[Cevdopagem] Dick Pound na Veja

Luciano Hostins lhostins em uol.com.br
Sexta Setembro 22 11:58:12 BRT 2006


Na entrevista do Senhor Richard Pound nas "Páginas Amarelas" de Veja (Edição 
n.º 1974, de 20 de setembro de 2006), pode-se colher a atual realidade que 
cerca o doping quanto ao seu aspecto jurídico.



Como Advogado militante na área esportiva há dez anos e, há seis atuando em 
casos envolvendo doping, diferente de muitos Advogados, pouco atuo no 
futebol, limitando a minha área às demais modalidades. E foi neste vasto 
universo de modalidades além do futebol, e que por fraqueza se curvaram à 
Agência Mundial Antidoping, presidida pelo Senhor Richard Pound, que pude 
constatar os verdadeiros absurdos jurídicos que são cometidos em prol do 
ideal - que igualmente defendo - de ver o esporte livre das drogas. Porém, 
tal ideal não pode jogar por terra preceitos universais que estão estampados 
na Declaração Universal dos Direitos da Pessoa Humana[1] e são recepcionados 
pela Carta Olímpica[2].



Na verdade o sistema antidoping da Agência Mundial impõe às Federações 
Internacionais que adotem os princípios do Código Mundial Antidoping. Um 
único elemento deste Código merece todas as críticas. Aquilo que é chamado 
de "strict liability", ou, em bom Português, "responsabilidade estrita"[3]. 
Diante deste preceito, tudo aquilo que é encontrado nos fluídos corpóreos do 
atleta, e que consta da lista proibida da Agência Mundial, é considerado 
doping. Portanto, basta a presença da substância para estar caracterizado 
doping. Neste sentido, tem razão ao Entrevistado ao dizer que "se os atletas 
quiserem gastar o dinheiro deles com advogados caros, ainda assim vão acabar 
perdendo." Tem razão em parte, pois houve casos de absolvição de atletas, 
graças ao trabalho de bons e bem pagos Advogados. Além do mais, esta é uma 
estratégia antiga utilizada por qualquer regime totalitário: calar a 
justiça.



Mas os casos falam por si. A Atleta Maurren Higa Maggi foi absolvida da 
acusação de doping no Brasil. Mais recentemente o Atleta Sebastião Ferreira 
Da Guia Neto foi absolvido em duas instâncias da acusação de doping no 
Brasil. Na Itália, a Atleta Giorgia Squizzato[4], teve sua pena reduzida 
pela metade, dentre tantos outros casos. É claro que não é fácil defender um 
atleta cuja única prova considerada é aquela que acusa a presença da 
substância em seus fluídos corpóreos.



O velho ditado de que "a corda sempre arrebenta do lado mais fraco" nunca 
coube tão bem. O próprio entrevistado confirma isso ao dizer, quando 
questionado sobre a punição de treinadores e médicos, que "as regras do 
esporte já prevêem isso. O difícil é obter provas. Com atletas é fácil: se a 
prova e a contraprova dão positivo, acabou." Mas o que se vê é que mesmo com 
provas irrefutáveis, as Entidades Internacionais estão voltadas somente à 
responsabilidade do atleta e não sabem o que fazer quando há provas contra 
treinadores e médicos. O caso da Atleta Julyana Bassi Kury, nadadora 
brasileira atesta isto. A atleta testou positivo para a substância 
"stanozolol". Segundo as regras da FINA (que seguem a orientação do Código 
Mundial), se o atleta denunciar e provar quem ministrou a substância 
detectada terá a sua pena reduzida pela metade. Esta regra é tão clara 
quanto a regra do "strict liability". A Atleta Julyana apresentou à CBDA, 
que remeteu à FINA, a receita médica em que lhe foi ministrada a substância 
vedada. A FINA disse que isto era irrelevante. A atleta não teve o benefício 
previsto na regra. O médico que agiu desta forma, após sindicância no 
Conselho Regional de Medicina de São Paulo, teve instaurado contra si 
processo ético-disciplinar. Este caso denota uma outra verdade, investe-se 
tão somente na punição e não na prevenção. A Atleta Julyana, então com 
dezessete anos de idade, achava que estava tomando "suplementos". Só 
descobriu que o que tomava era considerado doping quando recebeu e leu a 
cartilha do COB às vésperas dos Jogos Olímpicos de Atenas. Já era tarde.



