Oi Fabrício.
Em primeiro lugar, tenho certeza, não sou o único (felizmente) a pensar no
Judô como meio e não como fim. O que disse, e reafirmo, é que o modelo de
competição existente vem impondo à alguns desavisados colegas, condutas
inadequadas quanto ao processo de formação (competitiva ou não) de nossas
crianças.
Quanto a ser contrário a competição infantil, sob qualquer ótica, me permita
discordar, com o intuito inclusive de colocar lenha na fogueira. Não sou
contrário a competição com crianças. Vejo que, concordando com DIAZ &
AGUADO, não é impedindo-as de vivenciarem os conflitos que estaremos
contribuindo com sua formação, seja essa física, moral, intelectual ou sob
qualquer outra dimensão. Precisamos, no entanto, ter a clareza de quais
estímulos devem ser aplicados para que a criança não seja superestimulada,
tampouco sub-estimulada.
Penso que concordamos na essência. Nossas discordâncias, aparentemente, são
de forma e não de conteúdo.
Quanto a sua pergunta no final, está aí, a meu ver, a competição embutida de
novo. Crianças do mesmo gênero não podem participar de competições juntas
devido a reação dos pais (homens) ao verem seus filhos (homens) serem
derrotados por meninas. É uma questão meramente social. O sexo forte não
pode ser derrotado pelo sexo frágil. Será que ao rediscutirmos esse modelo
não poderíamos estar gerando um efeito bola de neve onde, por competirem
juntos os professores deveriam fazer um trabalho junto às suas crianças nas
academias e escolas que, teria que ser ampliado para os pais dessas crianças
para que eles não cobrem de seus filhos homens a derrota para as meninas e,
dessa forma, não estaríamos ajudando a construir um conceito de convivência
mais harmoniosa entre ambos os sexos, desde a infância? Sob essa ótica
talvez fosse melhor do que impedi-los de "entrar no shiai-jo" (só pra
provocar).
Um abração Fabrício e demais listeiros.
Roberto Corrêa.
-----Mensagem original-----
De: Fabricio Boscolo [mailto:fabricio_boscolo@xxxxxxxxxx]
Enviada em: quinta-feira, 9 de outubro de 2003 09:01
Para: cevjudo-L@xxxxxxxxxxxxxxxxxx
Assunto: [cevjudo-L] Roberto
Olá Roberto.
Quando se fala em assumir os modelos existentes lembro muito
de como podemos fazer para mudá-lo
Em seu texto voce mesmo explana que já tentou orienta-la por
outras direções, embora tenha sido em vão. Acredito no nosso
poder de mudança e transformação, assim, acredito que elas
possam ser feitas.
"já os atletas têm mesmo é que entrar no sistema de
treinamento desportivo de alto rendimento, desde a infância"
Não falei sistema competitivo, e afirmar isso, ao meu ver é
um grande erro. Sou bem contrário ao sistema competitivo
atual, tanto infantil quanto adulto.
"vejo que ele está certo, diante do modelo desumano,
marginalizador e anti-científico de competição ao qual nossas
crianças são submetidas. A competição passa a ser o objetivo,
o final e, dada a reprodução do ideal de sociedade de alta
performance e sucesso, as crianças, desde de cedo, sonham em
um dia também serem grandes campeãs, é natural."
Para mim aqui não tem nada de natural. O ser humano é por
excelência um grande copiador. Assim, ao vivermos de
exemplos, esses ideias são passados, cabe aos orientadores
mudá-los. Não tenho a menor intenção de promover as
competições infantis, sob óptica alguma, dado que acho bem
mais interessante e proveitoso outras atividades com
estes "judoquinhas".
"Tentei, em vão, convencer alguns colegas de que deveríamos
mudar o foco de nossa atenção de formar atletas e campeões,
para contribuir para uma formação permanente, pra vida toda."
Essa visão não é só sua, pode ter certeza. Diversos
profissionais, e ai me incluo, preconizam uma certa autonomia
pedagógica (me lembro do Jorgge Perez falando isso) acerca
das atividades e exercícios físicos, assim, como o sensei
Staneli fala em formar "cidadãos", na forma de pensar dele, é
o sujeito realmente engajado na prática de atividades
saudáveis, não só atividades fisicas.
"'como treinar o atleta' mas sim, 'para que treinar o atleta'"
É, nessa forma de observar acredito que podemos somar
pensamentos congruentes. Tenho a visão de que uma coisa é ser
atleta, a outra é ser sujeito praticante de exercícios
físicos baseados nas lutas corporais, especificamente o judo.
Uma coisa é treinar para lutar e participar de campeonatos, a
outra é treinar para ter relações, contatos sociais, almejar
incremento na saúde, sem correr o risco de quebrar um dedo na
competição e ter que se explicar ao chefe (se imagine como
dentista nessas horas).
Por isso vejo que não estou muito errado... Se não se tem
grandes pretenções competitivas, não há necessidade de
grandes estímulos para tal.
Ao contrário de voce não fui um competidor por excelência,
mesmo pq nunca foi o objetivo do meu professor direcionar as
atividades para tal. Lembro bem quando ele falava, que qria
primeiro formar homens, depois competidores... (poucos desses
competidores chegaram a surgir)
"Temos que rediscutir os objetivos das competições infantis;
que regras devem ser adotadas para que esses objetivos possam
ser garantidos; uma forma de participação que respeite
diferenças que vão além, simplesmente, da idade e do peso"
Estmaos aberto, a lista é para tal. Até somo a isso a
pergunta: Por que não se pode colocar indivíduos de até 10
anos (aproximadamente) do mesmo gênero participando juntos?
Na verdade, para mim, aos 10 anos nem se deveria entrar num
shiai-jo. Acho que deveriam ter outras formas de encontro,
participação...
Fabricio
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Fabricio Boscolo Del Vecchio
Mestrando em Ciências do Esporte - UNICAMP
http://www.judodaunicamp.hpg.com.br
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