfico onde existem duas curvas, uma da "Eritropoetina Recombinante", que 
é
| a artificial, e outra da "Eritropoetina Natural", que é produzida
| naturalmente pelo organismo. Quando uma pessoa toma a "Eritropoetina
| Recombinante" sistematicamente, a "Eritropoetina Natural" tem sua 
fabricação
| pelo organismo praticamente anulada. Assim, um Atleta que utiliza
| sistematicamente a "Eritropoetina Recombinante", terá no gráfico de seu
| exame uma curva alta desta substância e uma curva baixa indicando a
| "Eritropoetina Natural". No exame da Atleta Marizete, as duas curvas
| caminhavam juntas até o pico, provando que a Atleta não era usuária 
contumaz
| da substância. Ou seja, o mesmo laudo que provou que a Atleta usou
| efetivamente a "Eritropoetina Recombinante", não serviu para provar que 
este
| uso não se deu de forma sistemática, o que poderia servir para uma redução
| da pena da Atleta. Ou seja, pelo sistema inquisitório adotado pela Agência
| Mundial, a evidência que serve para condenar, não serve para atenuar ou
| absolver.
|
|
|
| O Senhor Pound ainda responde à questão sobre a proposta do jornal 
Financial
| Times para a liberação do doping dizendo que "é a procura de uma solução
| fácil para um problema complicado." Ora, solução fácil é basear-se tão
| somente numa única prova para condenar um atleta, o que pode chegar até
| mesmo ao seu banimento do esporte. O caso da Atleta Maurren Maggi bem
| ilustra isto. A Atleta teve em 2003 resultado adverso para a substância
| "Clostebol". Conforme todas as provas carreadas, ficou evidenciado que a
| substância adentrou em seus fluídos pela aplicação de uma pomada 
(Novaderm),
| por uma médica que lhe aplicara um procedimento de depilação à laser. 
Muito
| embora absolvida no Brasil, a Atleta não teve sua absolvição reconhecida
| pela IAAF. Procedimentos falhos podem ocorrer. A Agência Mundial, e os
| laboratórios, muito embora assim se coloquem, não são infalíveis. O 
próprio
| Entrevistado reconhece isso ao mencionar o caso do Atleta Tyler Hamilton
| dizendo que "houve um erro de manipulação da contraprova no laboratório e
| ele não perdeu a medalha de ouro." Ou seja, a incapacidade de conter e
| prevenir o doping faz com que seja desrespeitado dos mais preciosos 
valores
| da vida, o direito à defesa.
|
|
|
| Outra afirmação do Entrevistado que chama a atenção de que "deve-se ter em
| mente que as pessoas não se dopam para ficar iguais às outras, e sim para
| obter vantagem." Sem dúvida este é o princípio do doping. Mas não é regra, 
e
| aí é que entra o trabalho do Advogado, desprezado pelo entrevistado. Já
| houve entendimento de que a utilização de uma determinada substância pode 
se
| dar para elevar o nível de um Atleta ao de seus adversários quando sua 
saúde
| assim o exige. É nesses casos que se utiliza, por exemplo a Exceção de Uso
| Terapêutico, TUE, como é mais conhecido na sigla inglesa. A própria Corte 
de
| Arbitragem para o Esporte (CAS), assim se manifestou: "O apelante, 
conforme
| provado, usou Ventolin por necessidade médica, e com a finalidade de
| habilita-lo para praticar esporte, inclusive o pólo aquático. Removeu um
| obstáculo, em lugar de fornecer uma escada. Nivelou a competição, e não
| utilizou isto em seu favor."[5] Neste caso o Atleta não obteve sua
| absolvição naquela Corte, uma vez que teria como alternativa a TUE. Porém 
o
| entendimento da CAS lança luzes para futuras discussões. Aliás, esta
| discussão deve ser travada no âmbito dos Tribunais Desportivos, através de
| teses patrocinadas por Advogados. Advogados Desportivos, e não
| Tributaristas.
