OS PRODÍGIOS TAMBÉM CHORAM

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Subject: OS PRODÍGIOS TAMBÉM CHORAM
From: "Alcir Magalhaes Filho" <alcirmf@xxxxxxxxxxxx>
Date: Thu, 13 Feb 2003 21:44:56 -0300

WORKSHOP
Atenciosamente ,
Alcir Magalhães Filho 
OS PRODÍGIOS TAMBÉM CHORAM
Muito jovens, eles chegaram ao topo das corporações e da carreira. Mas a
juventude chega ao fim e a passagem para a maturidade profissional nem
sempre é fácil
Tudo começa entre os 17 e os 18 anos. Na lista de aprovados do
vestibular, o nome do pequeno gênio da família faz bater o coraçãode pais
orgulhosos. Ele acaba de entrar numa das melhores faculdades do país. Logo
nos primeiros semestres de curso já começa a ciscar vagas de estágio em
grandes companhias. Ao acumular as primeiras experiências, busca novas
oportunidades. Quando depara com um processo de seleção de trainees, não se
intimida. Vence etapa por etapa até conquistar a vaga. Dentro da empresa,
os elogios são constantes e o talento do "menino" ou da "menina" começa a
gerar ruído entre os mais velhos. As promoções não tardam a aparecer. Da
posição de trainee, galga uma gerência em menos de dois anos. Dali para uma
diretoria, pode ser um pulo. O cargo mexe com a vaidade do profissional
precoce. Mas os anos passam, as promoções começam a demorar e os holofotes
se voltam para os novatos da empresa. Ele já não recebe os tapinhasnas
costas e o olhar de admiração do presidente. Sua competência se tornou
parte da obrigação diária. O garoto deixou para trás o título de prodígio.
Esse ciclo faz parte da história profissional de muitos executivos.
Com boa formação, eles saem da universidade já em posições de destaque no
mercado, vão construindo carreiras meteóricas e -- quando percebem -- estão
sentados na cadeira de diretor com menos de 30 anos. Depois disso, o ritmo
de progressão diminui e a ousadia da juventude dá lugar ao receio da
estagnação. Trata-se de um roteiro que se tornou quase banal a partir do
final da década de 90, com a onda das ponto-com. "Quando o precoce chegaa
essa fase da vida, geralmente, acha que a empresa não está reconhecendoseu
trabalho", diz Iêda Novais, da Mariaca e Associados, empresa paulista de
recrutamento de executivos.
A autovalorização e o narcisismo são traços comuns entre os chamados
meninos prodígios. Muitos deles acreditam que são insubstituíveis na
empresa e, se saírem, vão receber outras propostas no dia seguinte. "Quando
o profissional precoce é demitido, acha que o problema é externo",diz
Adelaide Du Plessis, consultora da agência de contratação de executivos
TMP. "Quando demora a ser recolocado percebe que o mercado não o vê com os
mesmos olhos com que ele se vê."
Foi o que aconteceu com o paulistano André Mindlin, de 26 anos. Aos
17, entrou na faculdade de administração da Faap, em São Paulo. No segundo
semestre já era estagiário da subsidiária da americana FMC, fabricante de
máquinas, na qual ficou até o fim do curso, galgando posições ano após ano.
Em 1998, quando se formou, Mindlin (sobrinho-neto do empresário José
Mindlin, ex-sócio da Metal Leve) era coordenador de operações de marketing
para a América Latina. As coisas iam bem, mas a síndrome do quero mais o
levou a procurar vagas em empresas maiores. "Não via espaços na FMC para
crescer", diz ele.
Em janeiro de 2000, Mindlin foi um dos 17 selecionados para o
programa de trainees da Ericsson. Passou por algumas áreas na empresa e, em
setembro do mesmo ano, foi promovido a gerente de produtos. Estava com 24
anos. "Sentia-me vaidoso por estar lá", diz ele. "Tinha um salário bom,
vaga no estacionamento, celular com conta paga e participação nos lucros."
Para aumentar o conhecimento e as chances de novas promoções, Mindlinfez
um MBA na Business School São Paulo. Em agosto deste ano, porém, veio o
tombo. Num plano de contenção de custos, ele foi demitido juntamentecom
outras centenas de funcionários. "A frustração maior veio ao encarar o
mercado", diz Mindlin. "Percebi que meu MBA não era um diferencial
competitivo e que hoje sou mais um número."
A realidade pode fazer com que os precoces deixem o estrelismo de
lado e coloquem os pés no chão. Ao sair da Ericsson, Mindlin acreditavaque
estaria recolocado em menos de dois meses. Hoje, três meses após a
demissão, ele tem algumas propostas em vista, mas nada consolidado. "Quando
enxergam o mercado, os prodígios percebem que outros como eles têm a mesma
capacitação", diz Rosa Bernhoeft, diretora da Alba, consultoria paulista de
recursos humanos. "O que antes era uma vantagem, hoje é obrigação."
Situações como a de Mindlin favorecem a reflexão sobre o quefazer
com a carreira daí para a frente. Muitos aproveitam o tempo para viajar ou
investir mais em conhecimento. "Apesar de ser a forma mais difícil dea
pessoa reconhecer que já não é mais um prodígio, a demissãoacelera o
processo de amadurecimento", diz Adelaide. "É quando fica claro parao
profissional que ele não é um super-herói e tem muito o que aprender
ainda."
