Re: [Cevdopagem] O que é ética [1] ?

Sabino Vieira Loguercio sabino em terra.com.br
Sábado Agosto 27 00:28:23 BRT 2005


Desculpe-me, Álvaro, mas não entendi suas colocações.
Não creio que alguém construa uim juízo próprio que seja universalmente 
aplicável.
Minhas divergências com a WADA não repousam na circunstância de que eu tenha 
uma posição e ela outra. Todos nós concordamos que o esporte deve primar 
pela lealdade entre os competidores e, portanto, o doping  legitimamente 
configurado é um dano irreparável ao "fair play".

O grande problema é saber quando há ou não doping. Os métodos que eles 
utilizam não ferem somente a ética universal consolidada em definições e 
princípios. Eles atentam contra a organização biológica dos seres humanos, 
cuja intimidade nós ignoramos a cada novo momento em que nossas convicções 
são abaladas por novo surto de conhecimento científico que anula a certeza 
anterior.

O antidoping fora da competição só tem sentido se não for punitivo. 
Justamente a minha luta é para que haja um acompanhamento seguro dos 
atletas, mas de caráter clínico-laboratorial. Essa posição afasta a 
necessidade de punir e protege com  muito mais acuidade e rigor a formatação 
igualitária do conteúdo físico entre os competidores.

Veja, por exemplo, o caso da THG, da BALCO, que tanta celeuma causou e ainda 
causa. Se é verdade que a THG foi fabricada para não ser apanhada pelo 
costumeiro teste antidoping, isso não aconteceria se houvesse uma observação 
clínico-laboratorial adequada. A THG poderia não aparecer na urina, mas OS 
EFEITOS DE SUA AÇÃO seriam detectados por outros testes, como por exemplo os 
da área endocrinológica. Qual seria o resultado prático? simples e evidente: 
o atleta que estivesse sofrendo os efeitos da substância seria retirado da 
competição sem alarde, por motivo de alterações orgânicas. Isso sim, Álvaro 
e demais listeiros, é PROTEGER a saúde do atleta e RESGUARDAR a lealdade da 
competição, ao contrário de submeter o indivíduo a um  massacre moral, 
físico e ético insuportável e indigno.

Meus argumentos não tentam desqualificar o juízo crítico de quem quer que 
seja. Se eu me arvorasse a tal desatino não seria digno de conviver com as 
pessoas de algum acervo intelectual. Mas os casos estão aí para comprovar 
que os métodos utilizados pelas entidades esportivas não consideram que o 
fenômeno doping ocorre no interior do organismo de um ser humano e que, 
portanto, constitui leviandade imperdoável submeter uma pessoa a um 
julgamento sem ter os meios de comprovação de seu delito. Quanto mais se 
avança no conhecimento científico, mais se sabe que cada organismo é um 
universo único. Os fatores que traduzem a individualidade dos seres humanos 
e MARCAM SUAS DIFERENÇAS devem-se a "fatores genéticos e não-genéticos, como 
idade, sexo, tamanho do fígado, função hepática, ritmo circadiano, 
temperatura corporal e fatores nutricionais e ambientais, como exposição 
concomitante a indutores ou inibidores do metabolismo de drogas (...) As 
diferenças individuais na taxa metabólica dependem da natureza da própria 
droga. Assim, NA MESMA POPULAÇÃO, OS NÍVEIS PLASMÁTICOS EM ESTADO DE 
EQUILÍBRIO DINÂMICO PODEM REFLETIR UMA VARIAÇÃO DE 30 VEZES NO METABOLISMO 
DE UMA DROGA E UMA VARIAÇÃO DE APENAS DUAS VEZES NO METABOLISMO DE OUTRA."

Isso que eu coloquei entre aspas é um texto da Dra. Maria Almira Correia, 
Ph.D., Professor of Pharmacology, Medicine, Pharmaceutical Chemistry and 
Biopharmaceutical Sciences, University od California, San Francisco, que 
escreve o capítulo sobre "Biotransformação de Drogas" no livro Farmacologia 
Básica & Clínica, de Bertram G. Katzung, MD. Ph.D., Professor Emeritus of 
the Department of Cellular and Molecular Pharmacology University of 
California, San Francisco.

Sei que nossas divergências são mínimas. Não pense que o texto acima teve a 
intenção de opor restrições definitivas ao seu raciocínio. O que pretendi 
foi deixar claro aos demais listeiros, mais ma vez, que eu não sou contra o 
antidoping. Quem abomina os métodos punitivos também não sou eu. Apenas 
expresso o que a ciência médica e farmacológica determinam como conseqüência 
de suas peculiaridades. Tenho esperança de que os homens da WADA e das 
demais entidades esportivas uim dia atentem para esse fato singular de que o 
doping acontece no interior do organismo ultra-organizado dos indivíduos e 
não num tubo de ensaio liso, inerte, sem vida, sem atrito interno, com duas 
aberturas iguais em cada extremidade, de tal forma que se possa recuperar na 
parte de baixo, com variações previsíveis, o que entra na parte de cima.

Um renovado abraço e cumprimentos pelo seu labor infatigável.

Sabino


----- Original Message ----- 
From: "Alvaro Ribeiro" <alvaro em cev.org.br>
To: "Abordagem interdisciplinar da dopagem" <cevdopagem em listas.cev.org.br>
Sent: Friday, August 26, 2005 4:40 PM
Subject: Re: [Cevdopagem] O que é ética [1] ?


> Pessoal, Sabino
>
>  Responder a pergunta-título tal qual ela
> foi posta pelo Sabino seria tão pretencioso e
> arriscado como covarde não tentar. Há
> divergências, em outras palavras.
>
>  Fico com uma abordagem de síntese de
> Singer[2], que me faz supor não ser ético
> utilizar argumentos de desqualificação
> na sustentação das teses [3] da WADA, as quais
> não reputo éticas - ressalte-se. Capisce?
>
>   Um abraço a todos, Alvaro
>
> --------------
> [1] Ética na 'rede' a partir de
> <http://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%89tica>
> é um bom começo.
>
> [2] De todas as abordagens da Ética, para Singer
>
> (1993, p. 19) o que elas têm em comum é mais
> importante que suas divergências. Assim, "a
> ética se fundamenta num ponto de vista
> universal, o que não significa que um juízo
> ético particular deva ser universalmente
> aplicável", mas que, ao emitir-se juízos éticos,
> deve-se extrapolar eventuais preferências ou
> aversões para que se possa chegar ao juízo
> universalizável, "ao ponto de vista do
> espectador imparcial". E isto pressupõe a
> consideração eqüitativa de todos os interesses
> relevantes afetados por determinada decisão
> (ibid, pp. 19/20), ou, nas palavras de Kant
> (1991, pp. 84/85), "que possa ser tal máxima uma
> lei universal e, portanto, que a vontade, pela
> sua máxima, possa considerar-se a si própria ao
> mesmo tempo como universalmente legisladora".
>
> ver "código mundial antidoping: ética e fair
> play no esporte olímpico":
> <http://www.efdeportes.com/efd72/antidop.htm>
>
> [3] Argumentos falaciosos: um pequeno compêndio
> para evitar a compra de gatos por lebres:
> <http://www2.uol.com.br/aprendiz/n_colunas/f_litto/id021002c.htm#30>
> (Falácias 22 e 30)
>
>
>> Depende do que se entende por ética.
>
>
>
>
>
>
>
>
>
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