|
|
|
| Enfim, a luta contra o doping deve ser travada, não resta dúvida, mas esta
| luta não pode colocar de lado os preceitos universais e olímpicos já
| mencionados, sob pena de o esporte se equiparar a uma ditadura qualquer, a
| um regime inquisitório que esgota a si próprio.
|
|
|
| Luciano Hostins
|
| Advogado Desportivo
|
|
|
| --------------------------------------------------------------------------------
|
| [1] A PRESENTE DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS DO HOMEM como o ideal 
comum
| a ser atingido por todos os povos e todas as nações, com o objetivo de que
| cada indivíduo e cada órgão da sociedade, tendo sempre em mente esta
| Declaração, se esforce, através do ensino e da educação, por promover o
| respeito a esses direitos e liberdades, e, pela adoção de medidas
| progressivas de caráter nacional e internacional, por assegurar o seu
| reconhecimento e a sua observância universais e efetivos, tanto entre os
| povos dos próprios Estados Membros, quanto entre os povos dos territórios
| sob sua jurisdição. (Enunciado da Declaração Universal dos Direitos do
| Homem)
|
|
|
| Considerando que o reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros
| da família humana e de seus direitos iguais e inalienáveis é o fundamento 
da
| liberdade, da justiça e da paz no mundo (Primeiro Considerando da 
Declaração
| Universal dos Direitos do Homem)
|
|
|
| Todo homem tem direito, em plena igualdade, a uma justa e pública 
audiência
| por parte de um tribunal independente e imparcial, para decidir de seus
| direitos e deveres ou do fundamento de qualquer acusação criminal contra
| ele. (Artigo X da Declaração Universal dos Direitos do Homem)
|
|
|
| Todo homem acusado de um ato delituoso tem o direito de ser presumido
| inocente até que a sua culpabilidade tenha sido provada de acordo com a 
lei,
| em julgamento público no qual lhe tenham sido asseguradas todas as 
garantias
| necessárias à sua defesa. (Artigo XI.1 da  Declaração Universal dos 
Direitos
| do Homem)
|
|
|
| [2] O Olimpismo é uma filosofia de vida que exalta e combina num conjunto
| harmonioso as qualidades do corpo, a vontade e o espírito. Aliando o
| desporto com a cultura e a educação, o Olimpismo propõem-se criar um 
estilo
| de vida baseado na alegria do esforço, no valor educativo do bom exemplo e
| respeito pelos princípios éticos fundamentais universais. (Princípio 2 da
| Carta Olímpica)
|
|
|
| O objetivo do Olimpismo é por sempre o desporto a serviço do 
desenvolvimento
| harmonioso do homem, com o fim de favorecer o estabelecimento de uma
| sociedade pacífica e comprometida com a manutenção da dignidade humana. 
