Afinal, o que eh cibercultura?

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Subject: Afinal, o que eh cibercultura?
From: "Marcela Moreira" <marcela@xxxxxxxxxx>
Date: Sun, 31 Aug 2003 18:29:20 -0300
Afinal, o que é cibercultura? 
Alex Lamikiz
Sinceramente não estou interessado em entrar em elucubrações intelectuais sobre 
"O que é cibercultura?" A 
esta altura todo mundo já deveria saber, e se não sabem perguntem aos 
especialistas em 
marketing. "Cibercultura é o novo estilo de vida que está sendo criado ao redor 
da informática e da Internet", 
responderão prontamente, sem dúvida.
Mas não sejam ingênuos. Quando falam desse assunto, os especialistas na "arte 
de vender" não estão se 
referindo a hackers e ativismo político, arte digital, publicações eletrônicas 
independentes ou novas formas de 
organização dos cidadãos. Eles não estão interessados nas possibilidades que as 
novas tecnologias oferecem 
para criar um tecido social m ais rico, descobrir novas formas de arte ou 
favorecer a criação de meios 
comunicação independentes. 
Seu objetivo é captar e fidelizar a nova geração de consumidores: "A geração 
digital", um coletivo que se 
identifica abertamente com a tecnologia e que criou uma nova cultura em torno 
dela. 
A atitude vital desse grupo poderia ser resumida na seguinte afirmação: "Gosto 
de tecnologia e me orgulho 
disso. Algum problema?" E que melhor estratégia para seduzir esse coletivo do 
que vampirizar os códigos da 
cibercultura? É triste dizer isso, mas os bancos, as empresas de informática, 
os operadores de telecomunicações 
["os senhores do ar", em definição de Javier Echeverría] se apropriaram da 
estética da cultura digital [a arroba, a 
gíria internauta, os prefixos "e", "cibe r", o adjetivo "digital"...etc.]. 
Agora são eles quem ditam o que é ou não a 
cibercultura.
e-Marketing
Seus departamentos de marketing perceberam que o prefixo "ciber" tem o poder 
mágico de converter qualquer 
mercadoria obsoleta em um produto "da moda": ciberjeans, cibersorvetes, 
ciberbancos, ciberseguros, ciberlivros, 
ciberseios, cibersexo...cibertudo! Os bancos agora são "ebancos", os telefones 
WAP provocam "e-moções" e os 
detergentes [perdão, ciberdetergentes] conseguem um branco digital. A palavra 
cibercultura não é mais 
associada aos ensaios de Timothy Leary, aos romances de William Gibson ou às 
propostas antimarketing da 
Adbusters. 
Ela é identificada com os novos prazeres tecnológicos: ver horários de filmes 
nos cinemas pelo celular, trabalhar 
em uma paisagem paradisíaca com um notebook ou investir na Bolsa sem pagar 
comissões graças à Internet. Ao 
grande público, o que chegou foi uma versão "light" da cultura digital. Uma 
visão ligada a produtos de consumo 
de última geração. 
O moderno agora é a mentalidade "ganhar.com". É preciso enriquecer o mais 
rápido possível para desfrutar dos 
últimos gadgets tecnológicos. O exemplo a seguir são os cibermilionários: Bill 
Gates, Larry Ellison, Jerry Yang e 
David Filo, ou, em sua versão latina, Wenceslao Casares, Juan Santaella ou 
Paola Castro. 
O que se esquece é que a cibercultura tem uma ideologia, ou, numa linguagem 
mais jovem, uma "atitude", que 
pode ser resumido na seguinte citação de Timothy Leary: "um cyberpunk é alguém 
que sabe usar a tecnologia 
para cri ar seu próprio material audiovisual e editar sua própria MTV em seu 
Macintosh. Indivíduos que usam sua 
inteligência não para ganhar dinheiro para uma grande empresa, mas para 
enriquecer sua vida e suas relações 
humanas". 
Debates de salão
Se eu antes dizia que não estava disposto a entrar em elucubrações intelectuais 
sobre "O que é cibercultura?" é 
porque estou convencido de que não podemos perder tempo em debates de salão. É 
hora de agir. É hora de 
nos perguntarmos: a que aspira a cibercultura? ou, será que esse movimento vai 
apenas se conformar com ter 
criado os códigos estéticos que imperam nos primeiros anos do século XXI? 
"Evitar que nós, cidadãos, acabemos convertidos em clientes". Este é o ob 
jetivo que a cultura digital deve 
perseguir hoje. É preciso retomar a advertência lançada por Aldous Huxley nos 
anos 30. "Em uma época de 
tecnologia avançada, o maior perigo para as idéias, a cultura e o espírito tem 
mais chances de vir de um inimigo 
de rosto sorridente do que de um adversário que inspire terror e ódio". E como 
conseguiremos? Como se 
desmascara o "inimigo de rosto sorridente"? 
A tarefa é difícil mas não é impossível. Em primeiro lugar, é preciso 
considerar que as multinacionais se 
converteram em verdadeiras máquinas de sedução. Elas não apenas dispõem de 
importantes recursos 
financeiros para publicidade e marketing como também controlam os acionistas 
dos principais meios de 
comunicação.
Ponto fraco
Entretanto, elas têm um ponto fraco so bre o qual ainda não refletimos o 
suficiente . Seus fundos provêm dos 
consumidores. Somos nós quem decidimos em última instância quais produtos têm 
êxito e quais não têm. O que 
aconteceria se nós, cidadãos, empregássemos as novas tecnologias para organizar 
grupos de pressão? Por que 
não exigir das multinacionais um comportamento ético?
Chegou o momento de reivindicar o consumo "conciencioso". É preciso que nos 
perguntemos o que há por trás 
de campanhas como "Think different (pense diferente)", "Connecting People 
(conectando pessoas)" 
ou "Sabemos do que você gosta". Essas empresas exploram seus trabalhadores? 
Pagam o mesmo salário a 
homens e mulheres? Contaminam? Destinam parte de seus benefícios a projetos de 
ajuda ao Terceiro Mundo? 
Sonegam impostos? Tratam corretamente os dados que obtêm dos consumidores? Têm 
programas de apoio às 
minorias raciais?
É preciso dizer aos especialistas em marketing que o novo consumidor exige 
ética, e não estética. Que não vão 
enganá-lo com spots de TV sedutores, rostos bonitos, cores fosforescentes ou a 
canção da hora. Que a partir de 
agora ele exige algo mais. E se a cibercultura pode legar algo a esse movimento 
é seu "know-how" para 
organizar redes de cidadãos. 
Uma das vantagens da Internet é que ela favorece notavelmente a conspiração. 
Hoje, graças à "Rede", pode-se 
conspirar comodamente do escritório ou da sala de estar contra a multinacional 
da hora, o político corrupto ou a 
instituição pertinente... Uma atividade certamente muitíssimo mais interessante 
para o cidadão médio que ver 
televisão. Neste sentido, é importante assinalar ressaltar o êxito do movimento 
pró-Tarifa Plana na Espanha ou 
da reunião de cúpula antiglobalização em Seattle. Dos movimentos de protesto 
que deram certo na Internet e 
graças a ela. 
É hora de retomar o espírito "cyberpunk" (no sentido expresso anteriormente por 
Timothy Leary) e dizer com 
orgulho: "Gosto de tecnologia e a emprego para fazer valer os meus direitos.. 
Algum problema?" 
:: Alex Lamikiz es editor de Bitniks, una revista digital de Internet y 
Cibercultura (Espanha).
Marcela Moreira
www.cenaceara.com.br
marcela@xxxxxxxxxxxxxxxx
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