A todos,
Falar sobre o preconceito aos velhos pode ser bem ilustrado neste fato que
merece ser divulgado. Ele aconteceu no Rio de Janeiro em espaço que atende a
idosos e no caso idosos especiais que são os nadadores e numa federação de
natação masters. Vejam bem a situação gentecomeço com o texto que motivou a
indignação que anda nas TVs e demais midias do RJ. Leiam tudo com atenção
Edmundo de Drummond Alves Junior
Administrador da lista cevidosos-L
Nadar contra a corrente do preconceito nem sempre é fácil para os masters
cariocas
Eu me recuso a responder o e-mail deste velho f.d.p. Se o fizereu vou mandar
ele tomar no c. Ele é um imbecil muito grande e não sabeque valem (....) os
melhores tempos obtidos pelos nadadores, nos últimos12 meses e não últimos dois
anos, até porque nadador normal é jovem e dois anos pode não ser muito para
quem já dobrou o cabo da boa esperança, mas para ele que deve estar mais pra lá
do que pra cá eu nãosei... Quanto ao local do último Cariocão 2002, ao que me
consta o Parque Aquático Julio De Lamare é o melhor parque aquático que aqui
existe e custa muito caro para nós da Farj realizar lá qualquer competição.
Alias eu vou sugerir que não se realizem mais competições destes velhos imbecis
lá, pois esta classe de frustrados não deve nadar nem sujar aquela água com a
urina de que tem câncer na próstata."
Vocês desculpem os erros, o estilo e os palavrões. Não são meus. Este é o
linguajar que as autoridades esportivas do estado usam para trocar mensagens
entre si. O que vocês acabam de ler é um e-mailenviado pelo assessor da
presidência da Farj (Federação Aquática do Rio de Janeiro), senhor Michael R.
Karfunkelstein, para o senhor Carlos Roberto Silva, o Carlão, diretor master da
mesma entidade.
E como é que essa pérola da estupidez humana veio parar nasminhas mãos?
Simples: minha mãe, Nora, de 79 anos, é nadadora master. Ao contrário do que
supõe o senhor Karfunkelstein, ela não é frustrada, não tem câncer na próstata
nem faz pipi dentro d'água. Também ao contrário dele, leva o esporte a sério:
treina com rigor espartano, nada quase dois quilômetros por dia, chova ou faça
sol, e representa o Rio de Janeiro e o Brasil com grande brio. Está entre as
dez melhores do mundo em diversas modalidades, e sente-se extremamente honrada
em dividir a piscina com o supercampeão Luiz Felippe de Figueiredo, um dos
pouquíssimos atletas brasileiros a ser duas vezes recordista mundial (nos 50m
de costas). O excepcional atleta de 62 anos que o senhor Michael R.
Karfunkelstein se recusa a responder.
Quando mamãe me falou pela primeira vez deste e-mail, achei que só podia ser
trote. Logo imaginei algum inimigo do senhor Karfunkelstein querendo destruí-lo
junto à comunidade, apresentando-o como pessoa grosseira, insensível,
doentiamente preconceituosa. Com esse texto, um inimigo poderia até levá-lo à
Justiça, num processo criminal por injúria e difamação.
Antes que eu me esqueça: inúmeros juízes dos tribunais superiores têm a mesma
idade do Felippe, ou são até mais velhos. No Supremo, por exemplo, os ministros
só se aposentam aos 70 anos.
No domingo passado, mamãe me trouxe o jornalzinho de uma associação de
nadadores de São Paulo, onde o e-mail havia sido publicado na íntegra. Fiquei
chocada com a perfídia do suposto inimigo do senhor Karfunkelstein, que
conseguira até a publicação daquela barbaridade, e telefonei para a Dulce
Senfft, coordenadora de masters do Clube de Regatas Icaraí, para saber se a
Farj denunciara a trama infame. A Dulce, porém, me disse que a autoria do
e-mail jamais havia sido posta em questão.
Na verdade, dirigentes da Farj chegaram a ir ao Icaraí para pedir desculpas.
Disseram que aquela era apenas uma mensagem para circulação interna, que não
deveria ter sido divulgada (ah, bom!) e propuseram uma retratação pública do
senhor Karfunkelstein no próximo campeonato, no dia 28 junho, em Petrópolis.
Enquanto isso, cópias do e-mail estão afixadas nos quadros das piscinas dos
principais clubes brasileiros, eum abaixo-assinado de protesto já conta com a
adesão de quase 400 nadadores.
Quer dizer: o senhor Michael R. Karfunkelstein não precisa deinimigos.
Ainda assim, três coisas me intrigavam. O que havia dito o Luiz Felippe de tão
grave para suscitar tal resposta? Como ela chegara ao público? E, finalmente, o
que teria o senhor Michael Karfunkelstein a dizer a respeito?
O Luiz Felippe - filho do grande Gastão Figueiredo - me encaminhou a polêmica
correspondência. Seu crime foi reclamar das péssimascondições da piscina no
último campeonato (a água estava 60 cm abaixo do nível oficial, impedindo a
saída do nado de costas) e de erros de balizamento.
A não-resposta do senhor Karfunkelstein veio à luz quando odiretor master da
Farj respondeu ao Luiz Felippe e, por descuido, se esqueceu de apagar a tal
"mensagem interna".
Quanto ao que o senhor Michael R. Karfunkelstein pensa disso tudo, não sei.
Telefonei a ele, que negou ter escrito o e-mail, negou ter conhecimento dos
protestos que estão nos quadros de avisos das piscinas porque "não vou a esse
tipo de competição" e me disse para discutir o caso com a presidência da Farj.
Foi o que fiz. Liguei para o presidente Marcos Firmino, que garantiu que o
e-mail havia, sim, sido escrito pelo seu assessor, Michael Karfunkelstein; que
o dito assessor já estava redigindo uma retratação formal; e que ele, Marcos
Firmino, está arrasado com o caso:
- Estou dizendo para as pessoas o seguinte: todo mundo tem um dia 11 de
setembro na vida. Meu dia 11 de setembro foi o dia em que aquele e-mail foi
escrito.
Jornal: O GLOBO Autor:
Editoria: Segundo Caderno Tamanho: 888 palavras
Edição: 1 Página: 10
Coluna: Seção:
Caderno: Segundo Caderno
[As partes desta mensagem que não continham texto foram removidas]
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