Para
| esse fim, o Movimento Olímpico leva a cabo, autonomamente ou em cooperação
| com outros organismos e dentro das suas possibilidades, ações em favor da
| paz. (Princípio 3 da Carta Olímpica)
|
|
|
| [3] Constitui-se em violação a regra antidoping a presença de uma 
substância
| proibida, dos seus metabolitos ou marcadores, em uma amostra fornecida por
| um atleta. (Artigo 2° do Código Mundial Antidoping)
|
|
|
| [4] FINA Doping Panel - 9 December 2004 - Giorgia Squizzato/Italian 
Swimming
| Federation
|
| [5] CAS 96/149
|
|
|
| ----- Original Message ----- 
| From: "Ana Teresa Guazzelli Beltrami" <aninhabeltrami em hotmail.com>
| To: <cevdopagem em listas.cev.org.br>; <cevleis em listas.cev.org.br>
| Sent: Monday, September 18, 2006 2:17 PM
| Subject: [Cevdopagem] Dick Pound na Veja
|
|
| > Entrevista: Dick Pound
| > O doping será vencido
| >
| > Odiado por atletas e dirigentes, o presidente
| > da Agência Mundial Antidoping anuncia testes
| > contra a trapaça genética
| >
| > "Não se trata apenas de um atleta aqui e outro ali. Há equipes, médicos 
e
| > treinadores trabalhando juntos para enganar"
| >
| > Um dos homens mais odiados do esporte é o advogado canadense Richard
| > Pound, "Dick" para os amigos e inimigos. Esse ex-nadador de 64 anos é o
| > presidente da Agência Mundial Antidoping (AMA) desde que a entidade foi
| > criada, em 1999. Nessa condição, comprou briga com gente poderosa do
| > esporte, a quem acusa de falta de interesse em perseguir e punir atletas
| > que usam substâncias proibidas. Desentendeu-se, por exemplo, com Sepp
| > Blatter, presidente da Fifa, até que a entidade máxima do futebol se
| > curvou ao Código Mundial Antidoping. Há quem diga que Pound está
| > ultrapassado e defende uma causa inglória, pois o doping nunca pareceu 
tão
| > propagado. Para ficar apenas num exemplo recente, em agosto o velocista
| > americano Justin Gatlin perdeu o recorde dos 100 metros livres, que
| > igualara em maio, e foi suspenso por oito anos por uso de esteróides.
| > Nesta entrevista, Pound se define como um "idealista cínico" que sonha 
com
| > um esporte limpo como no tempo em que foi atleta olímpico. Nos Jogos
| > Olímpicos de Roma, em 1960, foi sexto colocado na final dos 100 metros
| > nado livre, em que o brasileiro Manoel dos Santos foi medalhista de
| > bronze. Como prova de seu otimismo, anuncia para breve um teste contra a
| > nova ameaça - o doping por manipulação genética.
| >
| > Veja - Casos de grandes atletas, como Justin Gatlin, provam que o doping
| > não pode ser vencido?
| > Dick Pound - Não. O doping é um grande problema, mas temos feito
| > progressos, como se pôde ver nas investigações recentes na Espanha, na
| > França e na Itália (em que a polícia desbaratou redes de fornecimento de
| > drogas a atletas). Não se trata apenas de um atleta aqui e outro ali
| > tomando substâncias proibidas. Há equipes, médicos e treinadores
| > trabalhando juntos para enganar. Para enfrentá-los é preciso uma
| > combinação de esforços: programas de teste reforçados e uso do poder
| > investigativo das autoridades públicas.
| >
| > Veja - Isso significa que a luta antidoping virou caso de polícia?
| > Dick Pound - Significa que é preciso lançar mão de todos os poderes
| > disponíveis. Sabemos quem são os atletas e onde eles estão. Sabemos mais
| > ou menos o que eles tomam e quem são seus treinadores. Mas não temos o
| > poder de fazer apreensões e intimar testemunhas.
| >
| > Veja - Treinadores e médicos também devem ser suspensos?
| > Dick Pound - As regras do esporte já prevêem isso. O difícil é obter
| > provas. Com atletas é fácil: se a prova e a contraprova dão positivo,
| > acabou. Mas com técnicos e médicos é mais complicado. Por isso
| > estabelecemos na agência um modelo que inclui a ajuda de autoridades
| > públicas.
| >
| > Veja - Em centenas de testes na última Volta da França de ciclismo houve
| > apenas um caso positivo, o do campeão, o americano Floyd Landis. O 
senhor
| > acha que ele foi o único a se dopar?
| > Dick Pound - Tenho certeza de que não.
| >
| > Veja - Como o senhor explica, então, só uma descoberta?
| > Dick Pound - Sempre tivemos dificuldades com os procedimentos da União
| > Ciclística Internacional (UCI). Ao ser chamado para o teste, o atleta 
tem
| > até uma hora para se apresentar à sala de exame. Nesse lapso de tempo,
| > fica sem nenhuma escolta. É tempo demais para quem quer manipular o 
teste,
| > tomando substâncias mascarantes, por exemplo.
