A quem interessar,
Edmundo de Drummond Alves Junior
Administrador da lista cevidoso-L
Saúde
Quando os neurônios morrem
Um doente de Alzheimer não tem direito
nem mesmo à falta de esperança. O seu
destino é o nada absoluto
Karina Pastore
Claudio Rossi
Luto diário
"Eu perco minha mãe um pouco a cada dia", diz a professora Yone Beraldo. Em
março de 1996, ela recebeu a notícia de que Adeilde de Moura era vítima da
doença de Alzheimer. Costureira desde a juventude, a essa altura Adeilde já não
sabia mais costurar. A vaidade deu lugar ao desleixo. Ela se tornou agressiva.
Aos poucos, Adeilde vai sucumbindo totalmente ao Alzheimer. "Vivo um luto
diário", define Yone. Hoje, aos 83 anos, Adeilde não anda nem fala. Tampouco
reconhece a filha e o genro,Paulo, que estão com ela o tempo todo. Mas, todos
os dias, Adeilde chora. Em algumas ocasiões - cada vez mais raras -, Adeilde
esboça um sorriso. "É quando tenho certeza de que minha mãe sabe, de um modo ou
de outro, que é amada", consola-se Yone.
Especial VEJA Saúde
Quando as mulheres dos espelhos apareceram, em 1997, a costureira aposentada
Adeilde de Moura ficou ainda mais agitada. Muito aflita, ela pedia ajuda à
filha, Yone Beraldo. Queria abraçar a mulher do espelho da sala, mas não
conseguia. Já a mulher do espelho do banheiro era de uma antipatia atroz. "Não
gosto dessa camarada, não. Mande ela parar de olhar para mim", resmungava
Adeilde. A mulher do espelho do quarto, no entanto, era a que lhe causava mais
sofrimento. Vaidosíssima até ter ceifadaa sua saúde mental, Adeilde queria
presenteá-la com os sapatos, colares, brincos e pulseiras colecionados ao longo
da vida - mas a mulher do espelho se recusava a aceitá-los. "Por que ela não
quer os meus presentes? Ela não gosta de mim?", chorava. Aquelas três mulheres
não eram uma alucinação, mas o reflexo dela própria, Adeilde, nos diferentes
espelhos da casa. Vítima da doença de Alzheimer, ela já não se reconheciamais.
Para aplacar a angústia da mãe, Yone se fez passar pela mulher do espelho do
quarto, aceitou os mimos que lhe eram oferecidos e se despediupara sempre.
Todos os espelhos da casa foram, então, guardados. Seis anos depois, eles estão
de volta aos seus lugares. É que o Alzheimer de Adeilde, hoje com 83 anos, se
encontra em estado tão avançado que a alienou completamente do mundo e de si
mesma. "Ela é minha mãe, mas eu nãosou sua filha", diz Yone. "Ela existe para
mim, mas eu não existo para ela." Na realidade, ninguém existe para Adeilde -
nem ela própria.
Principal causa de demência em pessoas com mais de 60 anos, adoença de
Alzheimer afeta 20 milhões de pessoas em todo o mundo, 1 milhão delas no
Brasil. O mal foi descrito pela primeira vez em 1906, pelo neuropatologista
alemão Alois Alzheimer, mas não despertou muito a atenção de seus colegas
médicos. Isso porque, na época, as vítimas dadoença eram raras. Foi com o
aumento da expectativa de vida que os casosde Alzheimer proliferaram, tornando
dramas como o de Adeilde mais comuns. Poucas doenças são tão cruéis. No início,
ela assume características que tendem a ser confundidas com o processo natural
de envelhecimento- confusões de memória, alterações sutis de comportamento e
dificuldade de expressão. Conforme o Alzheimer avança, os neurônios
morrem,levando embora datas, nomes, rostos e lembranças. É como se as luzes de
uma cidade fossem se apagando gradativamente, até a escuridão total. "Nossa
memória é nossa coerência, nossa razão, nossa ação, nosso sentimento. Sem ela,
não somos nada", escreveu o diretor espanhol Luis Buñuel, na autobiografia Meu
Último Suspiro, sobre o Alzheimer que acometeu a sua mãe. No último estágio da
doença, a pessoa tem comprometidas até mesmo as suas funções fisiológicas mais
básicas (veja quadro).
