Re: Re:[Cevdopagem] Ignorância ou má-fé.

Sabino svloguer em terra.com.br
Segunda Outubro 2 00:00:59 BRT 2006


Nilson
É impossível saber se os recordes foram obtidos de forma limpa, porque os 
métodos utilizados para aferir essa legitimidade não merecem a mínima 
confiança.

Mas, se há algo absolutamente certo nisso tudo, é que jamais tomarei 
qualquer iniciativa de interná-lo num hospício. Em seu lugar deveriam ir 
muitos outros que pensam ser os guardiões da honestidade e colocam inocentes 
no cadafalso sem o menos remorso.

Um abraço.

Sabino


----- Original Message ----- 
From: "Nilson Duarte Monteiro" <nilsondm em uol.com.br>
To: "cevdopagem" <cevdopagem em listas.cev.org.br>
Sent: Sunday, October 01, 2006 3:02 PM
Subject: Re: Re:[Cevdopagem] Ignorância ou má-fé.


Fala Sabino,

Eu coloquei essa reprodução, justamente para mostrar o quão o COI, IAAF, ou 
seja, as Federações dos Esportes fizeram vistas grossas para o problema do 
doping, e agora querem combatê-lo na forma mais árbitrária possível. Não 
estou dizendo que todos os atletas são santos e vítimas dessa inquisição. 
Mas, os responsáveis pelo esporte mundial na sua ganância por dinheiro, 
deixaram os atletas, técnicos, laboratórios, patrocinadores... fazerem o que 
quisessem. Tornou-se um círculo vicioso, mais recordes, mais dinheiro, mas 
os recordes nos últimos 30 anos não foram obtidos de forma limpa.

Sabino, vou ser bem radical, dou minha liberdade se alguém conseguir me 
provar que todos, sim, estou falando todos, os recordes do atletismo 
(esporte que eu entendo bem) foram conseguidos de forma limpa. Dos 100m à 
maratona, dos arremessos e dos saltos.

Quem me provar que todos os recordes foram conseguidos de forma lícita, 
podem tirar minha liberdade, me internem num hospício.

Tchau!

Nilson Duarte Monteiro




> Desculpe, Nilson, por não lhe ter respondido, na ocasião em que recebi a
> mensagem a que alude.
> É que tenho esse livro há bastante tempo. Quando terminar o meu, vou
> revê-lo, mas a sua lembrança foi oportuna.
>
> Um dos aspectos deste multifacetado problema do doping é a falta de 
> critério
> para a inclusão de substâncias na lista. Se, por exemplo, cocaína é 
> incluída
> sob a justificativa de que o atleta precisa dar bom exemplo, por que não
> fazer o mesmo com a Coca-Cola, que possui noz de cola, cuja ação é 
> idêntica
> à da coca? Além disso, a Coca-Cola possui cafeína, de conhecida ação
> estimulante (a cocaína é estimulante também,  mas sua ação é fugaz, de tal
> sorte que o próprio COI não a considera doping). A única diferença entre a
> coca e a noz de cola é que a primeira é uma eritroxilácea e a segunda uma
> esterculiácea.
>
> Se considerarmos que a Coca-Cola patrocina eventos esportivos, estamos
> diante de uma notória hipocrisia, própria dos "Senhores dos Anéis".
>
> Sabino
>
>
> ----- Original Message ----- 
> From: "Nilson Duarte Monteiro" <nilsondm em uol.com.br>
> To: "cevdopagem" <cevdopagem em listas.cev.org.br>
> Sent: Sunday, October 01, 2006 12:11 PM
> Subject: Re:[Cevdopagem] Ignorância ou má-fé.
>
>
> Sabino, Ana e Todos,
>
> Reproduzi um trecho do livro "Senhores dos Anéis, poder dinheiro e drogas
> nas Olimpíadas Modernas"
>
>
> Bem na Cara de Todos
>
> Pense num hotel de alta classe, na Europa Ocidental. Garçons e garçonetes
> correm para servir mais de uma centena de hospedes e suas respectivas
> esposas. A comida é ótima, os vinhos de primeira. Acertou: trata-se de um
> jantar para os dirigentes de um dos esportes olímpicos mais populares. Seu
> presidente, Primo Nebiolo, um membro do Clube (é uma das sociedades 
> fechadas
> mais poderosas do mundo. Por intermédio do Clube, um punhado de 
> "presidentes
> de Comitês Nacionais" nomeados comanda o esporte mundial), ocupa a 
> cabeceira
> da mesa central. O banquete faz parte de um final de semana de mordomia,
> tendo como justificativa um acontecimento esportivo qualquer.
>
> Todos se vestem com apuro: ternos caros para os homens, longo para as
> mulheres. Participa da festa um atleta famoso, atual campeão do mundo, 
> cuja
> aparência surpreende. É o único que parece não ter se barbeado.
>
> A quebra da etiqueta não chega a incomodar. Na verdade, chama a atenção o
> fato de que o campeão é uma mulher. E exibe uma barba mais cerrada do que 
> a
> maioria dos homens presentes. Ela é um exemplo claro de atleta dopada,
> bem-sucedida, desafiadora, exibindo os efeitos colaterais do abuso de
> esteróides. Está mudando de sexo bem na cara de todos! Os dirigentes
> esportivos e o presidente não se importam. Não vêem nada de mais. Só nós a
> encaramos.
>
> Muitos dirigentes presentes ao banquete fazem há anos discursos 
> arrebatados,
> como paladinos da cruzada anti-doping. Somente neste jantar percebemos o
> quanto o doping foi aceito e integrado à vida de muitos dirigentes do
> esporte internacional.