| >
| > Veja - O que o senhor acha das desculpas que atletas como Landis e 
Justin
| > Gatlin dão para seus casos?
| > Dick Pound - Precisamos ouvi-las, mas não precisamos acreditar nelas.
| > Landis deu cinco ou seis explicações diferentes entre a prova e a
| > contraprova. Primeiro, que era testosterona natural. Segundo, que foram
| > umas cervejas. Terceiro, que foi uísque. Quarto, que foi excesso de
| > exercício. E assim por diante. Ele terá, na apelação, oportunidade de
| > apresentar desculpas e veremos se os juízes vão aceitá-las. Algo me diz
| > que não.
| >
| > Veja - Landis alegou que foi testado oito vezes antes e todos os
| > resultados foram negativos. Como isso é possível?
| > Dick Pound - O nível de testosterona estava dez vezes acima do normal. 
Se
| > essa fosse a condição normal do atleta, teria aparecido em testes
| > anteriores. E isso nunca aconteceu, ponto final. O resultado positivo
| > aconteceu no dia seguinte a uma etapa desastrosa, em que ele perdeu algo
| > como oito minutos. Foi um dia de um esforço heróico, em que ele reduziu 
a
| > diferença a menos de 30 segundos. Um desempenho fantástico, justamente 
no
| > dia em que se achou a testosterona. Diante dos fatos não há desculpas.
| >
| > Veja - Por que o senhor acusa a União Ciclística Internacional de não
| > enfrentar o problema?
| > Dick Pound - É uma evidência. Quando se vê que a organização da Volta da
| > França deste ano teve de excluir o segundo, o terceiro, o quarto, o 
quinto
| > e o sexto colocados de 2005 e que a prova e a contraprova do vencedor
| > deram positivo, é sinal de que o problema está fora de controle e que a
| > UCI foi incapaz de agir.
| >
| > Veja - Por quê? Medo de prejudicar o próprio negócio?
| > Dick Pound - Imagino que essa seja uma possibilidade. Para mim, é muito
| > estranho que uma organização de grande importância e abrangência como a
| > UCI não consiga encontrar nenhum atleta dopado em seus testes.
| >
| > Veja - O senhor também acusou a Fifa de não fazer o suficiente contra o
| > doping. Que esportes estão atrasados nesse aspecto?
| > Dick Pound - O caso com a Fifa foi que, embora tenha adotado o Código
| > Mundial Antidoping, ela não mudou suas regras internas. Continuamos
| > pressionando por mudanças porque a Fifa representa o esporte mais 
popular
| > do planeta, que tem doping como qualquer outro. O atletismo, o
| > halterofilismo e a natação também têm problemas. Nenhum esporte tem 
doping
| > zero.
| >
| > Veja - Atletas acusados têm contratado advogados caros e agressivos - 
que
| > contestam o procedimento dos exames. Isso ameaça a luta antidoping?
| > Dick Pound - Não. Se os atletas quiserem gastar o dinheiro deles com
| > advogados caros, ainda assim vão acabar perdendo. Esse foi o caso de 
Tyler
| > Hamilton (ciclista americano suspenso quando um teste detectou sangue de
| > outra pessoa em sua amostra) e de Tim Montgomery (americano que teve
| > cassado o recorde mundial dos 100 metros rasos). Provavelmente Floyd
| > Landis vai pagar muito por um advogado. Seu teste também demonstrou que 
a
| > testosterona, além de elevada, não era de origem natural. Chega uma hora
| > em que, por melhor que seja o advogado, não se pode fugir das 
evidências.
| >
| > Veja - No ano passado revelou-se que amostras da urina de Lance 
Armstrong,
| > colhidas em 1999, tinham a proibida eritropoietina (EPO). Por que ele 
não
| > foi punido?
| > Dick Pound - Tudo o que posso dizer é que o caso não foi totalmente
| > explorado. O laboratório francês tinha amostras congeladas de 1998 e 
1999.
