Re: Re:[Cevdopagem] Ignorância ou má-fé.

Sabino svloguer em terra.com.br
Domingo Outubro 1 12:44:03 BRT 2006


Desculpe, Nilson, por não lhe ter respondido, na ocasião em que recebi a 
mensagem a que alude.
É que tenho esse livro há bastante tempo. Quando terminar o meu, vou 
revê-lo, mas a sua lembrança foi oportuna.

Um dos aspectos deste multifacetado problema do doping é a falta de critério 
para a inclusão de substâncias na lista. Se, por exemplo, cocaína é incluída 
sob a justificativa de que o atleta precisa dar bom exemplo, por que não 
fazer o mesmo com a Coca-Cola, que possui noz de cola, cuja ação é idêntica 
à da coca? Além disso, a Coca-Cola possui cafeína, de conhecida ação 
estimulante (a cocaína é estimulante também,  mas sua ação é fugaz, de tal 
sorte que o próprio COI não a considera doping). A única diferença entre a 
coca e a noz de cola é que a primeira é uma eritroxilácea e a segunda uma 
esterculiácea.

Se considerarmos que a Coca-Cola patrocina eventos esportivos, estamos 
diante de uma notória hipocrisia, própria dos "Senhores dos Anéis".

Sabino


----- Original Message ----- 
From: "Nilson Duarte Monteiro" <nilsondm em uol.com.br>
To: "cevdopagem" <cevdopagem em listas.cev.org.br>
Sent: Sunday, October 01, 2006 12:11 PM
Subject: Re:[Cevdopagem] Ignorância ou má-fé.


Sabino, Ana e Todos,

Reproduzi um trecho do livro "Senhores dos Anéis, poder dinheiro e drogas 
nas Olimpíadas Modernas"


Bem na Cara de Todos

Pense num hotel de alta classe, na Europa Ocidental. Garçons e garçonetes 
correm para servir mais de uma centena de hospedes e suas respectivas 
esposas. A comida é ótima, os vinhos de primeira. Acertou: trata-se de um 
jantar para os dirigentes de um dos esportes olímpicos mais populares. Seu 
presidente, Primo Nebiolo, um membro do Clube (é uma das sociedades fechadas 
mais poderosas do mundo. Por intermédio do Clube, um punhado de "presidentes 
de Comitês Nacionais" nomeados comanda o esporte mundial), ocupa a cabeceira 
da mesa central. O banquete faz parte de um final de semana de mordomia, 
tendo como justificativa um acontecimento esportivo qualquer.

Todos se vestem com apuro: ternos caros para os homens, longo para as 
mulheres. Participa da festa um atleta famoso, atual campeão do mundo, cuja 
aparência surpreende. É o único que parece não ter se barbeado.

A quebra da etiqueta não chega a incomodar. Na verdade, chama a atenção o 
fato de que o campeão é uma mulher. E exibe uma barba mais cerrada do que a 
maioria dos homens presentes. Ela é um exemplo claro de atleta dopada, 
bem-sucedida, desafiadora, exibindo os efeitos colaterais do abuso de 
esteróides. Está mudando de sexo bem na cara de todos! Os dirigentes 
esportivos e o presidente não se importam. Não vêem nada de mais. Só nós a 
encaramos.

Muitos dirigentes presentes ao banquete fazem há anos discursos arrebatados, 
como paladinos da cruzada anti-doping. Somente neste jantar percebemos o 
quanto o doping foi aceito e integrado à vida de muitos dirigentes do 
esporte internacional.

Há fartos motivos para preocupações com o tratamento dado pelos dirigentes 
esportivos internacionais aos testes anti-doping. O fato brutal é que há 
anos se sabe, dentro do Clube, que testar atletas no dia da competição é 
praticamente uma perda de tempo e dinheiro. Não passa de um show, uma forma 
de encobrir a verdade. Quem toma drogas recebe orientação profissional, por 
parte de médicos e técnicos, sobre o tempo necessário para eliminar os 
traços das substâncias em seu corpo. Só um irresponsável, ou um Bem Johnson, 
que assumiu um risco calculado de que seu último programa de esteróides 
seria eliminado antes de Seul, é flagrado.

O único método aceitável para impedir o doping é o teste aleatório. Para 
acabar com o doping, só o medo de que, a qualquer momento, durante os 
treinos, quando os trapaceiros estão no meio dos programas de doping, uma 
equipe de testes apareça de repente em sua cidade natal, no clube ou 
universidade, e colha uma amostra. Testes ao acaso raramente acontecem, 
embora sejam necessários há décadas.

Charles Dubin, chefe da Justiça de Ontário, desmascarou anos de hipocresia. 
"Mesmo sabendo há anos que os testes durante as competições eram uma 
falácia, registrou Dubin em seu relatório, "as comissões médicas de 
organizações como a IAAF e o COI não tomaram providências para divulgar o 
ardil. Ao deixar de agir, elas transmitem a impressão de que as competições 
são justas e que os laboratórios não podem ser ludibriados."
Os líderes do COI e das federações têm poucas justificativas. Seus próprios 
cientistas, sumidades esportivas como o professor Brooks na Inglaterra, o 
dr. Manfred Donike na Alemanha e o dr. Robert Dugal no Canadá, sugeriram 
testes aleatórios já na década de 1970. Até as Olimpíadas de Seul não haviam 
sido iniciados. Se as federações e o COI fossem sérios em sua disposição de 
eliminar o doping, poderiam ter investido a nova riqueza da TV e dos 
patrocinadores para promover uma limpeza nos esportes. Se tivessem feito 
isso, Bem Johnson jamais teria sido aceito na equipe de seu país.

