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Re: [cevjudo-L] Planejamento de Um Programa Competitivo para o Judô

To: cevjudo-L@xxxxxxxxxxxxxxxxxx
Subject: Re: [cevjudo-L] Planejamento de Um Programa Competitivo para o Judô
From: "Rodrigo Ribeiro Rosa" <ribeiro_rodrigo3r@xxxxxxxxxxx>
Date: Fri, 22 Aug 2003 01:41:17 -0300
Boa noite amigos listeiros.

Vejo que as discussões deram uma murchada, depois de todo o bafáfá que foi gerado em torno da participação do Brasil no Pan. Não deixemos que nossas conversas se esvaziem, pois foi com elas que conseguimos desenvolver um mínimo de direção para o treinamento desportivo para o judô (ou pelo menos, que pretendemos).

Bom, Paulo, sua pesquisa tem sido muito boa, já que as considerações sobre a desidratação foram de extrema pontualidade. Acho que nós, pesquisadores do desporto, devemos estabelecer essas premissas para que não sejamos derrubados pelas velhas formas de concepção do judô, sem a fundamentação científica, que aqui, tanto defendemos.

O texto sobre a planificação do treinamento desportivo é bom, porém, gostaria de desenvolver uma linha de raciocínio, pautado no que temos observado na literatura.

De início, o texto aborda sobre as fontes energéticas predominantes na luta de judô, e que o perfil energético que um judoca pode ter influência decisiva no andamento da luta. De acordo com Gariod et al (1995)*, existem dois perfis de judocas: de resistência e de explosão. Através da espectroscopia dos músculos da perna, observaram que existe uma relação direta da depleção do fosfato inorgânico com o perfil do judoca. Com o aprofundamento da técnica desportiva, o atleta aumenta sua reserva de adaptação, o que permite que ele saiba como economizar tal energia, para aproveitar de maneira direcionada no movimento de ataque e defesa.

O que atualmente defendemos e que não tinha sido dito por nenhuma pesquisa (tinha, pois será apresentado no Conbrace e no Fórum Olímpico, através de pesquisa realizada por mim, com o auxílio dos colegas da Unicamp), é da implicação do Golden Score na dinâmica da luta.

Através da análise dos combates da Seletiva desse ano, que formou a Seleção Brasileira, as lutas que foram ao Golden Score (GS) tiveram, na média, uma diminuição do tempo de luta e um aumento no tempo de recuperação dos judocas, apesar de não ter uma significância estatística. A falta de preparo físico dos judocas para essa nova realidade ficou evidenciado através da performance de atletas como Leo Leite, Taciana Lima, Flavio Honorato, que literalmente, se arrastaram nas suas lutas que foram para o GS, e tiveram reveses na Seletiva. Então pergunto: será que a capacidade aeróbia é um determinante no sucesso competitivo dos judocas, e em que nível ?

A capacidade aeróbia, a princípio, é importante, pois auxilia na remoção do lactato sanguíneo pós-lutas, de acordo com as pesquisas do prof. Franchini. Porém, não se tem respondido como será durante o combate, já que o sistema de tamponamento do sangue, realizado pelo fígado e coração, não tem tempo hábil para remover o lactato, já que ele é produzido ininterruptamente na luta ? De acordo com Verkoshansky (1995)**, 70% do lactato produzido pelo organismo será removido pelos próprios músculos esqueléticos, através das mitocôndrias presentes no tecido muscular, em trabalhos onde se utiliza 70% do VO2máx. Dizer que o metabolismo aeróbio pode ser mais importante que o anaeróbio é cedo, por isso, as pesquisas podem andar um pouco nessa direção.

Por isso, questiono o prof. Marinho: como poder afirmar que o treinamento em circuito reproduz a demanda energética semelhante a de um combate de judô após a terceira passagem, já que não existe uma mobilização do complexo do sistema neuromuscular em situação específica do combate ?

Continuo a bater na mesma tecla: devemos discutir os meios, chegar a dizer categoricamente que tal método reproduz uma luta, e sem a referência de uma pesquisa que mostre isso, através de análise de rendimento, seja por metabolismo, índice de fadiga biomotora, ou outros pensáveis, é ficar no mesmo tratamento que o judô contemporâneo ainda sofre do judô tradicional.

O próprio professor se contradiz em seu texto, pois ele discute que o aperfeiçoamento da técnica deve ser feito com intervalos maiores... mas em que período da planificação ? No geral, eu até concordo (em certo ponto), mas no específico, deve-se treinar a técnica em estado de fadiga compensada, pois será esse o caráter específico encontrado no judô, e logo abaixo, através de Barbanti (1996), ele exalta a Especificidade como um dos princípios básicos do treinamento desportivo. E também deve ser pontuado que não adianta mais pensar na luta em 5 minutos, pois agora o combate pode se estender até 10 minutos, e aí, se esvazia, de certo modo, as considerações do prof. Franchini que datam de 1999.