Mas voltando à questão dos Advogados, diz o Senhor Pound que "chega uma hora 
em que, por melhor que seja o advogado, não se pode fugir das evidências." 
Ocorre que o sistema baseado no "strict liability" não comporta evidências 
em contrário, pois o resultado do exame é absoluto. É o confronto das 
evidências da acusação e das da defesa que levam a se fazer justiça, 
condenando, absolvendo ou mitigando a pena. Vale como exemplo o caso da 
Atleta Marizete Resende, cujo exame indicou a presença da substância EPO 
(Eritropoetina Recombinante). No analítico do exame desta substância há um 
gráfico onde existem duas curvas, uma da "Eritropoetina Recombinante", que é 
a artificial, e outra da "Eritropoetina Natural", que é produzida 
naturalmente pelo organismo. Quando uma pessoa toma a "Eritropoetina 
Recombinante" sistematicamente, a "Eritropoetina Natural" tem sua fabricação 
pelo organismo praticamente anulada. Assim, um Atleta que utiliza 
sistematicamente a "Eritropoetina Recombinante", terá no gráfico de seu 
exame uma curva alta desta substância e uma curva baixa indicando a 
"Eritropoetina Natural". No exame da Atleta Marizete, as duas curvas 
caminhavam juntas até o pico, provando que a Atleta não era usuária contumaz 
da substância. Ou seja, o mesmo laudo que provou que a Atleta usou 
efetivamente a "Eritropoetina Recombinante", não serviu para provar que este 
uso não se deu de forma sistemática, o que poderia servir para uma redução 
da pena da Atleta. Ou seja, pelo sistema inquisitório adotado pela Agência 
Mundial, a evidência que serve para condenar, não serve para atenuar ou 
absolver.



O Senhor Pound ainda responde à questão sobre a proposta do jornal Financial 
Times para a liberação do doping dizendo que "é a procura de uma solução 
fácil para um problema complicado." Ora, solução fácil é basear-se tão 
somente numa única prova para condenar um atleta, o que pode chegar até 
mesmo ao seu banimento do esporte. O caso da Atleta Maurren Maggi bem 
ilustra isto. A Atleta teve em 2003 resultado adverso para a substância 
"Clostebol". Conforme todas as provas carreadas, ficou evidenciado que a 
substância adentrou em seus fluídos pela aplicação de uma pomada (Novaderm), 
por uma médica que lhe aplicara um procedimento de depilação à laser. Muito 
embora absolvida no Brasil, a Atleta não teve sua absolvição reconhecida 
pela IAAF. Procedimentos falhos podem ocorrer. A Agência Mundial, e os 
laboratórios, muito embora assim se coloquem, não são infalíveis. O próprio 
Entrevistado reconhece isso ao mencionar o caso do Atleta Tyler Hamilton 
dizendo que "houve um erro de manipulação da contraprova no laboratório e 
ele não perdeu a medalha de ouro." Ou seja, a incapacidade de conter e 
prevenir o doping faz com que seja desrespeitado dos mais preciosos valores 
da vida, o direito à defesa.