>
> Há fartos motivos para preocupações com o tratamento dado pelos dirigentes
> esportivos internacionais aos testes anti-doping. O fato brutal é que há
> anos se sabe, dentro do Clube, que testar atletas no dia da competição é
> praticamente uma perda de tempo e dinheiro. Não passa de um show, uma 
> forma
> de encobrir a verdade. Quem toma drogas recebe orientação profissional, 
> por
> parte de médicos e técnicos, sobre o tempo necessário para eliminar os
> traços das substâncias em seu corpo. Só um irresponsável, ou um Bem 
> Johnson,
> que assumiu um risco calculado de que seu último programa de esteróides
> seria eliminado antes de Seul, é flagrado.
>
> O único método aceitável para impedir o doping é o teste aleatório. Para
> acabar com o doping, só o medo de que, a qualquer momento, durante os
> treinos, quando os trapaceiros estão no meio dos programas de doping, uma
> equipe de testes apareça de repente em sua cidade natal, no clube ou
> universidade, e colha uma amostra. Testes ao acaso raramente acontecem,
> embora sejam necessários há décadas.
>
> Charles Dubin, chefe da Justiça de Ontário, desmascarou anos de 
> hipocresia.
> "Mesmo sabendo há anos que os testes durante as competições eram uma
> falácia, registrou Dubin em seu relatório, "as comissões médicas de
> organizações como a IAAF e o COI não tomaram providências para divulgar o
> ardil. Ao deixar de agir, elas transmitem a impressão de que as 
> competições
> são justas e que os laboratórios não podem ser ludibriados."
> Os líderes do COI e das federações têm poucas justificativas. Seus 
> próprios
> cientistas, sumidades esportivas como o professor Brooks na Inglaterra, o
> dr. Manfred Donike na Alemanha e o dr. Robert Dugal no Canadá, sugeriram
> testes aleatórios já na década de 1970. Até as Olimpíadas de Seul não 
> haviam
> sido iniciados. Se as federações e o COI fossem sérios em sua disposição 
> de
> eliminar o doping, poderiam ter investido a nova riqueza da TV e dos
> patrocinadores para promover uma limpeza nos esportes. Se tivessem feito
> isso, Bem Johnson jamais teria sido aceito na equipe de seu país.
>
> Existe a possibilidade de Dubin não ter contado toda a verdade. Há 
> indícios
> de que muitas federações nacionais e internacionais ignorarem os usuários 
> de
> drogas, abafarem resultados positivos e em diversas ocasiões funcionarem
> como traficantes, fornecendo esteróides para seus times.
>
> Mais de uma década se passou desde que Sebastian Coe falou no Congresso
> Olímpico de Baden-Baden, pedindo aos dirigentes que banissem para sempre 
> os
> atletas flagrados ao usar drogas. Coe, com o apoio de competidores do 
> mundo
> inteiro, vem repetindo o apelo, sem sucesso.
>
> Quando completávamos este livro, a droga mais popular entre os atletas
> britânicos era um produto veterinário para o qual os cientistas ainda não
> haviam desenvolvido um teste satisfatório. Os trapaceiros terão pouco com
> que se preocupar. Um dos truques usado pelas mulheres é um cateter. No dia
> da competição eles enchem a bexiga com urina doada pelas amigas, sem
> contaminação. E seguem despreocupadas para os testes.
>
> O COI e as principais federações esportivas, como a IAAF, divulgam
> documentos comovedores sobre os males do doping. Elas investem somas
> modestas em simpósios onde os cientistas esportivos mostram seus trabalhos
> aos colegas, mas relutam em investir nas pesquisas para melhorar os 
> métodos
> de detectar as drogas, particularmente de substâncias hormonais. O que 
> nunca
> fizeram foi usar sua autoridade para promover uma investigação sobre quem
> usa drogas, quem as fornece e se a política por elas adotadas contra esse
> "flagelo" é ou não eficiente.
>
> Nem o COI e nem a IAAF investigaram o escândalo de Bem Johnson. Coube ao
> governo canadense a iniciativa de realizar um inquérito adequado. No mesmo
> ano o governo da Austrália abriu um inquérito porque seus dirigentes
> esportivos não investigavam as denúncias de doping. A torrente 
> interminável
> de revelações sobre doping nos EUA nunca provocou nenhuma investigação do
> USOC ou a federação de atletismo. Foi preciso esperar pela iniciativa do
> comitê do senador Joe Binden ara revelar os escândalos do doping no país, 
> e
> obter os testemunhos mais chocantes e assombrosos sobre os efeitos
> colaterais dos esteróides.
>
> A corredora norte-americana Diane Willians esclareceu muito este aspecto 
> do
> doping. Ela declarou ter sido forçada a se dopar por seu técnico. E 
> relatou
> seu caso ao comitê de investigação. Diane contou que foi recrutada por um
> dos técnicos mais bem-sucedidos dos EUA e imediatamente ele forneceu
> esteróides. Em um ano ela começou a notar mudanças em seu corpo. Então ele
> lhe deu "aquelas pílulas com formato de bola de futebol - Dianabol".
> Trata-se de uma conhecida marca de esteróides.
>
> Sua frase seguinte deixou o comitê embaraçado e silencioso: "Surgiram 
> traços
> masculinos, como bigode e pelos no queixo. Meu clitóris começou a crescer
> assustadoramente", disse Willians.
>
> Em seguida ela começou a chorar, e o comitê permitiu que fizesse uma 
> pausa.
> Logo prosseguiu: "Minhas cordas vocais se alteraram, a voz engrossou. 
> Fiquei
> coberta de pelos. Os esteróides afetaram meu comportamento sexual. Em 
> muitos
> momentos eu virei uma ninfomaníaca."