| > Elas foram analisadas anonimamente, para fins de pesquisa, e quinze 
deram
| > positivo para EPO, substância que não podia ser detectada em 1999.
| > Repórteres do jornal L'Équipe obtiveram - não sei como - cópias dos 
testes
| > de Armstrong na época, cruzaram números e publicaram a manchete
| > "Armstrong, a fraude". Dissemos à UCI que, se as regras da entidade
| > permitissem uma desclassificação com base nisso, eles deveriam assumir
| > suas responsabilidades e tomar uma decisão. Tudo o que fizeram foi
| > protestar pelo vazamento das informações.
| >
| > Veja - O senhor foi acusado de responsabilidade por esse vazamento.
| > Dick Pound - A AMA foi criada em 1999 e não poderia ter os formulários 
dos
| > testes de Armstrong daquela época.
| >
| > Veja - Um relatório de um especialista contratado pela UCI inocentou
| > Armstrong.
| > Dick Pound - É claro que o relatório foi tendencioso. E não o inocentou 
de
| > verdade. Disse apenas que havia a possibilidade de manipulação errada no
| > laboratório francês. Mas se trata de um dos melhores laboratórios do
| > mundo. Eles são muito cuidadosos. Se disseram que havia EPO nessas
| > amostras, é porque havia mesmo.
| >
| > Veja - É difícil confrontar atletas que são ídolos em seus países, como
| > Armstrong, que o chamou de "antiético"?
| > Dick Pound - Essa é uma das razões pelas quais criamos uma agência
| > internacional e independente. Depois do caso Festina (em que a equipe 
foi
| > pega no maior escândalo de doping da história do ciclismo, em 1998),
| > ninguém confiava mais na UCI. Depois que Juan Antonio Samaranch (então
| > presidente do Comitê Olímpico Internacional) deu uma famosa declaração
| > (minimizando o caso Festina), ninguém confiava mais no COI. E nenhum 
país
| > confiava no outro para punir seus próprios atletas. Então concluímos que 
a
| > única solução era criar uma agência absolutamente independente.
| >
| > Veja - O jornal inglês Financial Times defendeu a liberação do doping. O
| > que o senhor responde a essa proposta?
| > Dick Pound - Acho que é a procura de uma solução fácil para um problema
| > complicado. Deve-se ter em mente que as pessoas não se dopam para ficar
| > iguais às outras, e sim para obter vantagem. Se todo mundo estiver 
tomando
| > 10 gramas de estanozolol (um esteróide proibido), que tal se eu tomar 
20,
| > 30 ou 40 gramas? Embarca-se em um círculo vicioso. Além disso, não se 
pode
| > limitar a questão a uns poucos atletas de nível mundial, porque a 
mensagem
| > resultante - para tornar-se um grande esportista, você tem de fazer 
isso -
| > chegaria aos jovens no ensino médio. De repente, haveria 2 milhões ou 3
| > milhões de jovens tomando drogas e se teria um problema de saúde 
pública,
| > mais que qualquer outra coisa.
| >
| > Veja - Sua agência tem feito algo contra o doping genético?
| > Dick Pound - O doping genético é uma possibilidade concreta.
| > Provavelmente, dentro de poucos anos ele será usado. Mas a diferença em
| > relação ao doping tradicional, se é que posso chamá-lo assim, é que a
| > agência não está esperando que ele se torne problema antes de procurar 
uma
| > solução. Da década de 1960 à de 1990, o movimento esportivo deixou o
| > doping tradicional fugir do controle. Agora, começamos quatro anos atrás 
a
| > nos encontrar com os principais geneticistas do mundo. Acho que teremos 
um
| > teste simples disponível na época em que começarem a usar o doping
| > genético. Chegaremos na frente.
| >
| > Veja - Isso já acontecerá nos Jogos de Pequim, em 2008?
| > Dick Pound - Talvez seja um pouco cedo demais, mas quem sabe? Estamos
| > financiando e encorajando pesquisas e trabalhando ao máximo para 
produzir
| > um teste não invasivo que possa determinar a diferença entre genes
| > originais e alterados.