Outra afirmação do Entrevistado que chama a atenção de que "deve-se ter em 
mente que as pessoas não se dopam para ficar iguais às outras, e sim para 
obter vantagem." Sem dúvida este é o princípio do doping. Mas não é regra, e 
aí é que entra o trabalho do Advogado, desprezado pelo entrevistado. Já 
houve entendimento de que a utilização de uma determinada substância pode se 
dar para elevar o nível de um Atleta ao de seus adversários quando sua saúde 
assim o exige. É nesses casos que se utiliza, por exemplo a Exceção de Uso 
Terapêutico, TUE, como é mais conhecido na sigla inglesa. A própria Corte de 
Arbitragem para o Esporte (CAS), assim se manifestou: "O apelante, conforme 
provado, usou Ventolin por necessidade médica, e com a finalidade de 
habilita-lo para praticar esporte, inclusive o pólo aquático. Removeu um 
obstáculo, em lugar de fornecer uma escada. Nivelou a competição, e não 
utilizou isto em seu favor."[5] Neste caso o Atleta não obteve sua 
absolvição naquela Corte, uma vez que teria como alternativa a TUE. Porém o 
entendimento da CAS lança luzes para futuras discussões. Aliás, esta 
discussão deve ser travada no âmbito dos Tribunais Desportivos, através de 
teses patrocinadas por Advogados. Advogados Desportivos, e não 
Tributaristas.



Enfim, a luta contra o doping deve ser travada, não resta dúvida, mas esta 
luta não pode colocar de lado os preceitos universais e olímpicos já 
mencionados, sob pena de o esporte se equiparar a uma ditadura qualquer, a 
um regime inquisitório que esgota a si próprio.



Luciano Hostins

Advogado Desportivo



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[1] A PRESENTE DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS DO HOMEM como o ideal comum 
a ser atingido por todos os povos e todas as nações, com o objetivo de que 
cada indivíduo e cada órgão da sociedade, tendo sempre em mente esta 
Declaração, se esforce, através do ensino e da educação, por promover o 
respeito a esses direitos e liberdades, e, pela adoção de medidas 
progressivas de caráter nacional e internacional, por assegurar o seu 
reconhecimento e a sua observância universais e efetivos, tanto entre os 
povos dos próprios Estados Membros, quanto entre os povos dos territórios 
sob sua jurisdição. (Enunciado da Declaração Universal dos Direitos do 
Homem)



Considerando que o reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros 
da família humana e de seus direitos iguais e inalienáveis é o fundamento da 
liberdade, da justiça e da paz no mundo (Primeiro Considerando da Declaração 
Universal dos Direitos do Homem)



Todo homem tem direito, em plena igualdade, a uma justa e pública audiência 
por parte de um tribunal independente e imparcial, para decidir de seus 
direitos e deveres ou do fundamento de qualquer acusação criminal contra 
ele. (Artigo X da Declaração Universal dos Direitos do Homem)



Todo homem acusado de um ato delituoso tem o direito de ser presumido 
inocente até que a sua culpabilidade tenha sido provada de acordo com a lei, 
em julgamento público no qual lhe tenham sido asseguradas todas as garantias 
necessárias à sua defesa. (Artigo XI.1 da  Declaração Universal dos Direitos 
do Homem)



[2] O Olimpismo é uma filosofia de vida que exalta e combina num conjunto 
harmonioso as qualidades do corpo, a vontade e o espírito. Aliando o 
desporto com a cultura e a educação, o Olimpismo propõem-se criar um estilo 
de vida baseado na alegria do esforço, no valor educativo do bom exemplo e 
respeito pelos princípios éticos fundamentais universais. (Princípio 2 da 
Carta Olímpica)



O objetivo do Olimpismo é por sempre o desporto a serviço do desenvolvimento 
harmonioso do homem, com o fim de favorecer o estabelecimento de uma 
sociedade pacífica e comprometida com a manutenção da dignidade humana. Para 
esse fim, o Movimento Olímpico leva a cabo, autonomamente ou em cooperação 
com outros organismos e dentro das suas possibilidades, ações em favor da 
paz. (Princípio 3 da Carta Olímpica)



[3] Constitui-se em violação a regra antidoping a presença de uma substância 
proibida, dos seus metabolitos ou marcadores, em uma amostra fornecida por 
um atleta. (Artigo 2° do Código Mundial Antidoping)



[4] FINA Doping Panel - 9 December 2004 - Giorgia Squizzato/Italian Swimming 
Federation

