Caros Colegas :
Na cidade de Curitiba não se pede Literatura Portuguesa no vestibular!
Minha idéia inicial foi defender a implantação da Literatura Portuguesa no
vestibular da UFPR. Iniciei assim: Creio que uma atitude prática para
melhorar a qualidade do ensino no Brasil, seria melhorar a qualidade das
provas de vestibular. Mas esta é UMA das medidas possíveis, mas de reflexos
limitados, em particular porque um grande número dos alunos do sistema
educacional brasileiro jamais chegam a colocar-se na perspectiva de prestar
um exame deste tipo, em especial em uma instituição pública. Lembremos que
no estado de São Paulo, o número de inscritos na FUVEST anualmente não
excede 140 mil candidatos, o ensino médio possui mais de 2 milhões de alunos
inscritos. Ainda que suponhamos que 20% deste total complete a cada ano esse
nível de ensino, teríamos potencialmente mais de 400 mil candidatos. Como se
vê, apenas 140 mil de fato se inscrevem (e esse número inclui candidatos que
já completaram o secundário há mais tempo). Os dados do Paraná são análogos,
conforme o censo escolar 2000 do INEP. Pensar soluções para o vestibular ,
sem acabar com ele, é discutir o design da muleta?
Usei uma infeliz personificação que quero rever : O Sr. Paulo Renato não
"mudou" coisa alguma.
Quem lutou por tal mudança foram os professores da UNICAMP. Se ele apoiou a
iniciativa, como Reitor, foi muito mais com os olhos na magnífica fonte de
arrecadação que um concurso vestibular de grande porte pode representar do
que por qualquer outra razão. Se não bastarem as mudanças de posturas dele
desde os tempos em que era presidente da ADUNICAMP, dirigindo uma greve
contra o governo Maluf em 1979-80, basta ver os modelos de prova que o INEP
implementou seja no ENEM, seja no ENC ("Provão").
A UNICAMP separou-se da FUVEST, criaram uma prova dissertativa , valorizando
redação, e ainda uma lista de leitura obrigatória para a prova de Literatura
Portuguesa e Brasileira; logo vários vestibulares brasileiros adotaram a
idéia. Vale dizer, os vestibulares com mínima pretensão à seriedade. Ou será
que a Instituições "caça-níquel" utiliza, utilizou ou utilizará algum dia
"listas de leitura" ou questões estritamente dissertativas? Cada dia
"pipocam" faculdades , antes de tudo bons negócios , muitas delas com donos
que nem são do "ramo", em Curitiba nos últimos 3 anos mais de 4 mil vagas
apareceram em faculdades particulares novas. Ainda tenta-se privatizar o
público ( acho isso absurdo) como solução, ou ainda uma desculpa usada por
alunos que não passam na Universidade pública : A particular não tem greve,
tem mais material e dinheiro ( como se o preço do computador, editor e
corretor de texto fosse melhorar a qualidade da tese ou ainda se o
laboratório ou a câmera de Glauber Rocha fosse melhorar a qualidade dos seus
filmes.)
De certa forma , foi uma mudança prática que revolucionou muito. Mas não "em
efes e erres" como João Cabral no poema "Sobre o Sentar-/Estar-no-Mundo".
Muitos alunos pela primeira vez aprimoraram o texto escrito e a leitura ,
mas também se modulou e banalizou o novo estilo. Os cursinhos também
encontraram um jeito novo: resumos , análises , aulas melhores, professores
melhores , menos "Macetes", "musiquinhas e decorebas" etc... Complexo fazer
um balanço destas mudanças hoje . É muito difícil aqui encontrar um colégio
ou cursinho que tenha duas aulas semanais de literatura, divide-se a carga
horária em uma aula semanal de literatura Brasileira, uma de gramática e uma
de redação, geralmente com professores diferentes para não entediar o
"cliente" sempre visando o objetivo final "Passar no vestibular", os alunos
criaram uma relação utilitarista : "Eu pago , eu quero o produto" , no caso
um resumo e passar sem estudar , ganhar um carro do pai etc. O grande "filé
dos marqueteiros" dos cursos sempre são os primeiros lugares e os aprovados
em medicina, e sempre para esses alunos , regalos são distribuídos como
automóveis 0Km.