Existe a possibilidade de Dubin não ter contado toda a verdade. Há indícios 
de que muitas federações nacionais e internacionais ignorarem os usuários de 
drogas, abafarem resultados positivos e em diversas ocasiões funcionarem 
como traficantes, fornecendo esteróides para seus times.

Mais de uma década se passou desde que Sebastian Coe falou no Congresso 
Olímpico de Baden-Baden, pedindo aos dirigentes que banissem para sempre os 
atletas flagrados ao usar drogas. Coe, com o apoio de competidores do mundo 
inteiro, vem repetindo o apelo, sem sucesso.

Quando completávamos este livro, a droga mais popular entre os atletas 
britânicos era um produto veterinário para o qual os cientistas ainda não 
haviam desenvolvido um teste satisfatório. Os trapaceiros terão pouco com 
que se preocupar. Um dos truques usado pelas mulheres é um cateter. No dia 
da competição eles enchem a bexiga com urina doada pelas amigas, sem 
contaminação. E seguem despreocupadas para os testes.

O COI e as principais federações esportivas, como a IAAF, divulgam 
documentos comovedores sobre os males do doping. Elas investem somas 
modestas em simpósios onde os cientistas esportivos mostram seus trabalhos 
aos colegas, mas relutam em investir nas pesquisas para melhorar os métodos 
de detectar as drogas, particularmente de substâncias hormonais. O que nunca 
fizeram foi usar sua autoridade para promover uma investigação sobre quem 
usa drogas, quem as fornece e se a política por elas adotadas contra esse 
"flagelo" é ou não eficiente.

Nem o COI e nem a IAAF investigaram o escândalo de Bem Johnson. Coube ao 
governo canadense a iniciativa de realizar um inquérito adequado. No mesmo 
ano o governo da Austrália abriu um inquérito porque seus dirigentes 
esportivos não investigavam as denúncias de doping. A torrente interminável 
de revelações sobre doping nos EUA nunca provocou nenhuma investigação do 
USOC ou a federação de atletismo. Foi preciso esperar pela iniciativa do 
comitê do senador Joe Binden ara revelar os escândalos do doping no país, e 
obter os testemunhos mais chocantes e assombrosos sobre os efeitos 
colaterais dos esteróides.

A corredora norte-americana Diane Willians esclareceu muito este aspecto do 
doping. Ela declarou ter sido forçada a se dopar por seu técnico. E relatou 
seu caso ao comitê de investigação. Diane contou que foi recrutada por um 
dos técnicos mais bem-sucedidos dos EUA e imediatamente ele forneceu 
esteróides. Em um ano ela começou a notar mudanças em seu corpo. Então ele 
lhe deu "aquelas pílulas com formato de bola de futebol - Dianabol". 
Trata-se de uma conhecida marca de esteróides.

Sua frase seguinte deixou o comitê embaraçado e silencioso: "Surgiram traços 
masculinos, como bigode e pelos no queixo. Meu clitóris começou a crescer 
assustadoramente", disse Willians.

Em seguida ela começou a chorar, e o comitê permitiu que fizesse uma pausa. 
Logo prosseguiu: "Minhas cordas vocais se alteraram, a voz engrossou. Fiquei 
coberta de pelos. Os esteróides afetaram meu comportamento sexual. Em muitos 
momentos eu virei uma ninfomaníaca."

Os esteróides também permitem que os homens aumentem a massa muscular, mas 
os efeitos colaterais são igualmente pertubadores. Na mesma investigação do 
senado, o técnico Pat Croce respondeu assim a uma pergunta sobre o modo como 
lidava com os jovens que tomavam esteróides para aumentar os músculos: "Eu 
digo a eles para abaixar a calça e mostrar se são realmente homens. Eles 
querem ficar grandes e masculinos, mas seus testículos encolhem."

Por que homens e mulheres correm tais riscos? Uma resposta cândida foi dada 
pelo corredor canadense Tony Sharpe, amigo de Bem Johnson: "A glória é doce, 
os dólares são muitos."

A glória e os dólares são atraentes para os dirigentes, bem como para os 
atletas. Quando um esporte começa a render muito dinheiro, graças a TV e aos 
patrocinadores, os atletas não são os únicos beneficiados. As federações 
ganham prestígio e recursos. Mas tudo pode se perder, caso o público 
descubra que seus heróis vivem a poder de drogas ilícitas. Este temor cria 
uma cultura de cegueira. Os dirigentes esportivos que deveriam erradicar o 
doping olham para o outro lado. Pior ainda, começam a proteger suas 
estrelas, impedir que sejam desmascaradas.

Os escândalos atingiram os Jogos Panamericanos de Caracas, em agosto de 
1983. Muitos competidores, mais do que o público imaginava, passaram o verão 
do norte estufando os músculos graças a programas baseados em esteróides.