>
> Os esteróides também permitem que os homens aumentem a massa muscular, mas
> os efeitos colaterais são igualmente pertubadores. Na mesma investigação 
> do
> senado, o técnico Pat Croce respondeu assim a uma pergunta sobre o modo 
> como
> lidava com os jovens que tomavam esteróides para aumentar os músculos: "Eu
> digo a eles para abaixar a calça e mostrar se são realmente homens. Eles
> querem ficar grandes e masculinos, mas seus testículos encolhem."
>
> Por que homens e mulheres correm tais riscos? Uma resposta cândida foi 
> dada
> pelo corredor canadense Tony Sharpe, amigo de Bem Johnson: "A glória é 
> doce,
> os dólares são muitos."
>
> A glória e os dólares são atraentes para os dirigentes, bem como para os
> atletas. Quando um esporte começa a render muito dinheiro, graças a TV e 
> aos
> patrocinadores, os atletas não são os únicos beneficiados. As federações
> ganham prestígio e recursos. Mas tudo pode se perder, caso o público
> descubra que seus heróis vivem a poder de drogas ilícitas. Este temor cria
> uma cultura de cegueira. Os dirigentes esportivos que deveriam erradicar o
> doping olham para o outro lado. Pior ainda, começam a proteger suas
> estrelas, impedir que sejam desmascaradas.
>
> Os escândalos atingiram os Jogos Panamericanos de Caracas, em agosto de
> 1983. Muitos competidores, mais do que o público imaginava, passaram o 
> verão
> do norte estufando os músculos graças a programas baseados em esteróides.
>
> Mas uma surpresa os aguardava em Caracas. O dr. Manfred Donike, de 
> Colônia,
> nomeado responsável pelo controle anti-doping, desenvolveu técnicas novas 
> e
> mais precisas para os testes. Isso foi descoberto por acidente. A equipe
> médica do comitê norte-americano foi a Caracas antes do evento, para
> prevenir problemas sanitários e de alimentação. Eles descobriram o novo
> equipamento de teste. Sem pensar nas conseqüências, os dirigentes 
> informaram
> o pessoal nos EUA o que esperava por eles.
>
> A catástrofe era iminente, e a equipe mais vulnerável era a dos
> halterofilistas. A chegarem em Caracas, foram levados secretamente para
> fazer testes preliminares nos novos equipamentos. Os resultados deveriam 
> ter
> detonado uma investigação abrangente por parte das federações esportivas
> norte-americanas. Havia onze halterofilistas na equipe. Um teste deu
> negativo, em outro a urina estava diluída demais para permitir a
> identificação de qualquer substância - sinal de que um produto havia sido
> usado para mascarar as drogas. Os outros nove testes deram positivos.
>
> Os dirigentes não pensaram em mandar a equipe de volta imediatamente e 
> tomar
> providências para acabar com o doping. Optaram pelo encobrimento. Teria 
> sido
> muito constrangedor retirar dez dos onze atletas da competição. Todos
> participaram, mas dez deles tiveram um desempenho ridiculamente baixo. Só
> ganhadores de medalhas passavam pelos testes. Assim, eles escaparam das
> medalhas e do desmascaramento.
>
> O único halterofilista que passou no teste esforçou-se ao máximo e ganhou
> três medalhas de ouro. Tornou-se o primeiro usuário de drogas a descobrir
> que é possível passar no teste num dia e ser reprovado no outro. Traços da
> droga permanecem nas gorduras do corpo, e passam para a urina em
> concentrações variáveis. O gráfico da limpeza do corpo não é uma reta 
> linear
> para baixo. Apresenta um contorno irregular nos últimos dias, e quando o
> ganhador das medalhas forneceu a amostra da sua urina, o teste acusou 
> traços
> de drogas. Ele perdeu as três medalhas.
>
> Sua vergonha se diluiu num escândalo ainda maior. Pelo menos uma dúzia de
> atletas chegou a Venezuela, ficou sabendo do risco, deu meia volta e
> retornou aos EUA. Nem chegaram a pisar no estádio.
>
> A história não acabou aí. Os atletas fugiram porque tinham certeza de que
> não passariam nos testes e seriam desmascarados. Muitos deles, contudo,
> tinham competido no Primeiro Campeonato Mundial de Atletismo em Helsinque,
> havia duas semanas, quando seus corpos tinham índices ainda maiores de
> esteróides. Nenhum resultado positivo foi anunciado na Finlândia. Era
> inacreditável.
>
> O dr. Donike também estava responsável pelo controle de doping em 
> Helsinque,
> e usara o mesmo equipamento lá. Dias depois dos testes, foi encaixotado e
> remetido para Caracas. Havia apenas uma diferença significativa entre os
> dois eventos. O campeonato de Helsinque foi o primeiro evento de porte da
> IAAF. Era a primeira leva dos milhões de dólares que começavam a inundar o
> esporte mundial. Foi anunciado que não houve nenhum teste positivo em
> Helsinque.
>
> Há poucas dúvidas de que o evento da IAAF em Helsinque foi um campeonato 
> de
> vários drogados. O jornalista John Rodda comentou no Guardian de Londres:
> "Havia dúvidas e suspeitas sobre a maneira como alguns atletas chegaram ao
> auge. A alta incidência de contusões causou profunda preocupação. A 
> suspeita
> de que as contusões podem ter sido provocadas pela pressão excessiva sobre 
> o
> corpo, resultado do uso de drogas, nunca foi abertamente discutida."
>
> Um ano depois de Helsinque, o corredor norte-americano dos 400m, Cliff
> Wiley, afirmou: "Pelo menos 38 testes deram positivo, dos quais 17 eram
> norte-americanos. Mas os atletas eram tão importantes que os organizadores
> não tiveram coragem de acusa-los."
>
> A história de Caracas e Helsinque foi revelada pelo dr. Robert Voy.