| >
| > Veja - O senhor pode dar mais detalhes? Haveria um banco de DNA de
| > atletas? O teste seria com amostras da saliva?
| > Dick Pound - Não posso dar esse tipo de detalhe. Sou apenas um advogado
| > tributarista, não entendo muita coisa a respeito dos detalhes 
científicos.
| > Mas sei que será algo simples.
| >
| > Veja - Dias antes das Olimpíadas de Atenas, em 2004, o senhor anunciou 
um
| > teste para detectar hormônio de crescimento humano, o que teria feito
| > muitos atletas desistir de competir. A ameaça pode dissuadir 
trapaceiros?
| > Dick Pound - Nós realmente dispúnhamos de um teste para HGH. Foi assim 
que
| > Tyler Hamilton foi pego no ciclismo. Mas infelizmente houve um erro de
| > manipulação da contraprova no laboratório e ele não perdeu a medalha de
| > ouro. Depois não pudemos fazer mais testes, e não basta fazê-los apenas 
na
| > época das grandes competições. É preciso ir aos treinamentos, sem aviso
| > prévio, mas não temos anticorpos de HGH suficientes. Trabalhamos com a
| > indústria farmacêutica para produzir a quantidade adequada a um número
| > maior de testes.
| >
| > Veja - Havia doping no seu tempo de atleta?
| > Dick Pound - Não. Isso começou com os levantadores de peso e os
| > arremessadores de peso, disco e martelo no fim dos anos 1960. Até 1968 
não
| > havia sequer exames antidoping nos Jogos Olímpicos. Na natação, o máximo
| > que fazíamos para obter vantagem sobre os adversários era depilar as
| > pernas.
| >
| > Veja - A revista inglesa The Economist chamou-o de "idealista nos moldes
| > vitorianos". Sua luta não é utópica?
| > Dick Pound - Estão me chamando de velho? Gosto de pensar em mim mesmo 
como
| > um idealista cínico. Sei como o esporte deveria ser, mas sou cínico o
| > bastante para saber que há pessoas que farão qualquer coisa para vencer.
| > Acho que isso destrói o esporte e é injusto com os outros competidores.
| >
| > Veja - Quais os maiores desafios da luta antidoping?
| > Dick Pound - O primeiro é que muitas federações internacionais parecem 
não
| > insistir para que os países afiliados tenham programas antidoping
| > efetivos. O segundo é que levará muito tempo até que o público 
compreenda
| > os perigos éticos e físicos do doping. A Interpol dispõe de uma
| > estatística segundo a qual o mercado das substâncias dopantes, como os
| > anabolizantes, é maior que o tráfico de maconha, o de cocaína e o de
| > heroína combinados.
| >
| > Veja - Isso não prova que tentar detê-lo é uma utopia?
| > Dick Pound - Não. O problema é que as autoridades sempre se concentraram
| > nas chamadas drogas recreativas, como a maconha. Vai levar tempo para
| > pensarem nos esteróides e começarem a processar quem compra, tem ou 
vende
| > substâncias do gênero. Por outro lado, é verdade que a entrada do crime
| > organizado nesse mercado só complica as coisas.
| >
| > Veja - O senhor presidiu o comitê que investigou a atribuição dos Jogos
| > Olímpicos de Inverno de 2002 a Salt Lake City, quando membros do COI
| > receberam presentes em troca de votos. O doping não seria apenas um
| > aspecto da corrupção generalizada no esporte?
| > Dick Pound - O caso de Salt Lake City chegou perto, mas não chegou a ser
| > de corrupção. Foi de comportamento antiético. Ele mostrou que existe um
| > problema. Mas, assim como um alcoólatra só consegue lidar com o problema 
a
| > partir do momento em que o admite, será impossível encontrar uma solução
| > enquanto o esporte não fizer o mesmo.
| >
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