[5] CAS 96/149



----- Original Message ----- 
From: "Ana Teresa Guazzelli Beltrami" <aninhabeltrami em hotmail.com>
To: <cevdopagem em listas.cev.org.br>; <cevleis em listas.cev.org.br>
Sent: Monday, September 18, 2006 2:17 PM
Subject: [Cevdopagem] Dick Pound na Veja


> Entrevista: Dick Pound
> O doping será vencido
>
> Odiado por atletas e dirigentes, o presidente
> da Agência Mundial Antidoping anuncia testes
> contra a trapaça genética
>
> "Não se trata apenas de um atleta aqui e outro ali. Há equipes, médicos e 
> treinadores trabalhando juntos para enganar"
>
> Um dos homens mais odiados do esporte é o advogado canadense Richard 
> Pound, "Dick" para os amigos e inimigos. Esse ex-nadador de 64 anos é o 
> presidente da Agência Mundial Antidoping (AMA) desde que a entidade foi 
> criada, em 1999. Nessa condição, comprou briga com gente poderosa do 
> esporte, a quem acusa de falta de interesse em perseguir e punir atletas 
> que usam substâncias proibidas. Desentendeu-se, por exemplo, com Sepp 
> Blatter, presidente da Fifa, até que a entidade máxima do futebol se 
> curvou ao Código Mundial Antidoping. Há quem diga que Pound está 
> ultrapassado e defende uma causa inglória, pois o doping nunca pareceu tão 
> propagado. Para ficar apenas num exemplo recente, em agosto o velocista 
> americano Justin Gatlin perdeu o recorde dos 100 metros livres, que 
> igualara em maio, e foi suspenso por oito anos por uso de esteróides. 
> Nesta entrevista, Pound se define como um "idealista cínico" que sonha com 
> um esporte limpo como no tempo em que foi atleta olímpico. Nos Jogos 
> Olímpicos de Roma, em 1960, foi sexto colocado na final dos 100 metros 
> nado livre, em que o brasileiro Manoel dos Santos foi medalhista de 
> bronze. Como prova de seu otimismo, anuncia para breve um teste contra a 
> nova ameaça - o doping por manipulação genética.
>
> Veja - Casos de grandes atletas, como Justin Gatlin, provam que o doping 
> não pode ser vencido?
> Dick Pound - Não. O doping é um grande problema, mas temos feito 
> progressos, como se pôde ver nas investigações recentes na Espanha, na 
> França e na Itália (em que a polícia desbaratou redes de fornecimento de 
> drogas a atletas). Não se trata apenas de um atleta aqui e outro ali 
> tomando substâncias proibidas. Há equipes, médicos e treinadores 
> trabalhando juntos para enganar. Para enfrentá-los é preciso uma 
> combinação de esforços: programas de teste reforçados e uso do poder 
> investigativo das autoridades públicas.
>
> Veja - Isso significa que a luta antidoping virou caso de polícia?
> Dick Pound - Significa que é preciso lançar mão de todos os poderes 
> disponíveis. Sabemos quem são os atletas e onde eles estão. Sabemos mais 
> ou menos o que eles tomam e quem são seus treinadores. Mas não temos o 
> poder de fazer apreensões e intimar testemunhas.
>
> Veja - Treinadores e médicos também devem ser suspensos?
> Dick Pound - As regras do esporte já prevêem isso. O difícil é obter 
> provas. Com atletas é fácil: se a prova e a contraprova dão positivo, 
> acabou. Mas com técnicos e médicos é mais complicado. Por isso 
> estabelecemos na agência um modelo que inclui a ajuda de autoridades 
> públicas.
>
> Veja - Em centenas de testes na última Volta da França de ciclismo houve 
> apenas um caso positivo, o do campeão, o americano Floyd Landis. O senhor 
> acha que ele foi o único a se dopar?
> Dick Pound - Tenho certeza de que não.
>
> Veja - Como o senhor explica, então, só uma descoberta?
> Dick Pound - Sempre tivemos dificuldades com os procedimentos da União 