> Especialista em medicina esportiva, tornou-se chefe da equipe médica do 
> USOC
> em 1984. O dr. Voy criou vários problemas. Ele não queria entrar para o
> Clube. Lutou contra o encobrimento e fez campanha pelo fim das drogas no
> esporte. Renunciou a seu cargo em 1985, quando o USOC cortou seu 
> orçamento.
>
> "O IAAF deve ter alterado os resultados em Helsinque", disse o dr. Voy, 
> que
> reserva sua crítica mais contundente para o presidente do atletismo, Primo
> Nebiolo: "Não tenho dúvidas de que, pelo menos em 1983, o presidente não
> exigiu testes honestos e rigorosos em Helsinque."
>
> O presidente e o conselho da IAAF promoveram uma reunião três meses depois
> de Helsinque, e anunciaram que lançariam um programa rigoroso de testes
> aleatórios, sem anúncio prévio. Isso foi amplamente divulgado, e o público
> se tranqüilizou. Os trapaceiros seriam intimidados, deixariam o esporte ou 
> a
> droga. O programa parecia muito convincente. Nunca foi colocado em 
> prática.
>
> O fato da IAAF enganar o público já era muito ruim. O comitê olímpico dos
> EUA foi mais longe ainda. Faltando um ano para os Jogos Olímpicos de 1984,
> dedicaram-se a ensinar à delegação como enganar os testes anti-doping.
> Lançaram um programa eufemisticamente voltado para "testes anti-doping
> educacionais e não punitivos", num laboratório credenciado pelo COI na
> Califórnia, montado para as Olimpíadas.
>
> Oficialente, o esquema se destinava a familiarizar os atletas com os
> procedimentos nos testes antes das Olimpíadas. Era uma piada escabrosa.
> Pouca gente precisava de treinamento para urinar num vidro. Para os 
> usuários
> de drogas, o programa caiu do céu. Correram para o laboratório, aprendendo
> exatamente em quanto tempo seu corpo se livrava dos traços de esteróides. 
> As
> doações espontâneas de pessoas e empresas, feitas ao USOC para preparar os
> atletas para os Jogos, acabaram servindo para estimular as trapaças dos
> atletas. Nenhum norte-americano foi flagrado nas Olimpíadas de Los 
> Angeles.
> Entre os estrangeiros, 14 não passaram nos testes.
>
> Nem todos os dirigentes norte-americanos participaram deste escândalo.
> "Quando soube do programa de testes pré-olímpico do USOC, destinados a
> ensinar aos atletas maneiras mais eficientes de driblar os testes 
> oficiais",
> disse a técnica Pat Connolly, da equipe feminina, para o comitê de
> investigação do senado, "eu me senti traída, como uma criança abandonada
> pelos pais."
>
> Os Jogos de Los Angeles deram mais indicações da importância conferida 
> pelo
> presidente do atletismo, aos flagrantes de doping. O escândalo mais famoso
> de 1984 foi a saída do finlandês Martti Vainio minutos antes da largada 
> dos
> 5 mil metros rasos. Enquanto os corredores alinhavam-se na pista, chegou a
> notícia de que o teste anti-doping de Vainio, realizado após a conquista 
> da
> medalha de prata nos 10.000m, dias antes, dera positivo.
>
> Um dos juízes técnicos, Fred Holder, da Inglaterra, pediu a Vainio que se
> retirasse. "Vainio saiu sem discutir, abandonando a pista imediatamente",
> Holder contou em entrevista. "Mais tarde, o presidente do atletismo ficou
> furioso. Insistiu que apenas o conselho da IAAF poderia tomar uma decisão
> dessas."
>
> O conselho só se reuniria novamente depois do encerramento dos Jogos, e
> suspeitava-se que o presidente do atletismo planejava anunciar a
> desclassificação de um ganhador da medalha de prata após o final das
> Olimpíadas, quando a atenção da mídia seria relaxada. Um dirigente da IAAF
> disse: "Isso foi uma besteira típica do presidente do atletismo. Mostrou 
> sua
> falta de experiência, sempre tentando esconder um problema."
>
> Vainio comentou mais tarde: "Acho que havia outros. Fui o único 
> considerado
> culpado. Concordo com minha punição, mas quantos atletas deveria haver 
> neste
> barco?" Mais tarde revelou-se que o teste de Vainio na maratona de 
> Roterdam,
> dois meses antes, dera positivo. Os dois resultados deveriam implicar no
> banimento do atletismo. Mas ele só foi acusado pela falta nas Olimpíadas, 
> e
> suspenso por apenas 18 meses.
>
> Os escândalos se sucediam, sem parar. Depois dos Jogos de Los Angeles, o
> evento internacional seguinte era o segundo Campeonato Mundial de 
> Atletismo
> em Roma. O grande logro de 1987 foi o salto de Evangelista, mas a 
> tolerância
> ao doping foi igualmente triste.
>
> No final do campeonato Nebiolo, de olho na bolsa dos patrocinadores, 
> afirmou
> que promovera um campeonato "livre de drogas". Era quase inacreditável que
> um dirigente esportivo veterano negasse tão cinicamente um fato 
> reconhecido
> por cada atleta, técnico e jornalista.
>
> Um dos "triunfos" do campeonato foi o novo recorde dos 100 metros rasos, 
> por
> Bem Johson. Um membro do COI, presente ao campeonato, declarou em uma
> conversa particular: "Os dirigentes da equipe canadense tremeram até o
> momento em que Ben Johnson passou no teste." Que Johnson tomava drogas era
> um segredo de araque no0 mundo do esporte, mas o público não sabia. Pelo
> jeito ele administrou bem o período de descontaminação antes de seguir 
> para
> Roma.
>
> Carl Lewis, segundo colocado, atrás de Johnson, declarou em entrevista 
> para
> a televisão: "Há ganhadores de medalhas de ouro neste campeonato que
> certamente tomam drogas. A prova dos 100m ficará na história, por mais de 
> um
> motivo. Se eu tomasse drogas, poderia fazer 9.8 agora mesmo."
