A quem interessar,
Edmundo de Drummond Alves Junior
Administrador da lista cevidosos-L
Idosos, com orgulho e com direitos
Antônio Marinho e Marcia Cezimbra
As estimativas para os próximos 20 anos indicam que no Brasil a população
idosa excederá 30 milhões de pessoas, chegando a quase 13% da população. Aos
poucos, elas estão enfrentando a discriminação, lutando por seus direitos e
ocupando seu espaço na sociedade. Uma prova disso é que, apesar das
dificuldades, muitos idosos continuam trabalhando, exercitando-se e
aproveitando o tempo livre da melhor forma possível. E a qualidade de vida
na terceira idade tende a melhorar com a aprovação do Estatuto do Idoso.
O Estatuto do Idoso ainda não foi aprovado. Existem dois projetos de lei, um
na Câmara, o de número 3.561/97, apresentado pelo então deputado e hoje
senador Paulo Paim (PT-RS), e outro no Senado, do senador Sérgio Cabral
(PMDB-RJ), que recebeu parecer favorável na Comissão de Constituição,
Justiça e Cidadania (CCJ) e será encaminhado à Comissão de Assuntos Sociais
(CAS). Os maiores de 65 anos poderão ter prioridade na formulação de
políticas públicas, no recebimento de proteção do Estado e nos serviços
públicos como saúde e transportes.
- Com o estatuto haverá uma ordenação de todas as leis de direitos e de
proteção aos idosos, inclusive com ações punitivas. Para o estatuto vingar,
o ministério da Ação Social deveria assumir o papel das políticas sociais
que dizem respeito aos idosos. A maioria tem uma renda média de até um
salário mínimo, o que não lhes garante, na maioria das vezes, uma condição
de vida muito digna - diz Renato Veras, médico e diretor da Universidade
Aberta da Terceira Idade (Uerj).
A tendência é a unificação dos dois projetos num só. Enquanto isso não
acontece, os idosos se viram como podem. Maria Antonietta Guaycurus, de 76
anos, a mais antiga professora de dança de salão em atividade no país, é um
exemplo de que os limites na terceira idade podem ser vencidos. Ela trabalha
desde os 17 e, para não ficar parada, dança até sozinha.
- Não podemos ficar na inércia. Nunca me desvalorizei, continuo dando aulas
e tenho muitos alunos na terceira idade. Nunca é tarde para aprender. Eu me
sinto útil para a sociedade - diz Maria Antonietta, que tem sete filhos
vivos, dez netos e um bisneto.
Desrespeito no transporte é a principal queixa
Ficar em casa hoje é a última opção dos maiores de 65 anos. As viúvas Célia
Costa Raposo dos Santos e Nea Leal da Costa, vizinhas do mesmo andar num
prédio no Leblon, não perdem o jantar diário do Fellini. Fizeram do
restaurante a quilo, segundo elas, uma continuação de suas casas, onde
encontram amigos, conhecem gente e são bem tratadas pelos garçons.
- Uma viúva presa em casa é triste. Nós somos como irmãs e, quando vai dando
seis da tarde, já começamos a nos arrumar para sair - conta Nea.
Célia concorda:
- É mais prático e gostoso do que comer em casa.
Também o casal Eldamar e Henderson Sampaio, já com os dois filhos casados,
jantam no restaurante a quilo todas as noites e almoçam lá aos sábados e aos
domingos.
- Depois que os filhos se casam, não dá mais para ficar fazendo comida em
casa. E aqui é muito gostoso e tem de tudo. Quer fazer dieta? Tem dieta.
Quer comer um docinho bem feito? Também tem - diz Eldamar.
O gerente do Fellini, Carlos de Abreu, diz que nos primeiros horários do
almoço e do jantar o perfil dos clientes é de pessoas da terceira idade,
muitas já amigas da casa, onde costumam até comemorar seus aniversários. A
casa resolveu por isso oferecer no horário do almoço desconto de 5% para
quem tem mais de 65 anos.