> Ciclística Internacional (UCI). Ao ser chamado para o teste, o atleta tem 
> até uma hora para se apresentar à sala de exame. Nesse lapso de tempo, 
> fica sem nenhuma escolta. É tempo demais para quem quer manipular o teste, 
> tomando substâncias mascarantes, por exemplo.
>
> Veja - O que o senhor acha das desculpas que atletas como Landis e Justin 
> Gatlin dão para seus casos?
> Dick Pound - Precisamos ouvi-las, mas não precisamos acreditar nelas. 
> Landis deu cinco ou seis explicações diferentes entre a prova e a 
> contraprova. Primeiro, que era testosterona natural. Segundo, que foram 
> umas cervejas. Terceiro, que foi uísque. Quarto, que foi excesso de 
> exercício. E assim por diante. Ele terá, na apelação, oportunidade de 
> apresentar desculpas e veremos se os juízes vão aceitá-las. Algo me diz 
> que não.
>
> Veja - Landis alegou que foi testado oito vezes antes e todos os 
> resultados foram negativos. Como isso é possível?
> Dick Pound - O nível de testosterona estava dez vezes acima do normal. Se 
> essa fosse a condição normal do atleta, teria aparecido em testes 
> anteriores. E isso nunca aconteceu, ponto final. O resultado positivo 
> aconteceu no dia seguinte a uma etapa desastrosa, em que ele perdeu algo 
> como oito minutos. Foi um dia de um esforço heróico, em que ele reduziu a 
> diferença a menos de 30 segundos. Um desempenho fantástico, justamente no 
> dia em que se achou a testosterona. Diante dos fatos não há desculpas.
>
> Veja - Por que o senhor acusa a União Ciclística Internacional de não 
> enfrentar o problema?
> Dick Pound - É uma evidência. Quando se vê que a organização da Volta da 
> França deste ano teve de excluir o segundo, o terceiro, o quarto, o quinto 
> e o sexto colocados de 2005 e que a prova e a contraprova do vencedor 
> deram positivo, é sinal de que o problema está fora de controle e que a 
> UCI foi incapaz de agir.
>
> Veja - Por quê? Medo de prejudicar o próprio negócio?
> Dick Pound - Imagino que essa seja uma possibilidade. Para mim, é muito 
> estranho que uma organização de grande importância e abrangência como a 
> UCI não consiga encontrar nenhum atleta dopado em seus testes.
>
> Veja - O senhor também acusou a Fifa de não fazer o suficiente contra o 
> doping. Que esportes estão atrasados nesse aspecto?
> Dick Pound - O caso com a Fifa foi que, embora tenha adotado o Código 
> Mundial Antidoping, ela não mudou suas regras internas. Continuamos 
> pressionando por mudanças porque a Fifa representa o esporte mais popular 
> do planeta, que tem doping como qualquer outro. O atletismo, o 
> halterofilismo e a natação também têm problemas. Nenhum esporte tem doping 
> zero.
>
> Veja - Atletas acusados têm contratado advogados caros e agressivos - que 
> contestam o procedimento dos exames. Isso ameaça a luta antidoping?
> Dick Pound - Não. Se os atletas quiserem gastar o dinheiro deles com 
> advogados caros, ainda assim vão acabar perdendo. Esse foi o caso de Tyler 
> Hamilton (ciclista americano suspenso quando um teste detectou sangue de 
> outra pessoa em sua amostra) e de Tim Montgomery (americano que teve 
> cassado o recorde mundial dos 100 metros rasos). Provavelmente Floyd 
> Landis vai pagar muito por um advogado. Seu teste também demonstrou que a 
> testosterona, além de elevada, não era de origem natural. Chega uma hora 
> em que, por melhor que seja o advogado, não se pode fugir das evidências.
>
> Veja - No ano passado revelou-se que amostras da urina de Lance Armstrong, 
> colhidas em 1999, tinham a proibida eritropoietina (EPO). Por que ele não 
> foi punido?
> Dick Pound - Tudo o que posso dizer é que o caso não foi totalmente 