>
> Quando os repórteres questionaram Nebiolo sobre as acusações de Carl 
> Lewis,
> a melhor resposta que ouviram foi: "Ele deveria fazer um relatório a
> federação norte-americana". Duas semanas depois de quebrar o recorde,
> Johnson foi recebido em audiência no Château de Vidy, pelo presidente do
> COI.
>
> Se o comportamento público de Nebiolo à frente da IAAF irritou os
> observadores, a verdade sobre a federação italiana, que ele presidia 
> também,
> deixaria todos sem fala. Bem Johnson e outros trapaceiros de Roma se 
> dopavam
> secretamente. Na Itália a situação beirava o inacreditável: as maiores
> estrelas do atletismo passavam por doping com sangue e programas de
> esteróides organizados e pagos pela FIDAL (Federação Italiana de 
> Atletismo)
> de Nebiolo.
>
> Desde o início da década de 1980 a federação italiana estimulava o doping
> com sangue. Meses antes de um evento importante, um atleta doava meio 
> litro
> de sangue. As células vermelhas, que transportam o oxigênio, eram 
> extraídas
> e injetadas novamente na véspera da competição. Como o corpo providenciara 
> a
> reposição das células no intervalo, o resultado era uma quantidade maior 
> de
> células vermelhas, e mais oxigênio nos músculos, durante as provas.
> Acreditava-se que um corredor poderia diminuir seu tempo nos 5 mil metros 
> em
> cinco segundos.
>
> Esta prática só foi proibida pelo COI no final da década de 1980, mas 
> sempre
> a consideraram imoral. Isso não incomodava a federação de Nebiolo. Um de
> seus assessores técnicos, dr. Francesco Conconi, era professor de 
> bioquímica
> na Universidade de Ferrar.
>
> Não resta dúvida de que o líder do atletismo italiano estava informado da
> situação. No dia 10 de junho de 1983, Conconi escreveu a Nebiolo:
>
> "Caro presidente, a pesquisa nos últimos três anos permitiu o
> aperfeiçoamento de tecnologias superiores àquelas utilizadas em Moscou em
> 1980, Iugoslávia em 1981 e Atenas em 1982."
>
> O trabalho preparatório para Los Angeles, com os atletas que participarão 
> do
> programa, levará quatro meses. Precisamos inicia-lo antes de 1 de novembro
> de 1983. As tecnologias que pretendemos utilizar, implicam em execução 
> longa
> e laboriosa, e o programa resultante será muito complexo".
>
> Vários atletas presentes a Los Angeles passaram pelo doping com sangue. A
> teoria não funcionou na prática, e as medalhas extras não se 
> materializaram.
> Depois dos Jogos, alguns documentos vazaram ara a imprensa italiana e o
> escândalo foi revelado.
>
> O doping com sangue era questionável, porém legal na época; os esteróides
> não. Isso não deteve a FIDAL em seu desespero de conseguir medalhas,
> aplausos na Itália e mais contratos de patrocínio.
>
> Na véspera da partida da equipe italiana ara a Olimpíadas de Los Angeles, 
> o
> técnico de corridas Sandro Donati e um colega entraram no escritório do
> departamento técnico da FIDAL e tropeçaram em uma caixa de papelão coberta
> de rótulos dos EUA. Eles a abriram e encontraram mais de mil frascos de
> esteróide. Cada frasco continha 100 pílulas de 5 mg. Provinham de uma
> empresa de Nova York, e na caixa havia um aviso: "Somente com receita
> médica."
>
> As drogas eram administradas sob supervisão de um funcionário da FIDAL em
> tempo integral. Ele executou seu trabalho metódica e burocraticamente,
> insistindo com todos os atletas em tratamento para que assinassem um termo
> de compromisso. A primeira versão, manuscrita, foi encontrada nos arquivos
> da FIDAL, e dizia:
>
> Eu...........(nome do atleta), declaro que desejo realizar terapia com o
> esteróide anabolizante..........(nome da droga), em adição ao meu
> treinamento. Faço isso por minha escolha e assumo a responsabilidade.
>
> A FIDAL considerou esta redação muito explícita, e a trocou por uma versão
> mais branda:
>
> Eu, ...........(nome do atleta), declaro que por minha livre e espontânea
> vontade desejo me submeter a terapia médica e remédios sugeridos pelos
> médicos da FIDAL. Serei informado da dosagem, possíveis efeitos colaterais 
> e
> reações adversas, além de informações sobre sua possível e eventual 
> toxidez.
>
> Donati desafiou Nebiolo pessoalmente, e finalmente o confrontou. "Você
> precisa ter uma visão mais ampla das atividades da federação", explicou o
> presidente. "Eu dedico muito esforço à promoção do atletismo. O esporte
> tinha um perfil muito baixo na mídia e junto ao público. Temos um grande
> circo, e se esticarmos demais a lona, o teto vai cair. Precisamos olhar o
> conjunto, não um só aspecto. Não queremos que o teto caia."
>
> O teto desabaria nas Olimpíadas de Seul. Pouco depois de congratular Bem
> Johnson pelo recorde dos 100m em Roma, Samaranch declarou à imprensa:
> "Garanto a todos que podem ficar tranqüilos, pois seremos muito firmes na
> questão do doping. Trata-se de um tipo de fraude que não podemos tolerar."
> Os fraudadores sabiam que não tinham muito a temer, e quando a primavera 
> de
> 1988 deu lugar ao verão, dedicaram-se a tomar sua pílulas e injeções.
>
> A primeira pista surgiu em maio. Um dos primeiros eventos importantes da
> temporada era o Gatorade Classic, em Knoxville, no Tennessee. Quando
> anunciaram que havia testes anti-doping, muitos competidores desisitiram. 