O executivo Joaquim Patto, de 57 anos, atualmente responsável pelos
clientes financeiros da consultoria de recursos humanos Mercer, lembra que
demorou para adquirir esse grau de consciência. Ao terminar a faculdade de
administração de empresas na Fundação Getulio Vargas, em São Paulo, Patto,
na época com 22 anos, recebeu 18 propostas de emprego. Optou pelo programa
de trainees do Citibank. Pulando as etapas naturais da carreira, Patto
assumiu o cargo de diretor de recursos humanos aos 24 anos. "Passei por
situações de gente grande que me fizeram perder a noção da realidade", diz
ele. Um ano depois, em 1970, passou a diretor de recursos humanos do Banco
União Comercial -- um dos maiores do país na época, depois comprado pelo
Itaú. A cadeira mal esquentou e um amigo o chamou para a vice-presidência
da mesma área no BankBoston. Aos 27 anos, Patto exibia no cartão de visita
o título de vice-presidente. Dentro do que queria para sua carreira, já
tinha chegado ao topo e, dos 27 aos 38 anos, estacionou. "Fiquei acomodado
por achar que era bom o suficiente", diz Patto. "Só fui perceber o quanto
estava defasado quando voltei para o Citibank."
De volta ao Citi, em 1983, também como vice-presidente de RH, Patto
encontrou vários jovens que exibiam um conhecimento que ele não possuía. "O
banco comprou o menino ousado e sabido do passado e se frustrou com meu
desempenho", afirma Patto. "Nessa hora, percebi que não era mais garotoe
muito menos prodígio." Ele saiu do Citibank para montar a própria
consultoria de recursos humanos, a Rumo, comprada pela Mercer há cinco
anos. "Durante boa parte de minha vida, ganhei cadeiras antes de estar
pronto", diz. "Por mais competente que fosse, faltava experiência, que só
acumulei com o tempo."
A falta de maturidade costuma piorar a situação quando esses
executivos deixam de receber os holofotes da organização. O profissional
que sobe na carreira a passos lentos equilibra dias de sucesso e de
frustrações e acaba construindo uma base emocional mais sólida. Já o
prodígio está mais acostumado com elogios e regalias pela astúcia de
segurar um cargo de poder ainda jovem. Ao sair do centro da cena, muitas
vezes, não suporta a indiferença e pode perder produtividade no trabalho e
até entrar em depressão. "O sentimento de perda e de incompetência é
grande", diz Rosa, da Alba. "A ânsia por conquistas dá lugar ao medo de
perder o lugar para os mais novos."
Tudo isso acontece porque, por mais geniozinhos que sejam, falta aos
prodígios experiência de vida suficiente para assumir determinadas
posições. "A própria empresa é a culpada por sustentar a imagem do prodígio
na organização", diz o consultor de empresas Victor Pinedo. "Seria muito
delicado dar um Boeing para uma criança de 12 anos pilotar, ainda que ela
falasse três idiomas e mostrasse um talento anormal."
Pela falta de maturidade, não é raro que o prodígio, ao chegara uma
posição de chefia, continue tentando dar conta do recado sozinho,
esquecendo que tem uma equipe dependente dele para crescer. "Isso é reflexo
da inexperiência ou da arrogância de o profissional achar que sabe maisque
os outros", diz a headhunter Fátima Zorzato, da Russell Reynolds
Associates. "Poucos sabem dar espaço para o subordinado crescer, dizer
obrigado ou parabéns."
O engenheiro Rúdinei Kalil, de 28 anos, diretor de vendas da Nokia,
já passou por isso. Recém-formado, entrou como estagiário na IBM e depois
pulou algumas posições antes do tempo normal. Aos 23 anos, foi chamado para
trabalhar na EMC, empresa de consultoria de informática. Novamente Kalil
deu passos largos e, em pouco mais de um ano, foi promovido a gerente. Seu
salário mais que dobrou, os benefícios engordavam a cada mês. Aos 24anos,
ganhou uma viagem para as Bahamas e prêmios em dinheiro por seu desempenho.
Era (e é ainda) um prodígio convicto. Ao assumir a gerência na EMC, ganhou
também uma nova equipe para dirigir e percebeu que o peso do títuloera
maior do que imaginava. "Fazia o trabalho de meus subordinados, pois achava
que terminaria mais rápido", diz Kalil. "Lidar com pessoas, saber delegare
gerenciar é uma das coisas que ainda preciso aprender."
O desafio de administrar uma equipe pode sinalizar que o prodígio
terá de esperar um pouco mais para conquistar novas posições. Geralmente,
nessa fase, é hora de dividir seu conhecimento e fazer os que estão ao
redor crescerem também. O engenheiro paulista Maurício Russomanno, de 27
anos, está passando por isso. Há dois anos no cargo de gerente de comércio
eletrônico da Basf, Russomanno deu uma desacelerada na carreira. Depois de
morar em três países e exibir no currículo fluência em quatro idiomas, ele
passou na seleção da GE, em Atlanta. Aos 22 anos, fazia parte do quadro de
profissionais com alto potencial e, aos poucos, foi conquistando posições
de destaque e dividindo projetos com feras da empresa. "O bom de ser
precoce é estar exposto a situações complexas antes do tempo", diz ele. Há
cerca de dois anos, ele foi caçado por um headhunter brasileiro para ocupar
a vaga na Basf. Depois das subidas constantes na GE, Russomanno passa hoje
por um período mais calmo, mas diz não encarar os dois anos de gerência
como uma parada na carreira e, sim, como uma fase de amadurecimento.
Com a ansiedade típica dos executivos precoces, porém, Russomannonão
pensa em ficar mais cinco anos na mesma posição. "Sempre quisser
presidente de empresa", diz. "E enquanto estiver aqui vou preparar minha
sucessão e seguir adiante em busca de meu objetivo." O topo, para ele,
ainda é um desafio a ser conquistado.
[As partes desta mensagem que não continham texto foram removidas]
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