[cevanpef] Bullying, um crime nas escolas

Roberto Cunha rfcmestrando em gmail.com
Sábado Setembro 6 10:18:30 BRT 2008


Precisamos nos unir para perceber, entender e propor estratégias de controle
sobre esse aspécto socio-cultural de nossa contemporaneidade...



2008/9/3 Glauco N. S. Ramos <glaramos em terra.com.br>

> Revista Istoé, Edição 2026
> Bullying, um crime nas escolas
> Crianças e adolescentes isolam, insultam, agridem colegas e expõem uma
> realidade alarmante: pais e colégios não sabem como lidar com agressões que
> começam cada vez mais cedo
> CARINA RABELO
> O termo é estranho, mas o significado é bem conhecido. A palavra bullying
> se refere às agressões e humilhações praticadas por um grupo de estudantes
> contra um colega, algo até comum no dia-a-dia escolar, mas que está longe de
> ser considerado normal. São xingamentos, ofensas, constrangimentos ou
> agressões físicas que geram angústia, sofrimento e podem causar danos
> psicológicos imensuráveis nas vítimas. Essas agressões, que costumavam
> aparecer na adolescência, estão sendo detectadas entre crianças, cada vez
> mais cedo. Tanto nas escolas públicas quanto nas particulares, onde os altos
> muros que as separam do mundo externo, em vez de protegê-las dos perigos "de
> fora", muitas vezes alimentam atos ainda mais violentos cometidos do lado
> "de dentro", uma vez que os pais não costumam levar as ocorrências às
> delegacias. Diante da prática disseminada, no dia 8 de agosto, a Justiça
> brasileira proferiu uma decisão inédita. O Tribunal de Justiça do Distrito
> Federal condenou uma escola particular de Ceilândia, cidade-satélite de
> Brasília, a indenizar em R$ 3 mil a família de um garoto de dez anos que
> sofreu diversas agressões por um grupo de cinco alunos. Yan tinha sete anos
> quando se mudou do município de Águas Lindas para a cidade. "Queria que o
> meu filho tivesse acesso a uma educação de qualidade. Não havia boas escolas
> onde morávamos", diz a mãe, Rosemeire Rodrigues. Empolgado com a nova escola
> e assíduo nas aulas, o menino aprovou imediatamente a escolha.
>
> Dois meses depois, sem nenhum motivo aparente, começou a demonstrar
> desinteresse pelo colégio. "Ele estava em pânico e dizia que não queria ir
> às aulas, mas não falava o porquê", lembra Rosemeire. No mês seguinte, Yan
> não conseguiu mais esconder a verdade dos pais. Ele chegou em casa com a mão
> perfurada e foi obrigado a contar o que havia ocorrido. Dois garotos
> seguraram o menino enquanto um terceiro pregou a sua mão na parede da
> casinha de boneca do colégio. "Fui na escola e a diretora disse que era
> coisa de menino, que tinha sido uma brincadeira, mas que não iria se
> repetir", conta a mãe. A promessa da diretora não se cumpriu. Poucas semanas
> depois, Yan chegou em casa vomitando e disse que havia comido algo
> estragado. Desconfiada, a mãe exigiu a verdade e, estarrecida, soube que o
> menino havia tomado sucessivos socos na barriga de cinco garotos do colégio
> e que eles ainda haviam tentando enforcá-lo. A escola nada fez.
>
> Rosemeire decidiu transferir o filho para outra instituição de ensino, mas
> não conseguiu vaga. Desesperada, pediu licença do trabalho para cuidar
> pessoalmente da segurança do menino. "Ficava escondida atrás da cerca do
> colégio para ter certeza de que nada aconteceria com ele", conta. Quando
> pensou que o problema estaria resolvido, voltou ao trabalho e o pior
> aconteceu. Os garotos pegaram Yan desprevenido e esfregaram o rosto dele no
> chão e furaram o seu pé. Yan não voltou mais à escola. A mãe decidiu ir à
> delegacia de proteção à criança e ao adolescente e prestar queixa. "O
> policial me disse que dificilmente aquelas crianças seriam punidas e
> recomendou que eu entrasse com um processo na Justiça contra a escola",
> conta Rosemeire. O pedido foi indeferido na 1ª instância, sob o entendimento
> de que se tratava de "coisa de criança". Rosemeire não desistiu e recorreu.
