A quem interesssar,
Edmundo de Drummond Alves Junior
Administrador da lista cevidosos-L
Privilégios da terceira idade
JOÃO UBALDO RIBEIRO
Já começa por esse negócio de "terceira idade". Todo mundo sabe que não há
primeira, nem segunda, nem terceira ou quarta idade - existe sóa idade que o
sujeito tem mesmo, que nunca, aliás, vale nada. Idade sóvale para o futuro ou o
passado. Jamais para o presente, porque mente quase todo mundo que afirma estar
satisfeito com a idade que tem. Não está.Quando é menino (não vou fazer aqui
feito americano e me referir explicitamente aos dois sexos; todo mundo sabe que
estou querendo referir-me aosdois e não tenho culpa de a gramática inglesa
complicar a fala politicamente correta deles e, por sinal, esse negócio de
politicamente correto também enche o saco das pessoas normais), quer ser mais
velho, para pode fazer o que os mais velhos fazem, notadamente extraordinárias
burrices, tais como fumar e beber. Quando é rapaz e já se tornou um farrapo
humanocapaz de filar um cigarro de alguém que acabou de conhecer ou mesmo não
conhece, quer ser mais velho para poder pegar as mulheres que, nessa fase, o
consideram um pirralho (a palavra hoje deve ser outra, mas deixei de atualizar
o vocabulário há uns vinte anos, deve haver esse privilégio na lei também).
Quando passa essa idade, não tem grana para sair com as mulheres e é obrigado a
gastar tempo defendendo algum, além da odiosa esempre somítica mesada. Quando a
grana melhora, se melhora, o trabalho piora e tem pelo menos uma mulher que
gruda e toma conta. E por aí vai, todo mundo se queixando até o dia de encerrar
o expediente neste vale de lágrimas.
A terceira idade vem, como se sabe, acompanhada pela agravante de a gente virar
tio. Não tem coisa mais insuportável do que virar tio de qualquer fedelho que
apareça. Ou fedelha: neste caso, cabe a referência explícita ao sexo,
principalmente quando a fedelha tem 25 anos, é a cara da Nicole Kidman e namora
um xibunguinho qualquer que ainda nem bigode pode ter. Não sei se cabe aqui,
neste jornal de família, sugerir a eloqüente resposta habitual dada pelo meu
amigo Luciano Quibe Frito, rico milionário árabe, que é um pouco mais velho do
que eu, mas não se queixa muito da idade, não só porque o dinheiro disfarça
bastante os cabelos brancos, como porque deve tomar Viagra na veia. A resposta
é um pouquinho ríspida, mas, que diabo, pelo menos hoje resolvemos que não
seremos politicamente corretos. Ele responde dizendo "meu jovem, eu não posso
ser seu tioporque não tenho irmã na zona", é isso que ele diz e eu também devia
ser macho o suficiente para dizer e um dia ainda digo.
E tem um rosário interminável de humilhações juridicamente consagradas, todas
um complô para que subamos ao Pão de Açúcar e nos joguemos do bondinho, o que
só não faço porque, no necrológio, ainda ia sair que eu sofria das faculdades
mentais. Outro dia mesmo, estou eu trêmulo no banco, eis que, em bancos, fico
invariavelmente trêmulo, assim comoem cartórios e repartições sortidas,
esperando ser preso (espero sempre ser preso, é por isso que quero me inscrever
finalmente na Ordem dos Advogados, para ter aquela carteirinha que dá direito a
não ser preso numa cela de oito metros quadrados com mais 120 companheiros),
quando um caixa me acenou:
- Gestantes e deficientes! - berrou ele.
Inspecionei minha barriga. Está certo que não se trata propriamente de uma
tábua de passar, mas não chega a parecer de oito meses, como indicava a cara
dele, além de que mantenho a expectativa de o bigode e a carecasustentarem
minha aparência masculina - pois a esta altura, com mais de 60 anos de prática,
fica um pouco tarde para mudar.
- Gestantes e deficientes! - repetiu ele, depois que olhei em torno e acheique
não era comigo.
- Mas eu... - tentei timidamente objetar.
- É a mesma coisa, tudo a mesma fila, terceira idade também!
É por essas e outras que não tenho arma e muito menos ando armado, porque, numa
hora assim, a pessoa pode experimentar a chamada privação de sentidos (isso se
dizia no meu tempo; acho que hoje se diz "surto", não é? ou era há dez anos?
bem, é uma parada - gostaram? - dessas qualquer) e cometer um tresloucado
gesto, no caso descarregar minha centenária garrucha no ofensor. Se ele
complementasse me chamando de tio, acho que eu encerrava a conta no banco e
talvez até levasse uma gruja de 15 centavos, a título de "abono de terceira
idade", eles são capazes de perpetrar isso. Mas não fiz nada, arrastei meus
pobres pés de velho até a fila indicada e lá fiquei um bom tempinho, até
porque, e este é outro requinte, ela era mais longa que as outras.
Na Bienal do Livro, onde entrei como autor, uma vezinha só, pude observarque
estavam isentos de pagamento os menores de um metro e maiores de 60 anos. Quer
dizer, eu, meus amigos e o Bloco dos Anões da Praça Onze, ou qualquer outra
agremiação que congregue os - é assim que se diz "anão" hoje em dia, isto eu
aprendi - verticalmente prejudicados. Numa só semana, fui chamado de
deficiente, anão, transexual tarado e futura mamãe.Tinha até pensado em
experimentar um teste pessoal da passagem de ônibus grátis, só pelo gostinho,
mas, como agora sei que seria pelo desgostinho, não vou experimentar nada.
Aliás, aguardo ansioso a próxima medida, que provavelmente será proibir os
terceiro-idadistas de sair de casa, para não expô-los à jângal da cidade
grande. Concordo, concordo, contanto que eles ponham uns boys aqui, para cuidar
dessas coisinhas de banco e correio para nós, coroas do prédio. E contanto que
eles não chamem a gente de tio, é claro. Tio é a mãe e eu não tenho irmã na
zona etc. etc.
[As partes desta mensagem que não continham texto foram removidas]
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