> explorado. O laboratório francês tinha amostras congeladas de 1998 e 1999. 
> Elas foram analisadas anonimamente, para fins de pesquisa, e quinze deram 
> positivo para EPO, substância que não podia ser detectada em 1999. 
> Repórteres do jornal L'Équipe obtiveram - não sei como - cópias dos testes 
> de Armstrong na época, cruzaram números e publicaram a manchete 
> "Armstrong, a fraude". Dissemos à UCI que, se as regras da entidade 
> permitissem uma desclassificação com base nisso, eles deveriam assumir 
> suas responsabilidades e tomar uma decisão. Tudo o que fizeram foi 
> protestar pelo vazamento das informações.
>
> Veja - O senhor foi acusado de responsabilidade por esse vazamento.
> Dick Pound - A AMA foi criada em 1999 e não poderia ter os formulários dos 
> testes de Armstrong daquela época.
>
> Veja - Um relatório de um especialista contratado pela UCI inocentou 
> Armstrong.
> Dick Pound - É claro que o relatório foi tendencioso. E não o inocentou de 
> verdade. Disse apenas que havia a possibilidade de manipulação errada no 
> laboratório francês. Mas se trata de um dos melhores laboratórios do 
> mundo. Eles são muito cuidadosos. Se disseram que havia EPO nessas 
> amostras, é porque havia mesmo.
>
> Veja - É difícil confrontar atletas que são ídolos em seus países, como 
> Armstrong, que o chamou de "antiético"?
> Dick Pound - Essa é uma das razões pelas quais criamos uma agência 
> internacional e independente. Depois do caso Festina (em que a equipe foi 
> pega no maior escândalo de doping da história do ciclismo, em 1998), 
> ninguém confiava mais na UCI. Depois que Juan Antonio Samaranch (então 
> presidente do Comitê Olímpico Internacional) deu uma famosa declaração 
> (minimizando o caso Festina), ninguém confiava mais no COI. E nenhum país 
> confiava no outro para punir seus próprios atletas. Então concluímos que a 
> única solução era criar uma agência absolutamente independente.
>
> Veja - O jornal inglês Financial Times defendeu a liberação do doping. O 
> que o senhor responde a essa proposta?
> Dick Pound - Acho que é a procura de uma solução fácil para um problema 
> complicado. Deve-se ter em mente que as pessoas não se dopam para ficar 
> iguais às outras, e sim para obter vantagem. Se todo mundo estiver tomando 
> 10 gramas de estanozolol (um esteróide proibido), que tal se eu tomar 20, 
> 30 ou 40 gramas? Embarca-se em um círculo vicioso. Além disso, não se pode 
> limitar a questão a uns poucos atletas de nível mundial, porque a mensagem 
> resultante - para tornar-se um grande esportista, você tem de fazer isso - 
> chegaria aos jovens no ensino médio. De repente, haveria 2 milhões ou 3 
> milhões de jovens tomando drogas e se teria um problema de saúde pública, 
> mais que qualquer outra coisa.
>
> Veja - Sua agência tem feito algo contra o doping genético?
> Dick Pound - O doping genético é uma possibilidade concreta. 
> Provavelmente, dentro de poucos anos ele será usado. Mas a diferença em 
> relação ao doping tradicional, se é que posso chamá-lo assim, é que a 
> agência não está esperando que ele se torne problema antes de procurar uma 
> solução. Da década de 1960 à de 1990, o movimento esportivo deixou o 
> doping tradicional fugir do controle. Agora, começamos quatro anos atrás a 
> nos encontrar com os principais geneticistas do mundo. Acho que teremos um 
> teste simples disponível na época em que começarem a usar o doping 
> genético. Chegaremos na frente.
>
> Veja - Isso já acontecerá nos Jogos de Pequim, em 2008?
> Dick Pound - Talvez seja um pouco cedo demais, mas quem sabe? Estamos 