> Por unanimidade, a Justiça condenou a escola por negligência. "Jamais
> desistiria de fazer justiça para o meu filho", conta a mãe, que lidera uma
> campanha de combate à violência nos colégios do País. Além da escola, que,
> como prestadora de serviço, tem o dever de zelar pela integridade física e
> psicológica dos alunos, o pai do agressor também pode ser punido, mesmo  que
> não tenha conhecimento dos atos do filho. "É como um jovem que rouba a chave
> do carro do pai e atropela uma pessoa. O pai responde a um processo civil.
> Não é porque se trata de um menor que haverá impunidade", diz o defensor
> público Ruy Cruvinel Filho, que assumiu o caso na Justiça.
>
> Uma pesquisa realizada pela Associação Brasileira Multiprofissional de
> Proteção à Infância e à Adolescência (Abrapia) revela que 28% das crianças
> brasileiras já foram vítimas de bullying nas escolas e 15% sofriam agressões
> todas as semanas. Dados do Centro Multidisciplinar de Estudos e Orientação
> sobre o Bullying Escolar, que acompanha pesquisas em ao menos oito cidades
> do País, revela que 45% dos estudantes de ensino fundamental do País já
> foram vítimas, agressores ou ambos. Nos Estados Unidos, segundo levantamento
> da instituição Health and Human Services, 30% das crianças entre seis e dez
> anos sofrem bullying a cada ano. No ano passado, um grupo de 30
> pesquisadores europeus lançou um documento de alerta para autoridades e
> cientistas, apontando que atualmente 200 milhões de crianças e jovens são
> vítimas da prática em todo o mundo. A expressão, que significa tiranizar,
> amedrontar e brutalizar, nasceu do termo inglês 'Bull' (valentão, tirano e
> brigão). Pode começar com um tapa na orelha, um xingamento ou uma piada de
> mal-gosto, e partir para tapas, socos na barriga, pontapés e todo o
> repertório de agressões comuns às gangues de bairro. O fenômeno, típico das
> escolas americanas, se tornou uma realidade no Brasil a partir da década de
> 90 no ensino privado. A prática, considerada por muitos diretores de escola
> como "briguinha de criança" expõe a crueldade precoce dos menores e a
> omissão dos dirigentes da instituição, professores e pais no trato com o
> problema.
>
>
> A escola finge não ver para preservar a imagem dos alunos, das famílias ou
> o nome do colégio. A falta de informação colabora com a perpetuação das
> "pequenas" crueldades. Normalmente, os pais são os últimos a saber que o
> filho está sendo agredido na escola, local onde ele deveria estar seguro.
> Qual o perfil da vítima e do agressor? A psicopedagoga Maria Irene Maluf
> adverte para os padrões de comportamento. "Normalmente, a vítima tem um
> quadro de baixa auto-estima. O "cabeça" do grupo de agressores é o mais
> inteligente e nem sempre é o que bate. Os que agridem são meninos que têm
> necessidade de aceitação no grupo e temem ser a próxima vítima. Dificilmente
> teriam coragem de agredir sem a orientação do líder", afirma. As meninas
> tendem a praticar o terror psicológico e a manipulação contra as colegas. Os
> meninos tendem a se autoafirmar pela força física e partem para a agressão
> contra os demais. Reféns do jogo de poder, raramente as vítimas contam aos
> pais o que está ocorrendo para evitar uma possível retaliação dos
> agressores, por temer ameaças à própria família ou para não serem vistos
> como o filho frágil em casa. Foi por medo de decepcionar os pais e sofrer
> agressões ainda mais violentas pelos colegas que um garoto de dez anos
> silenciou mesmo sendo vítima constante de bullying no colégio Rio Branco, um
> dos mais tradicionais de São Paulo. As agressões ocorriam dentro e fora da
> sala de aula. Começaram de forma sutil, com golpes com régua e flauta e o
> chamado "pedala", que é o tapa na orelha. Como as agressões não foram
> devidamente contidas e reprimidas pelos professores, inspetores e pela
> orientadora, elas se tornaram mais violentas, chegando aos pontapés.
