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Desidratação e Desempenho

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Subject: Desidratação e Desempenho
From: "Paulo Azevedo" <paulopersonal@xxxxxxxxxx>
Date: Tue, 19 Aug 2003 17:30:19 -0300
Conseqüências fisiológicas e no desempenho esportivo causadas pela
desidratação


Prof. Arnaldo Mortatti
Prof. de Fisiologia do Exercício da UNICSUL


Muito se falou nas últimas semanas dos atletas do judô que tiveram que
passar pelo processo de perda de peso antes das competições para se
enquadrarem nas suas categorias. Entretanto, pouco se diz sobre as
conseqüências que essa prática pode trazer ao desempenho nas lutas.

Durante todo o processo pelo qual o atleta passa para conseguir perder a
quantidade de peso necessária e entrar na sua categoria, o organismo sofre
com a perda excessiva de água, minerais e nutrientes e com sua não reposição
adequada.

Judocas freqüentemente têm de competir com níveis mais baixos de peso
corporal. Para perder peso e ainda assim ter sucesso na competição, é
necessário um planejamento perfeito e a longo prazo da dieta nutricional.
Todos os meios para perder peso rapidamente, tais como dietas de inanição,
restrições de líquidos, uso de diuréticos, de laxativos, são muito
perigosos, uma vez que resultam em desidratação e hipertermia (aumento da
temperatura corporal). A restrição calórica e a desidratação prejudicam a
resistência muscular e levam a um pior desempenho competitivo.

Uma outra prática comum em atletas que precisam perder peso poucas horas
antes de uma competição, é fazer atividades físicas com o intuito de suar e
assim chegar ao seu peso ideal, e para tanto usam artifícios para aumentar a
perda de água, principalmente utilizando agasalhos e/ou plásticos em volta
do corpo. Esse hábito pode trazer algumas complicações ao organismo e
portanto ao desempenho atlético.

Isso acontece porque quando suamos, o corpo libera a água para a superfície
do corpo com o objetivo de evaporar e assim "esfriar" o organismo. Isso é um
processo bastante importante na regulação térmica do nosso corpo e é
responsável durante o exercício por praticamente toda a transferência de
calor.

Mas esse mecanismo de esfriamento do corpo só será eficiente se o suor for
evaporado. Se utilizarmos roupas pesadas e plástico em volta do corpo, a
água que eliminamos não consegue evaporar, pois o meio onde deve acontecer a
transferência de calor (superfície da pele) está bloqueada pela vestimenta,
e assim o mecanismo de esfriamento do corpo fica severamente comprometido,
fazendo com que aumente a temperatura interna do organismo.

As conseqüências desse aumento da temperatura interna (hipertermia) segundo
Fox, 2000, são as chamadas Lesões Térmicas:

- Câimbras: espasmos ou contrações musculares dos membros e abdômen.
- Síncope induzida pelo calor: fraqueza generalizada, fadiga, hipotensão, e
ocasionalmente palidez e perda momentânea da consciência.

- Exaustão térmica por depletação de água: caracteriza-se por suor
reduzido, língua e boca seca, sede, fraqueza e perda da consciência.

- Exaustão témica por depletação de sal: caracteriza-se por cefaléia,
vertigens, náuseas, vômitos e diarréia, síncope e cãimbras.


A depletação de sal pode ainda causar um desequilíbrio hidroeletrolítico que
pode resultar em uma concentração de sódio no plasma sangüíneo abaixo do
limite normal, que pode afetar o balanço osmótico no cérebro, causando uma
rápida entrada de água no cérebro (edema), podendo levar o indivíduo à
morte, isso pode acontecer principalmente quando o atleta perde muito sódio
durante a transpiração (suor salgado) e aumenta rapidamente a ingestão de
água sem a devida reposição de sódio. Essa situação de diminuição da
concentração de sódio é conhecida como Hiponatremia (Murray, 2003).

- Insolação ou intermação: o mecanismo de transpiração entra em fadiga, a
temperatura central pode ultrapassar os 40,5ºC, ocorre flacidez muscular, há
movimento involuntário dos membros, convulsões, coma e até morte.


Com a desidratação, os atletas sofrem ainda de perda de performance física,
fazendo com que muitas das derrotas que por ventura possam sofrer sejam por
diminuição da capacidade de trabalho e não por uma maior vantagem técnica do
adversário.