>> um dos oitos lançadores de disco apareceu, e um conhecido astro do salto
> triplo cancelou sua participação.
>
> O mesmo ocorreu no Pepsi Classic, realizado uma semana antes das
> eliminatórias norte-americanas para as Olimpíadas. Ali também houve 
> controle
> de drogas. Faltaram tantos atletas que as provas de lançamento de peso e
> disco foram canceladas.
>
> As eliminatórias para as Olimpíadas foram disputadas em julho, em
> Indianápolis. Mais uma vez, levantou-se a suspeita de que os trapaceiros
> estavam usando drogas, pois precisavam se classificar para Seul. A prova
> estava nos oito atletas com resultados positivos no teste da planta que
> produz efedrina, um conhecido agente mascarador de esteróide. Eles foram
> inocentados porque a efedrina também pode ser encontrada em algumas
> vitaminas. Um desses atletas inocentados foi Carl Lewis
>
> Um ano mais tarde a maratonista australiana Lisa Martin afirmou que 17
> atletas tiveram resultados positivos nas eliminatórias olímpicas dos EUA.
> Seu empresário declarou que ela compareceu a um encontro depois das
> eliminatórias, quando os atletas foram avisados: "Em Seul os testes serão
> para valer."
>
> As eliminatórias nos EUA apresentaram outra sensação: Flo-Jo, a corredora
> Florence Griffith-Joyner, cuja carreira anterior não registrava maiores
> feitos. A edição de 1987 da Track & Field News não a listava entre as dez
> mulheres mais rápidas do mundo, e a colocava em sétimo lugar no ranking
> norte-americano. Mesmo assim em um ano, como comentou venenosamente o
> treinador de Bem Johnson, Charlie Francis, "ela é uma aberração histórica 
> na
> curva de performance, seus tempos estão cinqüenta anos a frente." Ela 
> ganhou
> três medalhas de ouro em Seul, quebrando dois recordes mundiais.
>
> Carl Lewis e outro atleta destacado levantaram a questão do uso de drogas.
> Um jornalista do Times de Londres perguntou: "Seria ela um hermafrodita
> drogado?" Em novembro de 1991 Griffith-Joyner declarou aos jornalistas 
> que,
> embora "não quisesse perder tempo e dinheiro em um processo", ela iria
> "pegar Lewis".
>
> Depois dos Jogos de Seul, a revista Stern publicou uma declaração do 
> antigo
> campeão norte-americano dos 400m, Darrel Robinson, que ela havia pago US$ 
> 2
> mil por um frasco de 10 cc de HGH - hormônio de crescimento humano. Na
> televisão ela o chamou de "lunático maluco mentiroso". Flo-Jo passou por
> todos os testes anti-doping que realizou. Entretanto, ainda não existe um
> teste confiável para o HGH.
>
> Bem Johnson foi a melhor notícia para o COI e a IAAF nos anos 1980.
> Finalmente podiam exibir um novo "homem mais rápido do mundo". Os recordes
> mundiais de Johnson em Roma e Seul emocionaram o público e os
> patrocinadores. Samaranch e Nebiolo pegaram carona no sucesso dele.
>
> Johnson enfrentava problemas ao se preparar para Seul. Sua equipe 
> descobriu,
> no final de 1987, que depois de três anos de doping com hormônios, seu 
> peito
> esquerdo crescera muito. Ele estava virando mulher! Isso não foi revelado 
> ao
> público canadense, que recebia garantias dos dirigentes nacionais: o 
> esporte
> ali era limpo, porque os testes aleatórios haviam sido anunciados.
> Anunciados sim, realizdos não. Sempre havia uma desculpa para o adiamento.
> Johnson estava pronto para levar mais glória e dinheiro aos dirigentes de
> Seul.
>
> Os preparativos de Johnson para as Olimpíadas foram pertubados por uma
> contusão, mas seu programa de doping prosseguiu inabalável. No final de
> agosto ele começou a última série de duas semanas de doping, antes de 
> Seul.
> Teria 13 dias até o torneio de aquecimento, em Tóquio, sem testes, e 
> depois
> iria para Seul, rezando para que seu corpo tivesse eliminado todos os 
> sinais
> de esteróides. Estava enganado.
>
> O COI contestou as suspeitas de que teria preferido abafar o caso, 
> evitando
> um escândalo que assustaria os patrocinadores. Resta o fato de que alguém
> dentro do laboratório de teste do COI ficou tão preocupado com o possível
> ocultamento que vazouo resultado para a imprensa.
>
> Se pode haver algo mais sórdido no esporte do que a "exclusão" de Johnson
> como usuário de drogas, foi a reação do COI e da IAAF à questão da nova
> entrega de medalhas. Dois anos antes o atleta russo Vladislav Tretyak 
> disse
> na cara de Samaranch: "Quando um competidor ganha uma medalha e é
> desclassificado, o vencedor real deve receber as honras que merece - o que
> normalmente nçao acontece."
>
> Não aconteceu em Seul, tampouco. A exigência de Tretyak foi ignorada 
> quando
> Johnson perdeu a medalha. Limitar os estragos era a ordem do dia. O
> escândalo já prejudicara demais a imagem e o valor econômico dos Jogos. A
> última coisa que o nervoso presidente desejava era divulgar o desastre
> através de uma segunda cerimônia pública de entrega de medalhas.
>
> Samaranch olhou para o outro lado enquanto Nebiolo restringia a cerimônia 
> de
> premiação de Carl Lewis, Linford Christie e Calvin Smith com suas novas
> medalhas a seu escritório fechado, no estádio de Seul. "Não haverá 
> cerimônia
> especial", declarou a porta-voz do COI, Michele Verdier. "É uma regra da
> IAAF".
