(DIVULGACAO CEVLEIS)
> Saiu na REVISTA VEJA edição nº1.728 de 28 de novembro de 2001, páginas 132
e 133
>
> "BOMBAS" QUE SÃO UMA BOMBA
>
> A obsessão por corpos ultramusculosos leva
> ao consumo desenfreado de anabolizantes
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> Ariel Kostman
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> Fotos Claudio Rossi
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> Participantes de campeonatos de fisiculturismo nos EUA: riscos à saúde são
> desprezados em prol do ganho de massa muscular exagerada
>
> Quando decidiu, aos 18 anos, ter um corpo esculpido por músculos bem
> torneados, Júlio (nome fictício) era um rapaz franzino - tinha 1,74 metro
de
> altura, 30 centímetros de bíceps, 70 de peitoral e 50 de coxa. Hoje, aos
34
> anos, ele é puro músculo. Seu muque cresceu 15,5 centímetros. Seu tórax
está
> meio metro mais largo e cada coxa, 25 centímetros mais grossa. Professor
de
> educação física, Júlio prefere se manter no anonimato. O motivo é simples:
> ele usa substâncias ilegais para ser forte e massudo. "Dois meses depois
que
> comecei a tomar as drogas, ganhei 4 quilos de músculos", lembra. "Sem as
> bombas, levaria um ano para chegar ao mesmo resultado." As tais "bombas"
são
> os esteróides anabolizantes, hormônios sintéticos capazes de fazer a massa
> muscular estufar. Eles podem ser injetados ou tomados sob a forma de
> comprimido. Seriam uma maravilha se não tivessem o efeito de um míssil
> atômico sobre o organismo. Podem causar insuficiência cardíaca,
crescimento
> de mamas nos homens, aumento nas taxas de colesterol, impotência,
> hipertensão, câncer de fígado, infertilidade e aparecimento de pêlos no
> rosto das mulheres, entre outros problemas graves. Júlio, por exemplo, já
> foi vítima de uma intoxicação no fígado, semelhante àquela que acomete os
> alcoólatras.
>
> Na surdina, as drogas são vendidas nas academias de ginástica e nas
> farmácias. Seu consumo é crescente. O maior levantamento sobre o uso de
> "bombas" no Brasil foi feito pelo Programa de Prevenção e Tratamento do
Uso
> de Drogas na USP (Produsp), da Universidade de São Paulo. A pesquisa, que
> abarcou quase 1 500 jovens, de 18 a 25 anos, mostra que 25% deles já
usaram
> essas substâncias pelo menos uma vez na vida. Em 1996, os usuários de
> anabolizantes não passavam de 0,5% dos entrevistados. Derivados da
> testosterona, o hormônio masculino por excelência, os anabolizantes
aumentam
> a capacidade do organismo de sintetizar proteínas - que funcionam como
> tijolos de músculos. Além disso, essas substâncias retêm líquido, o que
> incha ainda mais a massa muscular. O resultado são homens e mulheres
> deformados.
>
> Os especialistas são unânimes: menos de 1% dos homens e mulheres com
corpos
> inflados estão programados biologicamente para ter músculos que, de tão
> grandes e definidos, parecem querer rasgar a pele. A maioria das pessoas
> pode se esfalfar na academia, comer proteínas até não mais poder e se
> entupir de suplementos alimentares, sem que jamais alcance o físico de um
> mister Universo. O limite de cada um é determinado geneticamente. "Mas os
> esteróides permitem romper esse teto biológico de musculatura e atingir um
> nível muito além do que a mãe natureza jamais pretendeu", escreveu o
> psiquiatra americano Harrison Pope, no livro O Complexo de Adônis.
>
> A explosão dos anabolizantes reflete de maneira mais dramática o crescente
> desagrado dos homens com o próprio corpo. Seriam a versão masculina das
> "bolinhas" para emagrecer que afetam a saúde de milhões de mulheres. Uma
> pesquisa feita em 1972 detectou que 15% dos homens americanos estavam
> insatisfeitos com a sua aparência. Em 1997, eram 43%. O grande terror
> masculino - ao menos no que se refere à estética - é mesmo a falta de
> músculos. E o padrão é cada vez mais anabolizado. Os bonecos para meninos
> são um exemplo disso. O primeiro Falcon, lançado em 1964 nos Estados
Unidos,
> não tinha músculos. Na versão de 1974, a primeira a chegar ao Brasil, ele
já
> era fortinho. Mais de vinte anos depois, Falcon desapareceu. Em seu lugar,
> surgiu o Action Man, um "homem-armário" (veja quadro abaixo).
>
> O descaso com a saúde, em prol de bíceps esculpidos, peitorais largos,
> abdome em gomos, cintura fina e coxas grossas, pode ser verificado nos
> diálogos travados pela internet entre os praticantes de fisiculturismo.
Pela
> rede, são trocadas informações sobre pontos-de-venda, preços, quantidades
> mais eficientes de determinadas substâncias e por aí vai. No mês passado,
um
> internauta reclamou numa das salas de bate-papo que, ao aplicar
anabolizante
> pela primeira vez, ficou com o braço dolorido. Ao que um tal de "Reginaldo
> Farinha" respondeu: "Bicho, tá achando que tomar bomba é só alegria? Tem
> essas lamas também. Dói um pouco..." Na verdade, dói muito.
>
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> Marino Tessari
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> Marino Tessari
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