> financiando e encorajando pesquisas e trabalhando ao máximo para produzir 
> um teste não invasivo que possa determinar a diferença entre genes 
> originais e alterados.
>
> Veja - O senhor pode dar mais detalhes? Haveria um banco de DNA de 
> atletas? O teste seria com amostras da saliva?
> Dick Pound - Não posso dar esse tipo de detalhe. Sou apenas um advogado 
> tributarista, não entendo muita coisa a respeito dos detalhes científicos. 
> Mas sei que será algo simples.
>
> Veja - Dias antes das Olimpíadas de Atenas, em 2004, o senhor anunciou um 
> teste para detectar hormônio de crescimento humano, o que teria feito 
> muitos atletas desistir de competir. A ameaça pode dissuadir trapaceiros?
> Dick Pound - Nós realmente dispúnhamos de um teste para HGH. Foi assim que 
> Tyler Hamilton foi pego no ciclismo. Mas infelizmente houve um erro de 
> manipulação da contraprova no laboratório e ele não perdeu a medalha de 
> ouro. Depois não pudemos fazer mais testes, e não basta fazê-los apenas na 
> época das grandes competições. É preciso ir aos treinamentos, sem aviso 
> prévio, mas não temos anticorpos de HGH suficientes. Trabalhamos com a 
> indústria farmacêutica para produzir a quantidade adequada a um número 
> maior de testes.
>
> Veja - Havia doping no seu tempo de atleta?
> Dick Pound - Não. Isso começou com os levantadores de peso e os 
> arremessadores de peso, disco e martelo no fim dos anos 1960. Até 1968 não 
> havia sequer exames antidoping nos Jogos Olímpicos. Na natação, o máximo 
> que fazíamos para obter vantagem sobre os adversários era depilar as 
> pernas.
>
> Veja - A revista inglesa The Economist chamou-o de "idealista nos moldes 
> vitorianos". Sua luta não é utópica?
> Dick Pound - Estão me chamando de velho? Gosto de pensar em mim mesmo como 
> um idealista cínico. Sei como o esporte deveria ser, mas sou cínico o 
> bastante para saber que há pessoas que farão qualquer coisa para vencer. 
> Acho que isso destrói o esporte e é injusto com os outros competidores.
>
> Veja - Quais os maiores desafios da luta antidoping?
> Dick Pound - O primeiro é que muitas federações internacionais parecem não 
> insistir para que os países afiliados tenham programas antidoping 
> efetivos. O segundo é que levará muito tempo até que o público compreenda 
> os perigos éticos e físicos do doping. A Interpol dispõe de uma 
> estatística segundo a qual o mercado das substâncias dopantes, como os 
> anabolizantes, é maior que o tráfico de maconha, o de cocaína e o de 
> heroína combinados.
>
> Veja - Isso não prova que tentar detê-lo é uma utopia?
> Dick Pound - Não. O problema é que as autoridades sempre se concentraram 
> nas chamadas drogas recreativas, como a maconha. Vai levar tempo para 
> pensarem nos esteróides e começarem a processar quem compra, tem ou vende 
> substâncias do gênero. Por outro lado, é verdade que a entrada do crime 
> organizado nesse mercado só complica as coisas.
>
> Veja - O senhor presidiu o comitê que investigou a atribuição dos Jogos 
> Olímpicos de Inverno de 2002 a Salt Lake City, quando membros do COI 
> receberam presentes em troca de votos. O doping não seria apenas um 
> aspecto da corrupção generalizada no esporte?
> Dick Pound - O caso de Salt Lake City chegou perto, mas não chegou a ser 
> de corrupção. Foi de comportamento antiético. Ele mostrou que existe um 
> problema. Mas, assim como um alcoólatra só consegue lidar com o problema a 
> partir do momento em que o admite, será impossível encontrar uma solução 
> enquanto o esporte não fizer o mesmo.
>
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