A diminuição da performance física é diretamente proporcional ao nível de
desidratação do indivíduo. Uma redução de apenas 1 a 3% do peso corporal
causada pela desidratação pode diminuir o tempo de resistência e força
muscular (Fox, 2000). Outros autores citados por Garrett Jr. & Kirkendall
(2003), mostram que com uma desidratação de 5% do peso corporal podem
diminuir a capacidade do desempenho de alta intensidade em até 30%.

Mas como os judocas podem conseguir o objetivo de perder peso e manter um
bom desempenho?

Essa é a grande questão que envolve os esportes que dependem do controle do
peso para competir na sua categoria. A principal atitude a se tomar para
minimizar essas conseqüências é a diminuição progressiva do peso corporal
antes que a temporada de competições comece. Dietas específicas (pobre em
gordura) e treinamento físico dirigido, podem minimizar a necessidade de
diminuição do peso imediatamente antes da competição.

Quando há esta necessidade, deve-se levar em consideração que a preparação
nurtricional e a hidratação serão bastante comprometidas. Assim, a
preocupação com a reidratação e a reposição do glicogênio muscular logo após
a pesagem deve ser o principal alvo das suas ações. Por isso, a ingestão de
líquidos para restaurar o peso normal e de sódio para restaurar os fluidos
do plasma é recomendável.

Líquidos que contenham glicose (carboidratos), são ideais para ajudar na
recuperação ante a desidratação e a redução dos estoques de glicogênio
(Garrett & Kirkendall, 2003).

A concentração ideal de glicose deve ficar em aproximadamente 15 a 30% em
pelo menos 30 minutos antes da competição (pois esse é o tempo mínimo para
que os carboidratos alcancem os músculos), mas é importante salientar que
para a reidratação imediata tem que se levar em consideração a taxa de
esvaziamento gástrico, já que com a desidratação a osmolaridade (número de
partículas em solução) cai e a velocidade de movimento de líquidos para fora
do estômago é menor e assim a concentração de glicose elevada causaria um
possível desconforto gástrico.

Desta forma, a concentração de polímeros de glicose deve ficar entre 6 a 7,5
% imediatamente depois da pesagem e imediatamente antes e durante a
competição para facilitar o esvaziamento gástrico. A quantidade de líquido a
ser ingerido deve ser em torno de 800ml a cada hora (taxa máxima de absorção
de líquido em condições especiais, quando o líquido é isotônico em relação
ao plasma) e essa quantidade deve ser dividida em porções a cada 15 ou 20
minutos.

Mas o que deve ser levado em conta na hora da hidratação é a taxa de
desidratação, que pode ser determinada pela modificação do peso corporal ou
seja, deve-se pesar o indivíduo antes e após o treinamento e assim
determinar a quantidade de líquido a ser reposto.

Convém lembrar que o suor é hipotônico em relação ao plasma e assim, no suor
é perdido mais água do que sais. Portanto a reposição de soluções salinas
devem ser ministradas de acordo com a quantidade de líquido perdido, pois,
em uma desidratação moderada a perda de sódio pode ser compensada pelos
mecanismos renais responsáveis pela sua conservação (McArdle, 1992).

A recomendação ideal para manter a performance após um trabalho de perda de
peso antes da competição é determinada pela magnitude da redução de peso e
de quanto tempo há entre a pesagem e a competição, sendo que quanto mais
tempo há para a reidratação maior será a recuperação do atleta.

REFERÊNCIAS:
FOX, E., BOWERS, R. e FOSS, M. Bases Fisiológicas da Educação Física e dos
Desportos. 4º Ed. Rio de Janeiro: 1991.
Garrett Jr., W. E. & Kirkendall, D. T. A ciência do exercício e do esporte.
Porto Alegre: Ed. Artmed, 2003.
McARDLE, W., KATCH, F. E KATCH, V. Fisiologia do Exercício. Energia,
Nutrição e desempenho Humano. 4º Ed. Rio de Janeiro, Robe, 1997.
Murray, B. Hiponatremia em atletas. Sports Science Exchange, V. 16, Nº 1,
2003.

Abraços,
Paulo Azevedo
UFSCar



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