[Cevdopagem] Venda de remédios para déficit de atenção e hiperatividade cresce 940% em quatro anos

Darwin Ianuskiewtz darwin.cev em gmail.com
Domingo Janeiro 15 14:43:07 BRST 2006


Nos últimos anos, uma explosão no uso das "drogas da obediência" vem
ocorrendo no Brasil. Indicadas para crianças com hiperatividade ou
déficit de atenção, esses medicamentos vêm causando polêmica e
dividindo especialistas. Há quem veja um excesso de prescrições.
Em apenas quatro anos, a venda dos medicamentos aumentou 940%. Em
2000, foram vendidas 71 mil caixas. Em 2004, 739 mil. Os dados são do
Instituto Brasileiro de Defesa dos Usuários de Medicamentos,
levantados com base no ""IMS-PMB" -publicação suíça que contabiliza
dados do mercado farmacêutico mundial.
Os números são confirmados pela Agência Nacional de Vigilância
Sanitária, a Anvisa, que controla as vendas, já que o remédio exige
receita. Segundo a agência, o número de caixas vendidas entre 2003 e
2004 cresceu 51%.
A "droga da obediência" acalma crianças agitadas e faz com que as sem
concentração se fixem no que fazem. Ela foi criada para tratar
portadores do transtorno de déficit de atenção e hiperatividade
(TDAH), que atinge de 3% a 5% de crianças no país.
O crescimento nas vendas, no entanto, não é visto com bons olhos por
todos. Uma parte dos médicos defende que seja reflexo do aumento de
diagnósticos de crianças com um dos desvios. Outra, que há prescrição
exagerada.
Para o coordenador do ambulatório de TDAH infantil do HC-SP, Ênio de
Andrade, as crianças não estão usando medicação em excesso. "A maioria
não toma remédio. Ele só é indicado quando o grau de prejuízo que o
transtorno causa à criança é grande."
Não há estatísticas, segundo os especialistas, de quantos portadores
usam o remédio. Para o presidente da Associação Brasileira de Déficit
de Atenção, Paulo Mattos, psiquiatra da UFRJ, ainda é um número
pequeno. "O crescimento das vendas ocorreu porque o diagnóstico
aumentou. Pais e professores estão mais informados e agora buscam
ajuda."
Laís Valadares, do departamento científico da Sociedade Brasileira de
Pediatria, discorda. "Está havendo excesso de diagnóstico e de
medicação. Talvez pais e professores não estejam conseguindo colocar
limites, e as crianças ficam hiperativas. O que não quer dizer que
sejam TDAH", afirma. "É preciso cuidado. Tem criança de quatro anos
tomando remédio para quem tem mais de sete."
Professora de pediatria da Unicamp, Maria Aparecida Moysés, co-autora
de ""Preconceitos no Cotidiano Escolar - Ensino e Medicalização",
também condena a prescrição sem critérios. "É um absurdo. Esse
processo de medicalização acaba sendo um alívio para pais e
professores. É mais fácil lidar com um problema "médico" do que mudar
o método de educação da criança."
Ela lembra, ainda, que boa parte das crianças diagnosticadas TDAH nem
sequer tem a doença. Um estudo da Faculdade Ruy Barbosa (BA) com 101
portadores mostrou que 58% tomavam remédios, mas apenas 20% tinham o
transtorno. "O diagnóstico errado prejudica a criança, principalmente
se for medicada", diz. A maioria dos especialistas garante que a droga
não cria dependência química, desde que administrado corretamente, mas
pode causar dependência psicológica.
Essas drogas são estimulantes que fazem a região frontal do cérebro
(responsável pela concentração e controle das atividades) funcionar.
Geralmente, professores identificam primeiro os sintomas do TDAH. "O
problema se torna evidente na escola porque é onde a criança precisa
se concentrar", diz a presidente da Associação Brasileira de
Psicopedagogia, Maria Irene Maluf. "Educadores experientes podem
perceber os sinais e alertar os pais, mas jamais sugerir um remédio.
Isso é somente para o médico."



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