No Arpoador a turma de tai chi chuan do professor Alexandre Von Ajs acorda
com os primeiros raios do sol para não perder a aula. Tem aluna que sai da
Barra da Tijuca para se exercitar. Claudina Sampaio, de 70 anos, Norma Leal,
de 62, Mariana Cantanhede, de 70, Hortência Cerqueira, de 70, e Pupi, de 80,
fazem parte do grupo.
- Não é porque chegamos à terceira idade que vamos ficar em casa - diz Pupi.
A atriz e tetravó Carmen Silva (a Flora, de "Mulheres apaixonadas"), de 87
anos, vira-se sozinha, quando está em Porto Alegre ou gravando no Rio:
- Depois que me aposentei, passei a ganhar menos de R$ 1 mil por mês e agora
ganho um pouco mais por causa da novela. Não fico sem fazer nada ou trocando
fraldas de netos. Mas sei que a maioria dos idosos ainda sofre
discriminação, muitos vivem de favor em casa de parentes ou amontoados em
casas geriátricas, sem as mínimas condições. O estatuto pode mudar isso.
O ator Oswaldo Louzada, de 91 anos, o Leopoldo e marido de Flora em
"Mulheres apaixonadas", acha que o estatuto vem num momento certo, mas é
preciso cobrar:
- Na minha idade ainda trabalho, mas sou exceção. O estatuto poderá melhorar
a qualidade de vida na terceira idade, mas é preciso fiscalizar e cobrar o
cumprimento das leis. Copacabana de madrugada é uma tristeza, com tantos
idosos, muitos doentes, largados na rua. Acho que deveríamos orientar as
crianças desde cedo, ensinando-as a lidar com os idosos.
A atriz Nair Belo, de 72 anos, é a favor de regalias para o idoso pobre:
- Num país onde a partir dos 40 é muito difícil arrumar emprego, o idoso
está completamente esquecido. O acesso ao lazer na terceira idade, com mais
descontos e gratuidade em cinema e teatro, por exemplo, deveria ser mais
incentivado.
Lazer e viagens são o passatempo da agente de turismo Maria da Glória Campos
Hereda, de 75 anos. Ela passa parte do tempo organizando passeios com
amigos, muitos na terceira idade.
- Temos que aproveitar o máximo. Estudar, fazer cursos de informática ou
mesmo participar de um trabalho voluntário é uma forma de se sentir útil na
velhice - diz.
O casal Hélio, de 70 anos, e Gelma Ferreira, de 67 anos, aproveitam as
manhãs livres para caminhar na orla. Eles acham que os idosos hoje são mais
respeitados, mas ainda falta muito para melhorar.
- O atendimento bancário é péssimo, assim como o sistema de saúde público -
reclama Gelma.
Para o advogado Pedro Rocha, de 60, é preciso manter uma aposentadoria
digna. E protesta:
- Os aposentados já ganham pouco e ainda serão taxados!
Walter Muricy, de 86 anos, queixa-se dos transportes coletivos:
- Há desrespeito, principalmente nos ônibus. Espero que com o estatuto as
coisas melhorem.
O estatuto poderá ajudar a reduzir o número de casos de maus-tratos a
idosos. No Núcleo Especial de Atendimento à Pessoa Idosa da Defensoria
Pública do Rio são realizados, em média, entre 40 e 50 casos por dia. Na
maioria dos casos, são idosos maltratados pelos filhos/filhas. Esses
maus-tratos incluem desde o abandono até cárcere privado e espancamentos. Em
90% dos casos, há uma motivação financeira: o agressor quer se aproveitar da
aposentadoria ou dos bens de sua vítima. As denúncias podem ser feitas pelo
telefone 21-2299-5700/5702, um disque-denúncia específico para esses casos e
que aceita denúncias anônimas.
[As partes desta mensagem que não continham texto foram removidas]
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