Mas uma surpresa os aguardava em Caracas. O dr. Manfred Donike, de Colônia, 
nomeado responsável pelo controle anti-doping, desenvolveu técnicas novas e 
mais precisas para os testes. Isso foi descoberto por acidente. A equipe 
médica do comitê norte-americano foi a Caracas antes do evento, para 
prevenir problemas sanitários e de alimentação. Eles descobriram o novo 
equipamento de teste. Sem pensar nas conseqüências, os dirigentes informaram 
o pessoal nos EUA o que esperava por eles.

A catástrofe era iminente, e a equipe mais vulnerável era a dos 
halterofilistas. A chegarem em Caracas, foram levados secretamente para 
fazer testes preliminares nos novos equipamentos. Os resultados deveriam ter 
detonado uma investigação abrangente por parte das federações esportivas 
norte-americanas. Havia onze halterofilistas na equipe. Um teste deu 
negativo, em outro a urina estava diluída demais para permitir a 
identificação de qualquer substância - sinal de que um produto havia sido 
usado para mascarar as drogas. Os outros nove testes deram positivos.

Os dirigentes não pensaram em mandar a equipe de volta imediatamente e tomar 
providências para acabar com o doping. Optaram pelo encobrimento. Teria sido 
muito constrangedor retirar dez dos onze atletas da competição. Todos 
participaram, mas dez deles tiveram um desempenho ridiculamente baixo. Só 
ganhadores de medalhas passavam pelos testes. Assim, eles escaparam das 
medalhas e do desmascaramento.

O único halterofilista que passou no teste esforçou-se ao máximo e ganhou 
três medalhas de ouro. Tornou-se o primeiro usuário de drogas a descobrir 
que é possível passar no teste num dia e ser reprovado no outro. Traços da 
droga permanecem nas gorduras do corpo, e passam para a urina em 
concentrações variáveis. O gráfico da limpeza do corpo não é uma reta linear 
para baixo. Apresenta um contorno irregular nos últimos dias, e quando o 
ganhador das medalhas forneceu a amostra da sua urina, o teste acusou traços 
de drogas. Ele perdeu as três medalhas.

Sua vergonha se diluiu num escândalo ainda maior. Pelo menos uma dúzia de 
atletas chegou a Venezuela, ficou sabendo do risco, deu meia volta e 
retornou aos EUA. Nem chegaram a pisar no estádio.

A história não acabou aí. Os atletas fugiram porque tinham certeza de que 
não passariam nos testes e seriam desmascarados. Muitos deles, contudo, 
tinham competido no Primeiro Campeonato Mundial de Atletismo em Helsinque, 
havia duas semanas, quando seus corpos tinham índices ainda maiores de 
esteróides. Nenhum resultado positivo foi anunciado na Finlândia. Era 
inacreditável.

O dr. Donike também estava responsável pelo controle de doping em Helsinque, 
e usara o mesmo equipamento lá. Dias depois dos testes, foi encaixotado e 
remetido para Caracas. Havia apenas uma diferença significativa entre os 
dois eventos. O campeonato de Helsinque foi o primeiro evento de porte da 
IAAF. Era a primeira leva dos milhões de dólares que começavam a inundar o 
esporte mundial. Foi anunciado que não houve nenhum teste positivo em 
Helsinque.

Há poucas dúvidas de que o evento da IAAF em Helsinque foi um campeonato de 
vários drogados. O jornalista John Rodda comentou no Guardian de Londres: 
"Havia dúvidas e suspeitas sobre a maneira como alguns atletas chegaram ao 
auge. A alta incidência de contusões causou profunda preocupação. A suspeita 
de que as contusões podem ter sido provocadas pela pressão excessiva sobre o 
corpo, resultado do uso de drogas, nunca foi abertamente discutida."

Um ano depois de Helsinque, o corredor norte-americano dos 400m, Cliff 
Wiley, afirmou: "Pelo menos 38 testes deram positivo, dos quais 17 eram 
norte-americanos. Mas os atletas eram tão importantes que os organizadores 
não tiveram coragem de acusa-los."

A história de Caracas e Helsinque foi revelada pelo dr. Robert Voy. 
Especialista em medicina esportiva, tornou-se chefe da equipe médica do USOC 
em 1984. O dr. Voy criou vários problemas. Ele não queria entrar para o 
Clube. Lutou contra o encobrimento e fez campanha pelo fim das drogas no 
esporte. Renunciou a seu cargo em 1985, quando o USOC cortou seu orçamento.

"O IAAF deve ter alterado os resultados em Helsinque", disse o dr. Voy, que 
reserva sua crítica mais contundente para o presidente do atletismo, Primo 
Nebiolo: "Não tenho dúvidas de que, pelo menos em 1983, o presidente não 
exigiu testes honestos e rigorosos em Helsinque."

O presidente e o conselho da IAAF promoveram uma reunião três meses depois 
de Helsinque, e anunciaram que lançariam um programa rigoroso de testes 
aleatórios, sem anúncio prévio. Isso foi amplamente divulgado, e o público 
se tranqüilizou. Os trapaceiros seriam intimidados, deixariam o esporte ou a 
droga. O programa parecia muito convincente. Nunca foi colocado em prática.

