[Cevdopagem] só vale ser o primeiro

Ana Teresa Guazzelli Beltrami aninhabeltrami em hotmail.com
Sexta Outubro 13 13:11:26 BRT 2006


entrevista

só vale ser o primeiro
Especialista em psicologia do esporte, Katia Rubio discute a pressão sobre o 
segundo lugar nas competições esportivas

AMARÍLIS LAGE
PRISCILA PASTRE ROSSI
DA REPORTAGEM LOCAL

Chegar em primeiro lugar virou obrigação. Para isso, não basta superar os 
próprios limites. É preciso superar os limites do outro. Segundo a 
especialista em psicologia do esporte Katia Rubio, essa relação da sociedade 
com o primeiro lugar nas competições esportivas começou após a Revolução 
Industrial. Em entrevista à Folha, a psicóloga explica por que faz essa 
ligação, fala dos traumas que tamanha exigência por resultados pode gerar e 
aborda como lidar com as frustrações e a importância de agir dentro dos 
próprios limites.




FOLHA - Em que a Revolução Industrial mudou a relação que os atletas têm com 
a idéia de ganhar e perder?
KATIA RUBIO - Se tomarmos a Revolução Industrial como um marco não só 
econômico mas também cultural do mundo ocidental, veremos que existe uma 
transformação de valores caros à sociedade relacionados à competitividade 
pela produção. Todos passam a lutar por um lugar ao sol, o que produz 
efeitos traumáticos ao ser humano naquilo que diz respeito à constituição da 
sua subjetividade. Depois da revolução, o objetivo passou a ser superar o 
outro. Antes, a busca era pela superação do próprio limite.

FOLHA - Quais são as vantagens e as desvantagens dessa mudança?
RUBIO - Psicologicamente só há desvantagens, já que o atleta entrará em uma 
busca constante. Por mais que ele vá atrás do resultado e dê o melhor de si, 
esse melhor pode não ser o suficiente para a equipe, para os patrocinadores 
e para a sociedade. O resultado disso é um só: sentimento de frustração.

FOLHA - Quando o atleta perde uma prova, ele corre o risco de perder também 
o patrocínio. Como isso afeta a forma como ele se relaciona com a 
competição?
RUBIO - Ele acaba ficando escravo dela, principalmente quando está 
representando um país. Não é raro ele ir em busca de meios que o deixem mais 
próximo do melhor resultado a qualquer custo, como o doping. O atleta acaba 
se sujeitando a soluções mágicas e arriscando a carreira e a própria vida.

FOLHA - Qual passou a ser o significado do segundo lugar?
RUBIO - Passou a ser o significado que a sociedade impõe. Virou obrigação 
ser o melhor. O homem contemporâneo não está preparado para encarar um 
segundo lugar, o que pode desencadear diversas psicopatologias, chegando a 
uma depressão profunda, levando a uma aposentadoria precoce ou às drogas. Um 
caso famoso de transformação de herói em vilão no Brasil é o do goleiro 
Barbosa, que, no jogo decisivo da Copa do Mundo de 1950, tomou o gol que deu 
o título ao Uruguai. Ele foi vítima da condição do esporte, que é ganhar ou 
perder, mas virou carrasco.

FOLHA - É possível resistir?
RUBIO - A resistência é a última esperança. Antes de se sujeitar ao doping, 
por exemplo, é preciso que o atleta se pergunte: "Será que eu preciso ser 
tanto assim para alcançar a felicidade? Será que é preciso vencer a qualquer 
custo? Agir dessa forma não me causará um problema ainda maior do que a 
perda de um patrocinador ou um menor reconhecimento?". A mesma análise deve 
ser feita em qualquer ambiente de trabalho. A sociedade acha que o mundo é 
dos vencedores. Mas é preciso avaliar se vale a pena pagar qualquer preço 
para ser sempre o melhor.

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/equilibrio/eq1210200610.htm

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