Afinal, o que é cibercultura?
Alex Lamikiz
Sinceramente não estou interessado em entrar em elucubrações intelectuais sobre
"O que é cibercultura?" A
esta altura todo mundo já deveria saber, e se não sabem perguntem aos
especialistas em
marketing. "Cibercultura é o novo estilo de vida que está sendo criado ao redor
da informática e da Internet",
responderão prontamente, sem dúvida.
Mas não sejam ingênuos. Quando falam desse assunto, os especialistas na "arte
de vender" não estão se
referindo a hackers e ativismo político, arte digital, publicações eletrônicas
independentes ou novas formas de
organização dos cidadãos. Eles não estão interessados nas possibilidades que as
novas tecnologias oferecem
para criar um tecido social m ais rico, descobrir novas formas de arte ou
favorecer a criação de meios
comunicação independentes.
Seu objetivo é captar e fidelizar a nova geração de consumidores: "A geração
digital", um coletivo que se
identifica abertamente com a tecnologia e que criou uma nova cultura em torno
dela.
A atitude vital desse grupo poderia ser resumida na seguinte afirmação: "Gosto
de tecnologia e me orgulho
disso. Algum problema?" E que melhor estratégia para seduzir esse coletivo do
que vampirizar os códigos da
cibercultura? É triste dizer isso, mas os bancos, as empresas de informática,
os operadores de telecomunicações
["os senhores do ar", em definição de Javier Echeverría] se apropriaram da
estética da cultura digital [a arroba, a
gíria internauta, os prefixos "e", "cibe r", o adjetivo "digital"...etc.].
Agora são eles quem ditam o que é ou não a
cibercultura.
e-Marketing
Seus departamentos de marketing perceberam que o prefixo "ciber" tem o poder
mágico de converter qualquer
mercadoria obsoleta em um produto "da moda": ciberjeans, cibersorvetes,
ciberbancos, ciberseguros, ciberlivros,
ciberseios, cibersexo...cibertudo! Os bancos agora são "ebancos", os telefones
WAP provocam "e-moções" e os
detergentes [perdão, ciberdetergentes] conseguem um branco digital. A palavra
cibercultura não é mais
associada aos ensaios de Timothy Leary, aos romances de William Gibson ou às
propostas antimarketing da
Adbusters.
Ela é identificada com os novos prazeres tecnológicos: ver horários de filmes
nos cinemas pelo celular, trabalhar
em uma paisagem paradisíaca com um notebook ou investir na Bolsa sem pagar
comissões graças à Internet. Ao
grande público, o que chegou foi uma versão "light" da cultura digital. Uma
visão ligada a produtos de consumo
de última geração.
O moderno agora é a mentalidade "ganhar.com". É preciso enriquecer o mais
rápido possível para desfrutar dos
últimos gadgets tecnológicos. O exemplo a seguir são os cibermilionários: Bill
Gates, Larry Ellison, Jerry Yang e
David Filo, ou, em sua versão latina, Wenceslao Casares, Juan Santaella ou
Paola Castro.
O que se esquece é que a cibercultura tem uma ideologia, ou, numa linguagem
mais jovem, uma "atitude", que
pode ser resumido na seguinte citação de Timothy Leary: "um cyberpunk é alguém
que sabe usar a tecnologia
para cri ar seu próprio material audiovisual e editar sua própria MTV em seu
Macintosh. Indivíduos que usam sua
inteligência não para ganhar dinheiro para uma grande empresa, mas para
enriquecer sua vida e suas relações
humanas".
Debates de salão
Se eu antes dizia que não estava disposto a entrar em elucubrações intelectuais
sobre "O que é cibercultura?" é
porque estou convencido de que não podemos perder tempo em debates de salão. É
hora de agir. É hora de
nos perguntarmos: a que aspira a cibercultura? ou, será que esse movimento vai
apenas se conformar com ter
criado os códigos estéticos que imperam nos primeiros anos do século XXI?
"Evitar que nós, cidadãos, acabemos convertidos em clientes". Este é o ob
jetivo que a cultura digital deve
perseguir hoje. É preciso retomar a advertência lançada por Aldous Huxley nos
anos 30. "Em uma época de
tecnologia avançada, o maior perigo para as idéias, a cultura e o espírito tem
mais chances de vir de um inimigo
de rosto sorridente do que de um adversário que inspire terror e ódio". E como
conseguiremos? Como se
desmascara o "inimigo de rosto sorridente"?
A tarefa é difícil mas não é impossível. Em primeiro lugar, é preciso
considerar que as multinacionais se
converteram em verdadeiras máquinas de sedução. Elas não apenas dispõem de
importantes recursos
financeiros para publicidade e marketing como também controlam os acionistas
dos principais meios de
comunicação.
Ponto fraco
Entretanto, elas têm um ponto fraco so bre o qual ainda não refletimos o
suficiente . Seus fundos provêm dos
consumidores. Somos nós quem decidimos em última instância quais produtos têm
êxito e quais não têm. O que
aconteceria se nós, cidadãos, empregássemos as novas tecnologias para organizar
grupos de pressão? Por que
não exigir das multinacionais um comportamento ético?
Chegou o momento de reivindicar o consumo "conciencioso". É preciso que nos
perguntemos o que há por trás
de campanhas como "Think different (pense diferente)", "Connecting People
(conectando pessoas)"
ou "Sabemos do que você gosta". Essas empresas exploram seus trabalhadores?
Pagam o mesmo salário a
homens e mulheres? Contaminam? Destinam parte de seus benefícios a projetos de
ajuda ao Terceiro Mundo?
Sonegam impostos? Tratam corretamente os dados que obtêm dos consumidores? Têm
programas de apoio às
minorias raciais?
É preciso dizer aos especialistas em marketing que o novo consumidor exige
ética, e não estética. Que não vão
enganá-lo com spots de TV sedutores, rostos bonitos, cores fosforescentes ou a
canção da hora. Que a partir de
agora ele exige algo mais. E se a cibercultura pode legar algo a esse movimento
é seu "know-how" para
organizar redes de cidadãos.
Uma das vantagens da Internet é que ela favorece notavelmente a conspiração.
Hoje, graças à "Rede", pode-se
conspirar comodamente do escritório ou da sala de estar contra a multinacional
da hora, o político corrupto ou a
instituição pertinente... Uma atividade certamente muitíssimo mais interessante
para o cidadão médio que ver
televisão. Neste sentido, é importante assinalar ressaltar o êxito do movimento
pró-Tarifa Plana na Espanha ou
da reunião de cúpula antiglobalização em Seattle. Dos movimentos de protesto
que deram certo na Internet e
graças a ela.
É hora de retomar o espírito "cyberpunk" (no sentido expresso anteriormente por
Timothy Leary) e dizer com
orgulho: "Gosto de tecnologia e a emprego para fazer valer os meus direitos..
Algum problema?"
:: Alex Lamikiz es editor de Bitniks, una revista digital de Internet y
Cibercultura (Espanha).
Marcela Moreira
www.cenaceara.com.br
marcela@xxxxxxxxxxxxxxxx
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