O fato da IAAF enganar o público já era muito ruim. O comitê olímpico dos 
EUA foi mais longe ainda. Faltando um ano para os Jogos Olímpicos de 1984, 
dedicaram-se a ensinar à delegação como enganar os testes anti-doping. 
Lançaram um programa eufemisticamente voltado para "testes anti-doping 
educacionais e não punitivos", num laboratório credenciado pelo COI na 
Califórnia, montado para as Olimpíadas.

Oficialente, o esquema se destinava a familiarizar os atletas com os 
procedimentos nos testes antes das Olimpíadas. Era uma piada escabrosa. 
Pouca gente precisava de treinamento para urinar num vidro. Para os usuários 
de drogas, o programa caiu do céu. Correram para o laboratório, aprendendo 
exatamente em quanto tempo seu corpo se livrava dos traços de esteróides. As 
doações espontâneas de pessoas e empresas, feitas ao USOC para preparar os 
atletas para os Jogos, acabaram servindo para estimular as trapaças dos 
atletas. Nenhum norte-americano foi flagrado nas Olimpíadas de Los Angeles. 
Entre os estrangeiros, 14 não passaram nos testes.

Nem todos os dirigentes norte-americanos participaram deste escândalo. 
"Quando soube do programa de testes pré-olímpico do USOC, destinados a 
ensinar aos atletas maneiras mais eficientes de driblar os testes oficiais", 
disse a técnica Pat Connolly, da equipe feminina, para o comitê de 
investigação do senado, "eu me senti traída, como uma criança abandonada 
pelos pais."

Os Jogos de Los Angeles deram mais indicações da importância conferida pelo 
presidente do atletismo, aos flagrantes de doping. O escândalo mais famoso 
de 1984 foi a saída do finlandês Martti Vainio minutos antes da largada dos 
5 mil metros rasos. Enquanto os corredores alinhavam-se na pista, chegou a 
notícia de que o teste anti-doping de Vainio, realizado após a conquista da 
medalha de prata nos 10.000m, dias antes, dera positivo.

Um dos juízes técnicos, Fred Holder, da Inglaterra, pediu a Vainio que se 
retirasse. "Vainio saiu sem discutir, abandonando a pista imediatamente", 
Holder contou em entrevista. "Mais tarde, o presidente do atletismo ficou 
furioso. Insistiu que apenas o conselho da IAAF poderia tomar uma decisão 
dessas."

O conselho só se reuniria novamente depois do encerramento dos Jogos, e 
suspeitava-se que o presidente do atletismo planejava anunciar a 
desclassificação de um ganhador da medalha de prata após o final das 
Olimpíadas, quando a atenção da mídia seria relaxada. Um dirigente da IAAF 
disse: "Isso foi uma besteira típica do presidente do atletismo. Mostrou sua 
falta de experiência, sempre tentando esconder um problema."

Vainio comentou mais tarde: "Acho que havia outros. Fui o único considerado 
culpado. Concordo com minha punição, mas quantos atletas deveria haver neste 
barco?" Mais tarde revelou-se que o teste de Vainio na maratona de Roterdam, 
dois meses antes, dera positivo. Os dois resultados deveriam implicar no 
banimento do atletismo. Mas ele só foi acusado pela falta nas Olimpíadas, e 
suspenso por apenas 18 meses.

Os escândalos se sucediam, sem parar. Depois dos Jogos de Los Angeles, o 
evento internacional seguinte era o segundo Campeonato Mundial de Atletismo 
em Roma. O grande logro de 1987 foi o salto de Evangelista, mas a tolerância 
ao doping foi igualmente triste.

No final do campeonato Nebiolo, de olho na bolsa dos patrocinadores, afirmou 
que promovera um campeonato "livre de drogas". Era quase inacreditável que 
um dirigente esportivo veterano negasse tão cinicamente um fato reconhecido 
por cada atleta, técnico e jornalista.

Um dos "triunfos" do campeonato foi o novo recorde dos 100 metros rasos, por 
Bem Johson. Um membro do COI, presente ao campeonato, declarou em uma 
conversa particular: "Os dirigentes da equipe canadense tremeram até o 
momento em que Ben Johnson passou no teste." Que Johnson tomava drogas era 
um segredo de araque no0 mundo do esporte, mas o público não sabia. Pelo 
jeito ele administrou bem o período de descontaminação antes de seguir para 
Roma.

Carl Lewis, segundo colocado, atrás de Johnson, declarou em entrevista para 
a televisão: "Há ganhadores de medalhas de ouro neste campeonato que 
certamente tomam drogas. A prova dos 100m ficará na história, por mais de um 
motivo. Se eu tomasse drogas, poderia fazer 9.8 agora mesmo."

Quando os repórteres questionaram Nebiolo sobre as acusações de Carl Lewis, 
a melhor resposta que ouviram foi: "Ele deveria fazer um relatório a 
federação norte-americana". Duas semanas depois de quebrar o recorde, 
Johnson foi recebido em audiência no Château de Vidy, pelo presidente do 
COI.

Se o comportamento público de Nebiolo à frente da IAAF irritou os 
observadores, a verdade sobre a federação italiana, que ele presidia também, 
deixaria todos sem fala. Bem Johnson e outros trapaceiros de Roma se dopavam 
secretamente. Na Itália a situação beirava o inacreditável: as maiores 
estrelas do atletismo passavam por doping com sangue e programas de 
esteróides organizados e pagos pela FIDAL (Federação Italiana de Atletismo) 
de Nebiolo.