Será que estou invertendo a relação de causalidade? não há questões de
Literatura Portuguesa no vestibular da Federal PORQUE estes conteúdos não
estão contemplados no ensino médio da rede estadual, e não o contrário. A
prova da Federal, a despeito de suas responsabilidades com respeito a um
balizamento de programas de ensino dos níveis anteriores, é, sobretudo, um
instrumento através do qual se faz a seleção dos candidatos cujo perfil a
instituição julga ser adequado ao projeto de Universidade. Impor
unilateralmente ao sistema de ensino o exame de conteúdos que não são
contemplados nos planos pedagógicos da rede pública, apenas ajudaria a
"empurrar" para os "cursos preparatórios" a "tarefa" de suplementar a
formação neste campo (isto, é claro, para aqueles que pudessem pagar...)
Peço aqui desculpas pelo viés , elitista e classista , que usei.
Ler um resumo das obras de leitura obrigatória ( Razões de mercado ), quase
sempre de pouca qualidade , coloca um aluno em igualdade com o leitor das
obras em sua riqueza e totalidade, os dois têm a mesma probabilidade de
acertar ou errar as questões. Será que isso é mesmo verdade? Não tenho dados
nem números que fortaleçam minha afirmação , apenas comentários de alunos ou
mesmo agradecimentos do teor : "Passei , obrigado...e, olha, sem ler nada",
algo que coloca meu ofício em preparatórios em pé de igualdade com a
prostituição ou o charlatanismo; confirmando o "jeitinho brasileiro ou a lei
de Gerson" ! Também posso dizer que das 35 alternativas do último vestibular
( e não só do último) , em quatro questões , os diversos professores , área
de comunicação e expressão de cursos e ensino médio, revelaram gabaritos
diferentes do oficial da UFPR. Pensando assim constata-se uma enorme
diferença entre questões de múltipla escolha , somatórias e dissertativas.
Bem, neste caso, fica claro que a rede privada, cursinhos incluídos, estão
muito longe, no geral (há um punhado de belas exceções), de qualquer
compromisso com qualidade ou aperfeiçoamento de uma visão humanística. Se
"não cai no vestibular", então não tem a menor importância. Bem, acho que o
vestibular, neste caso, deveria refletir um processo mais amplo de debate e
defesa do lugar desta formação no ensino médio, e não servir de ponto de
partida para uma demanda cuja função seria, corporativa e, como haveria de
ser implementada antes de mais nada na rede privada e especializada dos
cursinhos, aprofundaria mecanismos de exclusão no processo seletivo.
Sem elitismo e sem solução , ficam as pessoas mesmo sem , saber , ler ,
conhecer, Camões , Fernando pessoa, Agustina e Saramago , para não nomear
mais.
Caros Colegas, o ensino médio não sonega a norma culta nem a "alta cultura".
Mas defendo que primeiro o mais importante nesses dias seja talvez , não só
instrumentalizar pessoas da elite para que possam ser elite sempre , esses
podem chegar ver um professor como mero empregado , o emprego sem futuro,
que ninguém valoriza , exemplo do que eles não querem para si, uma direção
no Banco do Brasil é melhor ! Digo isso aos meus alunos da "elite" com as
mesmas palavras ou umas mais rudes que não cabem aqui, mas curiosamente
sempre fui acatado e respeitado por eles como um par ( lógico que nem
todos).
É bom ler latim, grego, alemão, francês, português, Camões, James Joyce,
Bilac, Borges, Shakespeare, etc., mas é bom ler Carolina de Jesus, Lima
Barreto, Guimarães Rosa (Que razão levou Carolina de Jesus escolher a
Literatura como veículo para sua confissão? Capão Redondo de Ferréz, não
seria mais fácil Ter saído em Funk, Hap...? Nomeá-los de negros, favelados,
marginalizados, o que é verdade, para um público mais geral não "pega
pesado?". E quem sabe melhor ainda que isso seria tentar que um aluno não
confunda "Cultura" que todos temos, com "Educação" que nem sempre por razões
sociais as pessoas podem Ter. Que não saiam pela sociedade distribuindo
drogas, preconceito, AIDS e fome, queimando índios, batendo carros e
causando tragédias nas escolas como podemos ver todos os dias, um pouco no
Brasil e mais geralmente no EUA, falo, pois estou com a mão na massa,
trabalho todo dia com adolescentes.
Contando com a amizade e o respeito, um abraço amigo .
Júlio Paulo
Professor em Curitiba
Juliopcm@xxxxxxxxxx
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