> Intimidada pelo grupo, a vítima perdeu a capacidade de reagir. Ao tomar
> conhecimento do fato, a direção chamou as crianças agressoras, que
> confirmaram a prática de bullying sem que houvesse qualquer razão. Em
>  seguida, seus pais foram convocados. Alguns caíram em prantos e outros se
> revoltaram ao saber que a escola não estava coibindo adequadamente desvios
> de conduta dos seus próprios filhos. Em relação à vítima, o que se colocou
> foi um pedido de desculpas, a promessa de um trabalho para fortalecê-la e a
> sugestão – e não oferta – de apoio psicológico. "Não cogitamos a expulsão
> dos agressores mesmo que o fato se repita. São crianças muito novas.
> Acreditamos que medidas educativas podem resolver a situação", afirma Esther
> Carvalho, diretora-geral do Colégio Rio Branco, que não soube dizer por que
> a diretoria da escola não tomou conhecimento das agressões quando elas
> aconteceram. Casos de bullying também já ocorreram em outras escolas
> tradicionais de São Paulo, como o colégio São Luís, Santo Américo, Notre
> Dame e Santa Maria, que adotaram programas de prevenção e conseguiram coibir
> a prática. "O importante é detectar o bullying quanto antes para que seja
> possível intervir cedo, procurar as famílias dos agressores e do agredido e
> aplicar as sanções disciplinares", afirma Cesar Pazinatto, coordenador
> pedagógico do ensino fundamental do colégio Santo Américo, que providenciou
> a separação dos alunos envolvidos no fato. Denúncias da prática têm chegado
> às Varas da Infância e da Adolescência. Mas isso ocorre com mais freqüência
> nas agressões ocorridas em escolas públicas, onde a tutela do Estado é
> direta. Muitas escolas particulares abafam os casos por medo de perder
> clientes. Outro aspecto preocupante é que muitas instituições de classe, ao
> sugerir apoio psicológico, tentam reforçar a tese de que crianças agredidas
> podem ter uma propensão a isso – como se o problema estivesse na vítima e
> não na instituição. É um mecanismo sutil de os colégios se distanciarem do
> problema. "As escolas tendem transferir a culpa para a família e vice-versa.
> Não adianta os pais colocarem a culpa nas más companhias e o colégio dizer
> que é o aluno que não sabe se defender e que a culpa é dos pais", pondera a
> psicopedagoga Maria Irene.
> Mesmo que a prática seja coibida nas escolas, os danos podem ser
> irreversíveis à criança. "O trauma permanece e gera uma baixa auto-estima no
> menor, que leva cerca de três anos para se recuperar. Algumas nem se
> recuperam", alerta Maria Irene. Entre as conseqüências do pós-bullying,
> estão danos à capacidade de aprendizado, que pode se tornar superficial,
> dificuldades de concentração nas tarefas escolares – a criança pode ficar
> preocupada com a abordagem de agressores a qualquer momento – e um
> permanente complexo de perseguição, que pode se expandir para todas as áreas
> da sua vida. A omissão das escolas na solução dos problemas torna os casos
> cada vez mais graves. E, quando eles explodem, são erupções vulcânicas que
> causam um efeito perturbador em toda a instituição. Abalam as famílias das
> vítimas e também dos agressores. Com as novas tecnologias, outra modalidade
> de bullying está se popularizando. Os agressores mandam torpedos e e-mails
> ofensivos para a vítima, fazem trotes, colocam vídeos no YouTube com imagens
> dela sendo espancada na escola e lançam calúnias no Orkut e em blogs. Como
> não é fácil serem identificados, os agressores se sentem livres para
> praticar a crueldade online. Em novembro do ano passado, o YouTube ganhou o
> Beatbullying, um canal de combate à prática. A página tem vídeos de
> celebridades, jovens e escolas que falam sobre o assunto. Nos Estados
> Unidos, um projeto de lei da Califórnia prevê a expulsão dos alunos que
> praticarem o cyberbullying contra os colegas. Assim como o bullying
> tradicional, o cyber também deve ser denunciado às autoridades nas
> delegacias tradicionais ou nas especializadas em crimes eletrônicos. Com
> autorização judicial, os agressores podem ser identificados. é preciso dar
> um basta para que os agressores juvenis de hoje não se tornem os criminosos
> de amanhã.
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