Desde o início da década de 1980 a federação italiana estimulava o doping 
com sangue. Meses antes de um evento importante, um atleta doava meio litro 
de sangue. As células vermelhas, que transportam o oxigênio, eram extraídas 
e injetadas novamente na véspera da competição. Como o corpo providenciara a 
reposição das células no intervalo, o resultado era uma quantidade maior de 
células vermelhas, e mais oxigênio nos músculos, durante as provas. 
Acreditava-se que um corredor poderia diminuir seu tempo nos 5 mil metros em 
cinco segundos.

Esta prática só foi proibida pelo COI no final da década de 1980, mas sempre 
a consideraram imoral. Isso não incomodava a federação de Nebiolo. Um de 
seus assessores técnicos, dr. Francesco Conconi, era professor de bioquímica 
na Universidade de Ferrar.

Não resta dúvida de que o líder do atletismo italiano estava informado da 
situação. No dia 10 de junho de 1983, Conconi escreveu a Nebiolo:

"Caro presidente, a pesquisa nos últimos três anos permitiu o 
aperfeiçoamento de tecnologias superiores àquelas utilizadas em Moscou em 
1980, Iugoslávia em 1981 e Atenas em 1982."

O trabalho preparatório para Los Angeles, com os atletas que participarão do 
programa, levará quatro meses. Precisamos inicia-lo antes de 1 de novembro 
de 1983. As tecnologias que pretendemos utilizar, implicam em execução longa 
e laboriosa, e o programa resultante será muito complexo".

Vários atletas presentes a Los Angeles passaram pelo doping com sangue. A 
teoria não funcionou na prática, e as medalhas extras não se materializaram. 
Depois dos Jogos, alguns documentos vazaram ara a imprensa italiana e o 
escândalo foi revelado.

O doping com sangue era questionável, porém legal na época; os esteróides 
não. Isso não deteve a FIDAL em seu desespero de conseguir medalhas, 
aplausos na Itália e mais contratos de patrocínio.

Na véspera da partida da equipe italiana ara a Olimpíadas de Los Angeles, o 
técnico de corridas Sandro Donati e um colega entraram no escritório do 
departamento técnico da FIDAL e tropeçaram em uma caixa de papelão coberta 
de rótulos dos EUA. Eles a abriram e encontraram mais de mil frascos de 
esteróide. Cada frasco continha 100 pílulas de 5 mg. Provinham de uma 
empresa de Nova York, e na caixa havia um aviso: "Somente com receita 
médica."

As drogas eram administradas sob supervisão de um funcionário da FIDAL em 
tempo integral. Ele executou seu trabalho metódica e burocraticamente, 
insistindo com todos os atletas em tratamento para que assinassem um termo 
de compromisso. A primeira versão, manuscrita, foi encontrada nos arquivos 
da FIDAL, e dizia:

Eu...........(nome do atleta), declaro que desejo realizar terapia com o 
esteróide anabolizante..........(nome da droga), em adição ao meu 
treinamento. Faço isso por minha escolha e assumo a responsabilidade.

A FIDAL considerou esta redação muito explícita, e a trocou por uma versão 
mais branda:

Eu, ...........(nome do atleta), declaro que por minha livre e espontânea 
vontade desejo me submeter a terapia médica e remédios sugeridos pelos 
médicos da FIDAL. Serei informado da dosagem, possíveis efeitos colaterais e 
reações adversas, além de informações sobre sua possível e eventual toxidez.

Donati desafiou Nebiolo pessoalmente, e finalmente o confrontou. "Você 
precisa ter uma visão mais ampla das atividades da federação", explicou o 
presidente. "Eu dedico muito esforço à promoção do atletismo. O esporte 
tinha um perfil muito baixo na mídia e junto ao público. Temos um grande 
circo, e se esticarmos demais a lona, o teto vai cair. Precisamos olhar o 
conjunto, não um só aspecto. Não queremos que o teto caia."

O teto desabaria nas Olimpíadas de Seul. Pouco depois de congratular Bem 
Johnson pelo recorde dos 100m em Roma, Samaranch declarou à imprensa: 
"Garanto a todos que podem ficar tranqüilos, pois seremos muito firmes na 
questão do doping. Trata-se de um tipo de fraude que não podemos tolerar." 
Os fraudadores sabiam que não tinham muito a temer, e quando a primavera de 
1988 deu lugar ao verão, dedicaram-se a tomar sua pílulas e injeções.

A primeira pista surgiu em maio. Um dos primeiros eventos importantes da 
temporada era o Gatorade Classic, em Knoxville, no Tennessee. Quando 
anunciaram que havia testes anti-doping, muitos competidores desisitiram. Só 
um dos oitos lançadores de disco apareceu, e um conhecido astro do salto 
triplo cancelou sua participação.

O mesmo ocorreu no Pepsi Classic, realizado uma semana antes das 
eliminatórias norte-americanas para as Olimpíadas. Ali também houve controle 
de drogas. Faltaram tantos atletas que as provas de lançamento de peso e 
disco foram canceladas.