>
> Bem Johnson cometeu três erros graves em sua juventude: tomou esteróides,
> foi flagrado e exigiu um inquérito para limpar seu nome. O governo 
> canadense
> o atendeu, nomeando o juiz Charles Dubin para chefiar a comissão de
> inquérito. As provas foram trazidas a público, sob juramento, durante o 
> ano
> de 1988, em Toronto. Tornou-se uma das investigações mais completas já
> realizadas no esporte moderno.
>
> Se o governo canadense não abrisse o inquérito, não haveria investigação 
> do
> caso Johnson. O escândalo teria sido rapidamente esquecido num canto. O
> público poderia ficar sossegado, tudo não passava de uma tragédia pessoal
> restrita a Johnson. Dubin logo mostrou que estas afirmativas não passavam 
> de
> absurdos perniciosos.
>
> Nas audiências ficou claro que todas as pessoas importantes no atletismo
> canadense e mundial sabiam que membros da equipe do técnico Charles 
> Francis,
> Johnson inclusive, pertenciam à "irmandade da agulha". Contudo, nenhum
> dirigente rompeu fileiras e protestou quando Johnson passou em um teste 
> após
> outro, de doping, limpeza e provas com testes, Johnson conseguiu passar 
> por
> 19 testes em dois anos, antes dos Jogos de Seul.
>
> Dubin examinou as declarações do COI e da IAAF, a respeito da eficácia dos
> testes anti-doping durante as competições, tidos como capazes de reprimir
> fraudes, e confrontou as declarações com os depoimentos obtidos. Ele 
> chamou
> testemunha após testemunha, e muitos admitiram que usavam drogas ou 
> estavam
> envolvidos no fonecimento de drogas a atletas.
>
> Tendo revelado a abrangência do doping, Dubin arrasou com a afirmação, 
> usada
> desde os Jogos de 1968, de que o pequeno número de resultados positivos 
> nos
> testes "provava" que o doping era um mal menor. Ele mostrou o óbvio; nas
> palavras do inglês Sir Arthur Gold, "só os descuidados ou mal orientados 
> são
> descobertos".
>
> Implacavelmente o juiz canadense destruiu os mitos impostos pelos
> presidentes esportivos com o passar dos anos. Dubin compreendeu de que a
> maneira o público fora iludido. Ele mergulhou nas estatísticas exibidas 
> pelo
> COI para provas que apenas um punhado de competidores usava drogas. 
> Segundo
> Dubin, elas foram "usadas de modo enganoso, nas diversas tentativas de
> mostrar que o abuso de drogas ocorria apenas com uma pequena porcentagem 
> dos
> atletas. Esta preocupação com as aparências, e não com a essência, é um 
> tema
> contínuo nas provas."
>
> O sueco responsável pela comissão médica da IAAF, Arne Ljungqvist, 
> enfrentou
> fogo pesado. Ljungqvist é uma figura de destaque no atletismo sueco e
> mundial. Dubin notou que Ljungqvist  arfimou: " Os Jogos em Seul não podem
> ser considerados as Olimpíadas da droga. Cerca de 1600 atletas foram
> examinados, e surgiram dez resultados positivos. O problema em Seul foi 
> que
> um dos atletas dopados se chamava Bem Johnson."
>
> Dubin retrucou em seu relatório: "O dr. Ljungqvist e outros sabem que os
> testes durante as competições não pegam todos os atletas culpados. Mesmo
> assim, usam os resultados durante as competições para medir a extensão do
> doping em Seul. As provas constantes deste inquérito provam que os atletas
> flagrados em Seul não eram os únicos usuários de drogas, apenas os únicos
> que foram identificados."
>
> O juiz prosseguiu: "O dr. Ljungqvist desvia a atenção para os testes
> positivos, e deixa de lado o problema real do doping no esporte. O público
> em geral foi levado a acreditar que se um único atleta teve resultado
> positivo, os outros não usavam drogas. Sabemos agora, como o COI e a IAAF
> sabe há anos, que esta presunção é falsa".
>
> As bases para as críticas de Dubin foram: em 1985 a IAAF anunciou que as
> federações iniciariam testes anti-doping fora das competições, e que a 
> IAAF
> realizaria testes arbitrários em campeonatos nacionais. "Pouco ou nada foi
> feito para implantar esta decisão", comentou Dubin.
>
> Havia mais: "A IAAF também tinha poderes para delegar a realização de 
> testes
> às federações. Contudo, dos 184 países membros da IAAF, poucos tinham um
> programa de testes fora das cmpetições, em setembro de 1988. Sendo assim, 
> a
> regra nunca foi cobrada."
>
> Finalmente o público ouvia a verdade sobre a federação de Nebiolo.
> "Infelizmente não usou sua influência de modo mais significativo para
> erradicar o problema das drogas do atletismol. A postura da IAAF parece 
> ser
> a de reagir ao problema somente depois dos acontecimentos. A comissão 
> médica
> da IAAF sabe, desde sua fundação, que apenas os testes durante as
> competições não constituem métodos eficazes de detectar esteróides, nem
> desencorajam eficientemente o uso de esteróides."
>
> Dubin concluiu que só há uma maneira de limpar as Olimpíadas. Ele sugere 
> que
> o COI impeça a participação de qualquer federação nacional que não 
> organize
> e implemente efetivamente um programa eficaz de controle de doping. Dubin
> deu o tom para Barcelona.
>
> O relatório Dubin deveria ter revolucionado o esporte mundial. Foi
> ingnorado. A palavra "Dubin" aparentemente entrou na lista negra do COI
> Review e da IAAF Review. Apenas o Canadá, Austrália e os países nórdicos
> possuem programas independentes de testes aleatórios, amparados pela lei e
> executados por organismos escolhidos pelo governo. As federações 
> esportivas
> perderam seus poderes nestes países. Pode-se pensar que as federações
> internacionais ficaram satisfeitas com esta política, pois aumentaria a
> confiança do público na limpeza do esporte, finalmente.
