| Ruben Berta
Para o aposentado Dario
Cardoso, é difícil não se emocionar ao lembrar da música “Coração de
estudante”, de Milton Nascimento e Wagner Tiso. E nada maisjusto. Aos
73 anos de idade, ele cursa o 4 período de direito e espera se tornar
professor daqui a quatro anos. Segundo dados do Instituto Nacional de
Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) do Ministério da Educação
(MEC), o Rio de Janeiro é o estado com mais universitários com mais de
65 anos: em 2000, as faculdades receberam 369 inscrições, o
equivalente a 30% do total de todo o país. Entre os eternos calouros,
a palavra “senhor” é proibida.
— Quando tive a idéia de
voltar a estudar, fiquei meio envergonhado, mas resolvi fazer o
vestibular e acabei passando em segundo lugar. Hoje, o meu maior
problema é controlar o ciúme da minha mulher, que acha que estou na
faculdade só por causa das colegas de classe — brinca Cardoso, aluno
da unidade Centro da Estácio de Sá.
Instituiçãodá bolsas
a quem tem mais de 60 anos
Apesar de ainda estar
muito longe de liderar as estatísticas de número de estudantes nas
universidades, o público da terceira idade já começa a chamar atenção
do mercado da rede particular. No domingo passado, para atrair novos
alunos, a Estácio anunciou descontos que vão de 60% para estudantes
entre 60 e 69 anos a 90% para pessoas de 90 a 95 anos e recebeu 140
inscrições num dia. Segundo a instituição, atualmente há 27 alunos
acima de 80 anos matriculados na graduação.
— Se aparecer alguém de
100 anos, vamos dar bolsa integral — alardeia o diretor de marketing
da universidade, Marcelo Campos.
Para o médico Renato
Veras, um dos idealizadores da Universidade
Aberta da Terceira Idade (UnATI), que funciona na Uerj há nove anos, a tendência é que, cada
vez mais, as faculdades abram as portas para os idosos. Ele cita dados
do IBGE, que mostram que a porcentagem de pessoas acima de 65 anos na
região Sudeste pulou de 4,19%, em 1980, para 6,37%, em 2000:
— As pessoasprecisam
superar o preconceito e entender que o idoso que está fazendo uma
faculdade agora alia todo o conhecimento de vida com o aprendizado das
salas de aula. Com o aumento de expectativa de vida para 70, 80 anos,
é um desperdício que pessoas de 60 percam 20 anos inativas.
Mas, por enquanto,para
quem decide voltar às salas de aula, o que menos importa é o mercado
de trabalho. A maioria dos estudantes quer mesmo a realizaçãopessoal.
O farmacêutico Jacob Jahu Alegre, de 75 anos, que está no 7 período de
direito, diz que se arrepende de não ter feito o curso há mais tempo:
— Podem achar estranho
que eu, sendo farmacêutico, tenha optado por outro curso tão
diferente. Mas sempre fui daqueles que gosta de brigar pelo direito
dos outros. Agora, está ficando mais fácil.
Além das universidades da
terceira idade, que oferecem cursos livres, são os cursos da área de
humanas, como direito e comunicação social, os preferidos pelos mais
velhos. Entre os que freqüentam a graduação, a convivência com colegas
mais jovens divide opiniões.
— Tenho muita vontade de
estudar, mas ainda sinto preconceito. No trote, não quiseram que eu
ficasse catando formiguinhas na Lagoa, como os outros. Colaborei com
R$ 10 para o chope dos calouros e depois nem me disseram onde ia
acontecer. Além disso, também sinto dificuldades nos trabalhos de
grupo — diz a secretária aposentada Maria Lúcia Puty, de 66 anos, que
cursa o 5 período de jornalismo na UniverCidade e sonha se formar para
cobrir a Copa do Mundo de 2006.
Para José Morais, de 73
anos, que cursa o 6 período de letras na Estácio de Sá, não há queixas
em relação aos colegas. Ele só lamenta não ter passado por um trote do
bem quando entrou na faculdade:
— É uma pena que a
direção não permita. O trote faz a gente interagir mais rapidamente
com a turma.
Caçula dos veteranos,
Sílvia Maria Cruz, de 54 anos, conta que entrar na universidadecausou
ciúme em casa, tamanha a interação com os colegas mais jovens. Ela
estuda jornalismo na UniCarioca.
— Minha filha já não
agüenta mais. Toca o telefone e é Silvinha para lá, Silvinha para
cá... — diz.
Para Celso Niskier,
reitor da UniCarioca, na onda dos cursos livres, o mercado da terceira
idade vem para ficar.
— Nos últimos anos, a
média de idade cresceu para 30 anos na graduação. Ninguémquer ficar
parado no tempo.
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