As eliminatórias para as Olimpíadas foram disputadas em julho, em 
Indianápolis. Mais uma vez, levantou-se a suspeita de que os trapaceiros 
estavam usando drogas, pois precisavam se classificar para Seul. A prova 
estava nos oito atletas com resultados positivos no teste da planta que 
produz efedrina, um conhecido agente mascarador de esteróide. Eles foram 
inocentados porque a efedrina também pode ser encontrada em algumas 
vitaminas. Um desses atletas inocentados foi Carl Lewis

Um ano mais tarde a maratonista australiana Lisa Martin afirmou que 17 
atletas tiveram resultados positivos nas eliminatórias olímpicas dos EUA. 
Seu empresário declarou que ela compareceu a um encontro depois das 
eliminatórias, quando os atletas foram avisados: "Em Seul os testes serão 
para valer."

As eliminatórias nos EUA apresentaram outra sensação: Flo-Jo, a corredora 
Florence Griffith-Joyner, cuja carreira anterior não registrava maiores 
feitos. A edição de 1987 da Track & Field News não a listava entre as dez 
mulheres mais rápidas do mundo, e a colocava em sétimo lugar no ranking 
norte-americano. Mesmo assim em um ano, como comentou venenosamente o 
treinador de Bem Johnson, Charlie Francis, "ela é uma aberração histórica na 
curva de performance, seus tempos estão cinqüenta anos a frente." Ela ganhou 
três medalhas de ouro em Seul, quebrando dois recordes mundiais.

Carl Lewis e outro atleta destacado levantaram a questão do uso de drogas. 
Um jornalista do Times de Londres perguntou: "Seria ela um hermafrodita 
drogado?" Em novembro de 1991 Griffith-Joyner declarou aos jornalistas que, 
embora "não quisesse perder tempo e dinheiro em um processo", ela iria 
"pegar Lewis".

Depois dos Jogos de Seul, a revista Stern publicou uma declaração do antigo 
campeão norte-americano dos 400m, Darrel Robinson, que ela havia pago US$ 2 
mil por um frasco de 10 cc de HGH - hormônio de crescimento humano. Na 
televisão ela o chamou de "lunático maluco mentiroso". Flo-Jo passou por 
todos os testes anti-doping que realizou. Entretanto, ainda não existe um 
teste confiável para o HGH.

Bem Johnson foi a melhor notícia para o COI e a IAAF nos anos 1980. 
Finalmente podiam exibir um novo "homem mais rápido do mundo". Os recordes 
mundiais de Johnson em Roma e Seul emocionaram o público e os 
patrocinadores. Samaranch e Nebiolo pegaram carona no sucesso dele.

Johnson enfrentava problemas ao se preparar para Seul. Sua equipe descobriu, 
no final de 1987, que depois de três anos de doping com hormônios, seu peito 
esquerdo crescera muito. Ele estava virando mulher! Isso não foi revelado ao 
público canadense, que recebia garantias dos dirigentes nacionais: o esporte 
ali era limpo, porque os testes aleatórios haviam sido anunciados. 
Anunciados sim, realizdos não. Sempre havia uma desculpa para o adiamento. 
Johnson estava pronto para levar mais glória e dinheiro aos dirigentes de 
Seul.

Os preparativos de Johnson para as Olimpíadas foram pertubados por uma 
contusão, mas seu programa de doping prosseguiu inabalável. No final de 
agosto ele começou a última série de duas semanas de doping, antes de Seul. 
Teria 13 dias até o torneio de aquecimento, em Tóquio, sem testes, e depois 
iria para Seul, rezando para que seu corpo tivesse eliminado todos os sinais 
de esteróides. Estava enganado.

O COI contestou as suspeitas de que teria preferido abafar o caso, evitando 
um escândalo que assustaria os patrocinadores. Resta o fato de que alguém 
dentro do laboratório de teste do COI ficou tão preocupado com o possível 
ocultamento que vazouo resultado para a imprensa.

Se pode haver algo mais sórdido no esporte do que a "exclusão" de Johnson 
como usuário de drogas, foi a reação do COI e da IAAF à questão da nova 
entrega de medalhas. Dois anos antes o atleta russo Vladislav Tretyak disse 
na cara de Samaranch: "Quando um competidor ganha uma medalha e é 
desclassificado, o vencedor real deve receber as honras que merece - o que 
normalmente nçao acontece."

Não aconteceu em Seul, tampouco. A exigência de Tretyak foi ignorada quando 
Johnson perdeu a medalha. Limitar os estragos era a ordem do dia. O 
escândalo já prejudicara demais a imagem e o valor econômico dos Jogos. A 
última coisa que o nervoso presidente desejava era divulgar o desastre 
através de uma segunda cerimônia pública de entrega de medalhas.

Samaranch olhou para o outro lado enquanto Nebiolo restringia a cerimônia de 
premiação de Carl Lewis, Linford Christie e Calvin Smith com suas novas 
medalhas a seu escritório fechado, no estádio de Seul. "Não haverá cerimônia 
especial", declarou a porta-voz do COI, Michele Verdier. "É uma regra da 
IAAF".

Bem Johnson cometeu três erros graves em sua juventude: tomou esteróides, 
foi flagrado e exigiu um inquérito para limpar seu nome. O governo canadense 
o atendeu, nomeando o juiz Charles Dubin para chefiar a comissão de 
inquérito. As provas foram trazidas a público, sob juramento, durante o ano 
de 1988, em Toronto. Tornou-se uma das investigações mais completas já 
realizadas no esporte moderno.