É dificílimo, obviamente, cuidar de um doente de Alzheimer.Não só por razões
práticas, mas também emocionais. É uma experiência não menos do que devastadora
testemunhar a trajetória de uma pessoa querida rumo ao nada absoluto. Mas é
importante estar ao lado dela nessa viagem. De dois anos para cá, ganhou força
a linha de tratamento que apregoa que os responsáveis pelos cuidados diários
dos doentes devem tentar "entrar" na realidade que os cerca, não importa quão
fantasmagórica ela seja. Perceber o que os aflige no dia-a-dia e aceitar que as
trocas afetuosas podem sobreviver até o último momento, ainda que em outro
patamar, melhora a qualidade de vida dos pacientes e ajuda a apaziguar a
tristeza de quem se vê confrontado com o problema. Graças a essa visão, o
aposentado Carlos Stocco, de 61 anos, deixou de sofrer porque seu pai,Antonio,
de 89 anos, já não o reconhece mais como filho. "Para ele, sou simplesmente um
amigo. Aprendi, no entanto, a perceber que o seu carinho por mim ainda é o
mesmo", diz Stocco.
Claudio Rossi
"Vamos lá?"
A quem chega, Antonio Stocco, de 89 anos, vai logo perguntando: "Vamos lá?
Vamos lá, falar com ele?" Perguntado sobre onde é "lá" e quem é "ele", Antonio
fica com o olhar parado no vazio. "Ele sempre quer ir", conta o filho Carlos.
Antonio ainda interage com o mundo ao seu redor, mas essa interação, dia a dia,
torna-se mais precária. As frases estão cada vez mais sem lógica. Ele olha para
Carlos e não o reconhece como filho. É o "amigo" - o amigo que dorme no mesmo
quarto, que lhe dá de comer, que o leva para passear. "O nosso consolo é a
certeza de que ele não tem consciência do seu estado", diz Carlos. "Se ele
visseo que está acontecendo, o sofrimento seria muito maior."
Nesse sentido, um dos trabalhos mais fascinantes com doentes deAlzheimer é de
autoria da enfermeira Ceres Ferretti, mestra em neurociências pela Universidade
Federal de São Paulo. Ao sanar apenas questões ligadas à falta de orientação
espacial, ela conseguiu controlar asalterações de comportamento de mais de 70%
dos doentes que acompanha. Adotar o hábito de acender as luzes da casa ao
entardecer, por exemplo, pode evitar as crises de agressividade que tendem a
acometer as vítimas domal quando anoitece. Um dos casos mais impressionantes
solucionados por Ceres é o de uma senhora que ainda conseguia acordar durante a
noite para ir ao banheiro. Para ajudá-la, o marido deixava a luz do corredor
acesa. Ao levantar-se da cama, no entanto, ela começava a chorar e não
conseguia se mover. Ao estudar o espaço do quarto, para decifrar o motivo que
detonava essa crise noturna, Ceres notou que o chão entre o quarto e o banheiro
era vitrificado. O reflexo da luz sobre o piso transformava-se, nos delírios da
paciente, em água. Por ser incapaz de atravessar aquele "lago"é que a senhora
chorava e não arriscava um passo em direção ao banheiro. A colocação de um
carpete resolveu o problema.
O Alzheimer ainda é um mistério para a ciência. O diagnóstico é feito por
exclusão e os remédios são só paliativos. Osfatores de risco permanecem
obscuros - de certo, só há o fato de que manter-se intelectualmente ativo desde
a juventude pode reduzir os riscos deaparecimento do mal. Na últimas duas
décadas, foram desvendados em parte alguns dos processos que levam os neurônios
à morte. Basicamente, oscientistas descobriram que, nos portadores de
Alzheimer, duas proteínas,chamadas beta-amilóide e tau, funcionam de maneira
inadequada. Elas formam placas e emaranhados de fibras que sufocam, atrofiam e
matam as células cerebrais.
Dos cerca de 100 bilhões de neurônios que compõem o cérebro de um adulto, os
primeiros a ser aniquilados pelo Alzheimer estão envolvidos na produção de
acetilcolina, uma das substâncias responsáveis pela memorização. As únicas
drogas disponíveis contra o Alzheimer se limitam a aumentar a quantidade de
acetilcolina no cérebro. Lançados a partir de meados dos anos 90, a tacrina, a
rivastigmina, o donepezil e a galantamina só têm efeito na fase inicial da
doença. Um novo medicamento deve chegar ao Brasil no início de 2004: a
memantina. Ele se mostrou razoavelmente eficaz no tratamento de doentes em
estágios mais avançados, mas, assim como os remédios já existentes, tende a
perder a eficácia depois de seis meses de uso. "O desafio é a criação de um
medicamento que impeça a formação das placas de proteína que levam à morte dos
neurônios", diz o neurologista Paulo Bertolucci, professor da Universidade
Federal de São Paulo. Um raio de esperança surgiu na Universidade Federal do
Rio de Janeiro. O bioquímico Sérgio Ferreira identificou compostos capazes não
só de evitar a formação das placas deproteína, como também de dissolvê-las.
Mas, por enquanto, os testes estão restritos aos ratos de laboratório.
[As partes desta mensagem que não continham texto foram removidas]
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