>
> Não é este o ponto de vista do dr. Nebiolo. Em julho de 1991 a IAAF enviou
> novas instruções a todos os seus membros, no mundo inteiro.
> "Alguns governos nacionais criaram Agências Nacionais Anti-Doping,
> responsáveis pelo controle do doping no esporte. Percebemos, com alguma
> preocupação, que estas agências assumiram o controle total dos assuntos de
> doping, nos países respectivos, e que os procedimentos adotados contrariam
> as Regras da IAAF. A Comissão de Doping da IAAF acredita que os países
> membros devem efetuar todos os esforços para recuperar o controle."
>
> Outro ponto dava impressão de ser mais uma tentativa de voltar o relógio.
> Sempre se suspeitou que os dirigentes do atletismo eram muito seletivos ao
> escolher atletas para os testes, preferindo competidores que sabiam estar
> "limpos" e ignorando os dopados. Em outra carta, havia uma recomendação 
> para
> que os dirigentes nacionais tentassem recuperar a prerrogativa de escolher
> quem seria testado.
>
> A milionária IAAF finalmente iniciou os testes com seu "grupo móvel". No
> primeiro ano, a partir de maio de 1990, conseguiram testar apenas 113
> atletas em todo mundo. Nenhum teste deu positivo, e nenhum teste foi
> realizado em cidadãos norte-americanos. Há questões relativas a liberdade
> civis nos EUA, no que diz respeito a testes aleatórios. Nebiolo não 
> pretende
> dizer aos norte-americanos, patrocinadores tão ricos, que têm direito de 
> não
> fazer os testes - e que os demais têm o direito de excluí-los das
> competições. Vale lembrar que muitos atletas norte-americanos desejam a
> implantação dos testes.
>
> Apesar da contundência dos comentários de Dubin, apesar da ignomínia que o
> escândalo Johnson deveria ter representado para Nebiolo e seu conselho da
> IAAF, apesar do atletismo ter fracassado na erradicação do doping, eles
> ainda desejam o direito de controlar os testes anti-doping. Mau sinal para
> Barcelona.
>
> O COI e a IAAF tentam minimizar a doença que ataca o esporte. No final de
> 1988, em Lausanne, o presidente Samaranch declarou sem rodeios: "O COI 
> está
> ganhando a guerra contra as drogas." Um de seus planos largamente 
> divulgados
> previa um "laboratório voador" do COI, para realizar testes ao acaso.
> Custaria, segundo estimativas, U$ 1 milhão para ser montado, e mais U$ 500
> mil anuais para operar. Parecia impressionante. A polícia anti-doping do 
> COI
> circulando pelo mundo, mergulhando para atacar os malvados. Como sempre, 
> era
> só aparência, sem essência. Dezoito meses depois o COI, que está gastando 
> U$
> 40 milhões em um novo museu olímpico em Lausanne, discretamente cancelou o
> projeto, por falta de verbas.
>
> Mais incrível ainda, Samaranch e Nebiolo anunciaram que depois de 
> completar
> dois anos de suspensão, Bem Johnson seria bem-vindo na Olimpíada de
> Barcelona. O cinismo não tem fim. Um atleta que tomou drogas por quase dez
> anos, calculava suas doses para evitar um flagrante, e que mentiu ao ser
> desmascarado, estava sendo encorajado a contribuir com sua moralidade
> duvidosa para as Olimpíadas.
>
> Houve uma certa gritaria dos dirigentes esportivos internacionais. Muitos
> seguiram a linha oficial, e declararam que Johnson já fora suficientemente
> punido e agora merecia o perdão.
>
> Na metade de 1988, a fundação atlética de Nebiolo patrocinou um simpósio
> sobre doping em Monte Carlo. Os encarregados de testes e dirigentes
> esportivos presentes ouviram uma interessante declaração do único dos
> presentes que não era cientista, o ex-técnico inglês Ron Pickering: 
> "Nenhum
> presidente pode dizer que temos Jogos sem drogas, só porque não houve
> resultado positivos identificados - ou divulgados, nenhum presidente 
> deveria
> dizer que Bem Johnson é bem-vindo nos próximos Jogos. Seria pura 
> hipocresia
> aceita-lo de volta, quanto mais considera-lo bem-vindo." A intervenção de
> Pickering representou um sopro de ar fresco no simpósio, no mais
> complacente.
>
> O principal consultor do Inquérito Dubin foi o QC Robert Armstrong. Em 
> 1991,
> discursando em uma conferência anti-doping, ele repassou as descobertas
> feitas em Toronto, sobre a maneira como os dirigentes internacionais
> enganavam o público quando o tema era doping. Ele insistiu no ponto de que
> os testes durante os eventos eram inúteis para determinar o uso de drogas.
>
> Lamentou também, após as audiências de Biden nos EUA, "que as provas 
> tenham
> recebido tão pouca atenção por parte do COI e da IAAF, algo 
> surpreendente."
> Ele resumiu o estilo de liderança de Nebiolo, dizendo que no passado o
> presidente da IAAF "parecia se satisfazer com pouco mais do que exercícios
> de relações públicas."
>
> Depois criticou o COI: "Eles não têm motivos para ficarem orgulhosos ou
> satisfeitos com suas realizações. A comissão médica sabe há anos que os
> testes na hora da competição são pura perda de tempo no caso dos
> esteróides."
>
> Armstrong concluiu: "Há uma falha na liderança de nossas organizações
> esportivas, a nível nacional e internacional. Nossos líderes esportivos 
> nos
> decfepcionaram."
>
>
> Nilson Duarte Monteiro
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