Se o governo canadense não abrisse o inquérito, não haveria investigação do 
caso Johnson. O escândalo teria sido rapidamente esquecido num canto. O 
público poderia ficar sossegado, tudo não passava de uma tragédia pessoal 
restrita a Johnson. Dubin logo mostrou que estas afirmativas não passavam de 
absurdos perniciosos.

Nas audiências ficou claro que todas as pessoas importantes no atletismo 
canadense e mundial sabiam que membros da equipe do técnico Charles Francis, 
Johnson inclusive, pertenciam à "irmandade da agulha". Contudo, nenhum 
dirigente rompeu fileiras e protestou quando Johnson passou em um teste após 
outro, de doping, limpeza e provas com testes, Johnson conseguiu passar por 
19 testes em dois anos, antes dos Jogos de Seul.

Dubin examinou as declarações do COI e da IAAF, a respeito da eficácia dos 
testes anti-doping durante as competições, tidos como capazes de reprimir 
fraudes, e confrontou as declarações com os depoimentos obtidos. Ele chamou 
testemunha após testemunha, e muitos admitiram que usavam drogas ou estavam 
envolvidos no fonecimento de drogas a atletas.

Tendo revelado a abrangência do doping, Dubin arrasou com a afirmação, usada 
desde os Jogos de 1968, de que o pequeno número de resultados positivos nos 
testes "provava" que o doping era um mal menor. Ele mostrou o óbvio; nas 
palavras do inglês Sir Arthur Gold, "só os descuidados ou mal orientados são 
descobertos".

Implacavelmente o juiz canadense destruiu os mitos impostos pelos 
presidentes esportivos com o passar dos anos. Dubin compreendeu de que a 
maneira o público fora iludido. Ele mergulhou nas estatísticas exibidas pelo 
COI para provas que apenas um punhado de competidores usava drogas. Segundo 
Dubin, elas foram "usadas de modo enganoso, nas diversas tentativas de 
mostrar que o abuso de drogas ocorria apenas com uma pequena porcentagem dos 
atletas. Esta preocupação com as aparências, e não com a essência, é um tema 
contínuo nas provas."

O sueco responsável pela comissão médica da IAAF, Arne Ljungqvist, enfrentou 
fogo pesado. Ljungqvist é uma figura de destaque no atletismo sueco e 
mundial. Dubin notou que Ljungqvist  arfimou: " Os Jogos em Seul não podem 
ser considerados as Olimpíadas da droga. Cerca de 1600 atletas foram 
examinados, e surgiram dez resultados positivos. O problema em Seul foi que 
um dos atletas dopados se chamava Bem Johnson."

Dubin retrucou em seu relatório: "O dr. Ljungqvist e outros sabem que os 
testes durante as competições não pegam todos os atletas culpados. Mesmo 
assim, usam os resultados durante as competições para medir a extensão do 
doping em Seul. As provas constantes deste inquérito provam que os atletas 
flagrados em Seul não eram os únicos usuários de drogas, apenas os únicos 
que foram identificados."

O juiz prosseguiu: "O dr. Ljungqvist desvia a atenção para os testes 
positivos, e deixa de lado o problema real do doping no esporte. O público 
em geral foi levado a acreditar que se um único atleta teve resultado 
positivo, os outros não usavam drogas. Sabemos agora, como o COI e a IAAF 
sabe há anos, que esta presunção é falsa".

As bases para as críticas de Dubin foram: em 1985 a IAAF anunciou que as 
federações iniciariam testes anti-doping fora das competições, e que a IAAF 
realizaria testes arbitrários em campeonatos nacionais. "Pouco ou nada foi 
feito para implantar esta decisão", comentou Dubin.

Havia mais: "A IAAF também tinha poderes para delegar a realização de testes 
às federações. Contudo, dos 184 países membros da IAAF, poucos tinham um 
programa de testes fora das cmpetições, em setembro de 1988. Sendo assim, a 
regra nunca foi cobrada."

Finalmente o público ouvia a verdade sobre a federação de Nebiolo. 
"Infelizmente não usou sua influência de modo mais significativo para 
erradicar o problema das drogas do atletismol. A postura da IAAF parece ser 
a de reagir ao problema somente depois dos acontecimentos. A comissão médica 
da IAAF sabe, desde sua fundação, que apenas os testes durante as 
competições não constituem métodos eficazes de detectar esteróides, nem 
desencorajam eficientemente o uso de esteróides."

Dubin concluiu que só há uma maneira de limpar as Olimpíadas. Ele sugere que 
o COI impeça a participação de qualquer federação nacional que não organize 
e implemente efetivamente um programa eficaz de controle de doping. Dubin 
deu o tom para Barcelona.

O relatório Dubin deveria ter revolucionado o esporte mundial. Foi 
ingnorado. A palavra "Dubin" aparentemente entrou na lista negra do COI 
Review e da IAAF Review. Apenas o Canadá, Austrália e os países nórdicos 
possuem programas independentes de testes aleatórios, amparados pela lei e 
executados por organismos escolhidos pelo governo. As federações esportivas 
perderam seus poderes nestes países. Pode-se pensar que as federações 
internacionais ficaram satisfeitas com esta política, pois aumentaria a 
confiança do público na limpeza do esporte, finalmente.