Professores e colaboradores, começo esse bate-bola com essas indagações. Apesar de haver margem nesse texto, Paulo, é de extrema importância que apareça aqui, pois será assim que poderemos discutir e definir algumas direções para o treinamento específico do judô contemporâneo.

Bom pessoal, sem rispidez, nem nada. Quero ser crítico, pois será assim que a cientificidade do judô se desenvolverá. E vamos ser críticos !!!

Um abraço a todos, e até mais.

Prof. Rodrigo Ribeiro Rosa
FEF-UNICAMP

* Science & Sports (1995) - vol. 10, 201-207.
** Verkoshansky (1995) - Preparação de Força Especial



From: "Paulo Azevedo" <paulopersonal@xxxxxxxxxx>
Reply-To: cevjudo-L@xxxxxxxxxxxxxxxxxx
To: "CevJudo" <cevjudo-L@xxxxxxxxxxxxxxxxxx>
Subject: [cevjudo-L] Planejamento de Um Programa Competitivo para o Judô Date: Wed, 20 Aug 2003 15:30:32 -0300


Planejamento de Um Programa Competitivo para o Judô
Marinho Esteves


RESUMO


Ao planejar um programa de treinamento deve-se observar as fontes
energéticas utilizadas na modalidade em questão, neste caso, o Judô,
que por sua vez apresenta características anaeróbia lática e aeróbia.
Além dessas capacidades o Judô precisa treinar também a coordenação
motora, a força dinâmica e a força isométrica. A coordenação motora
nessa modalidade é treinada na entrada de golpes (uchi-komi). A força
dinâmica (solicitada principalmente quando é preciso movimentar o
adversário para a entrada de golpe) e a força isométrica (que é exercida
principalmente no ato da pegada) têm importância fundamental no
desempenho do judoca. O treinamento com pesos trabalhados em
circuito, tem apresentado excelentes resultados quanto ao
desenvolvimento da capacidade "força", principalmente após a terceira
passagem, onde a demanda metabólica é semelhante às obtidas em
luta. Ao que diz respeito à fase de combate (handori) pode-se concluir
que dependendo da quantidade (tempo total das lutas em treinos) é
produzido lactato sangüíneo semelhante ao obtido após lutas em
situações de competição. E também não se pode esquecer que uma
periodização adequada pode proporcionar ao atleta melhores resultados
nas competições mais importantes.