Não é este o ponto de vista do dr. Nebiolo. Em julho de 1991 a IAAF enviou 
novas instruções a todos os seus membros, no mundo inteiro.
"Alguns governos nacionais criaram Agências Nacionais Anti-Doping, 
responsáveis pelo controle do doping no esporte. Percebemos, com alguma 
preocupação, que estas agências assumiram o controle total dos assuntos de 
doping, nos países respectivos, e que os procedimentos adotados contrariam 
as Regras da IAAF. A Comissão de Doping da IAAF acredita que os países 
membros devem efetuar todos os esforços para recuperar o controle."

Outro ponto dava impressão de ser mais uma tentativa de voltar o relógio. 
Sempre se suspeitou que os dirigentes do atletismo eram muito seletivos ao 
escolher atletas para os testes, preferindo competidores que sabiam estar 
"limpos" e ignorando os dopados. Em outra carta, havia uma recomendação para 
que os dirigentes nacionais tentassem recuperar a prerrogativa de escolher 
quem seria testado.

A milionária IAAF finalmente iniciou os testes com seu "grupo móvel". No 
primeiro ano, a partir de maio de 1990, conseguiram testar apenas 113 
atletas em todo mundo. Nenhum teste deu positivo, e nenhum teste foi 
realizado em cidadãos norte-americanos. Há questões relativas a liberdade 
civis nos EUA, no que diz respeito a testes aleatórios. Nebiolo não pretende 
dizer aos norte-americanos, patrocinadores tão ricos, que têm direito de não 
fazer os testes - e que os demais têm o direito de excluí-los das 
competições. Vale lembrar que muitos atletas norte-americanos desejam a 
implantação dos testes.

Apesar da contundência dos comentários de Dubin, apesar da ignomínia que o 
escândalo Johnson deveria ter representado para Nebiolo e seu conselho da 
IAAF, apesar do atletismo ter fracassado na erradicação do doping, eles 
ainda desejam o direito de controlar os testes anti-doping. Mau sinal para 
Barcelona.

O COI e a IAAF tentam minimizar a doença que ataca o esporte. No final de 
1988, em Lausanne, o presidente Samaranch declarou sem rodeios: "O COI está 
ganhando a guerra contra as drogas." Um de seus planos largamente divulgados 
previa um "laboratório voador" do COI, para realizar testes ao acaso. 
Custaria, segundo estimativas, U$ 1 milhão para ser montado, e mais U$ 500 
mil anuais para operar. Parecia impressionante. A polícia anti-doping do COI 
circulando pelo mundo, mergulhando para atacar os malvados. Como sempre, era 
só aparência, sem essência. Dezoito meses depois o COI, que está gastando U$ 
40 milhões em um novo museu olímpico em Lausanne, discretamente cancelou o 
projeto, por falta de verbas.

Mais incrível ainda, Samaranch e Nebiolo anunciaram que depois de completar 
dois anos de suspensão, Bem Johnson seria bem-vindo na Olimpíada de 
Barcelona. O cinismo não tem fim. Um atleta que tomou drogas por quase dez 
anos, calculava suas doses para evitar um flagrante, e que mentiu ao ser 
desmascarado, estava sendo encorajado a contribuir com sua moralidade 
duvidosa para as Olimpíadas.

Houve uma certa gritaria dos dirigentes esportivos internacionais. Muitos 
seguiram a linha oficial, e declararam que Johnson já fora suficientemente 
punido e agora merecia o perdão.

Na metade de 1988, a fundação atlética de Nebiolo patrocinou um simpósio 
sobre doping em Monte Carlo. Os encarregados de testes e dirigentes 
esportivos presentes ouviram uma interessante declaração do único dos 
presentes que não era cientista, o ex-técnico inglês Ron Pickering: "Nenhum 
presidente pode dizer que temos Jogos sem drogas, só porque não houve 
resultado positivos identificados - ou divulgados, nenhum presidente deveria 
dizer que Bem Johnson é bem-vindo nos próximos Jogos. Seria pura hipocresia 
aceita-lo de volta, quanto mais considera-lo bem-vindo." A intervenção de 
Pickering representou um sopro de ar fresco no simpósio, no mais 
complacente.

O principal consultor do Inquérito Dubin foi o QC Robert Armstrong. Em 1991, 
discursando em uma conferência anti-doping, ele repassou as descobertas 
feitas em Toronto, sobre a maneira como os dirigentes internacionais 
enganavam o público quando o tema era doping. Ele insistiu no ponto de que 
os testes durante os eventos eram inúteis para determinar o uso de drogas.

Lamentou também, após as audiências de Biden nos EUA, "que as provas tenham 
recebido tão pouca atenção por parte do COI e da IAAF, algo surpreendente." 
Ele resumiu o estilo de liderança de Nebiolo, dizendo que no passado o 
presidente da IAAF "parecia se satisfazer com pouco mais do que exercícios 
de relações públicas."

Depois criticou o COI: "Eles não têm motivos para ficarem orgulhosos ou 
satisfeitos com suas realizações. A comissão médica sabe há anos que os 
testes na hora da competição são pura perda de tempo no caso dos 
esteróides."

Armstrong concluiu: "Há uma falha na liderança de nossas organizações 
esportivas, a nível nacional e internacional. Nossos líderes esportivos nos 
decfepcionaram."


Nilson Duarte Monteiro

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