REVISÃO DA lITERATURA

O Judô é um Esporte Olímpico que surgiu no Japão em 1882, criado pelo
Professor japonês Jigoro Kano, onde é necessário, como todos os
esportes de alto nível, que seja feita uma preparação adequada para se
obter resultados satisfatórios.
Ao planejar um programa de treinamento deve-se observar as fontes
energéticas utilizadas na modalidade em questão, neste caso, o Judô,
por sua vez, apresenta características anaeróbia lática e aeróbia, onde
além de desenvolver essas duas capacidades deve haver uma harmonia
entre elas.
As capacidades aeróbia e anaeróbia lática podem influenciar
decisivamente no resultado final do combate e na estratégia a ser
definida pelos lutadores. Os atletas com uma condição aeróbia
avantajada pode optar por fazer uma luta com o objetivo de cansar o
adversário do começo ao meio da luta e atacar sucessivamente do meio
para o final buscando a melhor pontuação (ippon), já os atletas com a
capacidade anaeróbia lática melhor treinada podem escolher por lutar
mais ofensivamente desde o início do combate, mas o melhor é ter uma
mescla das duas capacidades, porém, o grande desenvolvimento da
capacidade aeróbia implica em um decréscimo na capacidade anaeróbia
lática, por isso há a necessidade de uma interação perfeita das duas
capacidades para atingir o melhor desempenho. Devemos estar atentos
também para a coordenação, segundo a definição, é a ação sinérgica do
sistema nervoso central e da musculatura esquelética dentro de uma
determinada seqüência de movimentos (Hollmann e Hettinger, 1983).
Quanto melhor for a qualidade da coordenação mais fácil será realizado
o movimento, a realização torna-se mais flexível e econômica,
diminuindo o consumo de energia baixando assim, o nível de fadiga.
A entrada de golpe (uchi-komi) é onde pode ser bem treinada a
coordenação para se obter um excelente desenvolvimento técnico no
Judô, e pode ser adotado diferentes meios para treina-lo dependendo do
objetivo.
Com o objetivo de aperfeiçoar a técnica, deve-se adotar um treino com
intervalos maiores, para ativar o metabolismo anaeróbio (com
movimentos específicos dos golpes) adota-se intervalos menores
(Amorim et alii, 1994, citado por Franchini, 1999), mas mesmo com
intervalos menores a coordenação também será treinada.
Quando falamos em treinamento físico não podemos nos esquecer de
que este é baseado nos princípios biológicos: o da Especificidade, o da
Sobrecarga e o da Reversibilidade (Barbanti, 1996). O princípio da
sobrecarga estipula que as mudanças funcionais no corpo ocorrem
somente quando a carga é suficiente para causar uma ativação
considerável de energia e mudança plástica nas células relacionadas à
síntese de novos tecidos, sobre o princípio da especificidade é entendido
que o organismo sempre se adapta de modo específico ao que lhe for
oferecido e o princípio da reversibilidade assegura que as mudanças
corporais conseguidas pelo treinamento são de natureza transitória, ou
seja, com a interrupção do treinamento, as mudanças funcionais e
morfológicas retornam aos estados iniciais (Barbanti, 1996).
A respeito da força relacionada ao Judô, podemos dizer que a força
dinâmica é importantíssima na luta no que diz respeito à movimentação,
quando se está buscando mexer o adversário para encontrar o melhor
momento para executar o melhor ataque o uso da força dinâmica é
imprescindível, já a força isométrica é utilizada constantemente durante
o combate no ato da pegada, para a manutenção da mesma e para o
controle do adversário, onde a prensão manual é realizada, pois quem
tiver domínio da pegada terá mais chances de atacar com maior
eficiência e se defenderá com melhor precisão.
Ficou evidenciado que o treinamento com pesos no sistema de circuito,
mais precisamente após a terceira passagem, apresentou demanda
metabólica semelhante aos obtidos em competição, o que significa que é
um excelente complemento ao treinamento de Judô, já que o
metabolismo é o mesmo utilizado em uma competição.
Quando se tratar de trabalho com pesos é importante adotar
movimentos o mais próximo possível do movimento do golpe, ou que
utilize o mesmo grupo muscular com movimento semelhante, já que a
obtenção de uma máquina para a realização de entrada de golpes não é
algo muito simples.
Com relação aos treinamentos de luta propriamente dita, períodos de 1
hora têm mostrado valores de lactato sangüíneo semelhantes ao obtido
após lutas em situação de competição (Cavazani, 1991, citado por
Franchini, 1999). Esse treinamento pode também ser feito simulando-se
as estratégias de competição, realizando-se lutas de 5 minutos de
duração com 10-15 minutos de descanso (Franchini, 1999). Para se ter
um melhor aproveitamento pode-se utilizar esse mesmo treino trocando
o adversário a cada minuto, assim os adversários estarão sempre
descansados e o atleta que realiza os 5 minutos de luta em seu período
integral enfrenta somente oponentes descansados.
Contudo, é preciso lembrar que além dos fatores citados acima é muito
importante que haja uma periodização com o objetivo específico de se
alcançar um alto rendimento através de uma preparação sistemática,
que vai proporcionar ao atleta melhores resultados e que esses
resultados sejam alcançados nas competições mais importantes.

CONCLUSÃO

A partir da literatura pesquisada, pode-se verificar que um treinamento
quando, devidamente planejado apresenta resultados eficazes, que
podem ser programados para serem atingidos nas competições mais
importantes. O Judô, como modalidade esportiva anaeróbia lática e
aeróbia apresenta como forma predominante de treinamento, a
musculação em forma de circuitos, os treinos de luta com mais de uma
hora de duração e em treinos mais específicos de competição, pois o
metabolismo utilizado é o mesmo solicitado no momento do combate.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

HOLLMANN, W.; HETTINGER, Th., "Medicina do Esporte". Editora Manole
Ltda, São Paulo, 1983.

WEINECK, J., "Biologia do Esporte". Editora Manole Ltda, São Paulo,
1991.

MAcARDLE, W. D.; KATCH, F. I.; KATCH, V. L., "Fisiologia do Exercício,
Energia, Nutrição e Desempenho Humano". Editora Guanabara Koogan
S/A, Rio de Janeiro, 1998.

BARBANTI, VALDIR, "Treinamento Físico: bases científicas". Editora CLR,
São Paulo, 1996.

BARBANTI, VALDIR, "Teoria e Prática do Treinamento Esportivo". Editora
Edgar Blucher, São Paulo, 1996.

FRANCHINI, E., "Bases para a detecção e promoção de talentos na
modalidade Judô". Publicações INDESP, Brasília, 1999.

Abraços,
Paulo Azevedo


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