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[Cevidoso-l] Antraz

To: <cevidoso-L@xxxxxxxxxx>
Subject: [Cevidoso-l] Antraz
From: "Edmundo Drummond Alves Junior" <drummond@xxxxxxxxxxxxx>
Date: Fri, 19 Oct 2001 22:36:22 -0300
Nao custa nada saber um pouco mais,
Edmundo de Drummond Alves Junior
Administrador da lista cevidoso-L
DRAUZIO VARELLA

O pânico do antraz
Cartas com o bacilo antraz têm o dom de espalhar insegurança. A
possibilidade de receber pelo correio um pozinho branco que faz ferida na
pele e pode ser fatal para os pulmões invoca antigos pavores coletivos. A
imagem da peste negra que matou um terço dos europeus na Idade Média vem
logo à cabeça de todos.
O objetivo deste artigo é deixar claro que o antraz das cartas anônimas não
tem a menor probabilidade de causar epidemia. Para tanto, vamos conhecer o
inimigo.
O antraz é um bacilo minúsculo, 50 vezes menor do que qualquer célula do
nosso corpo. No microscópio, aparece como filamentos violáceos que se
alinham em fileiras, um colado ao outro, como os nós num tronco de bambu.
Para o olhar humano, o antraz seria apenas outra bactéria insignificante que
infecta o gado, não fosse possuidor de uma característica biológica
especial: a capacidade de formar esporos.
O esporo se forma ativamente quando o bacilo entra em época de vacas magras
ou quando o meio se torna inóspito. Nessas condições, ele elimina toda a
água de seu interior, agrega as proteínas da membrana numa carapaça seca em
volta de seus genes para resguardá-los e reduz as reações metabólicas a
zero. Pára de respirar, excretar, produzir energia e reproduzir-se, o
tamanho diminui até dez vezes. Nesse estado, pode hibernar durante décadas
no solo, até encontrar um hospedeiro que lhe forneça água, oxigênio,
aminoácidos e glicose para voltar à forma de bacilo infectante outra vez.
Estratégia de sobrevivência invejável: fingir-se de morto para ressuscitar
no futuro num ambiente mais acolhedor. Quem não gostaria de poder?
O contato desses esporos com o homem quase nunca é caracterizado pela
agressividade extrema porque a bactéria tem muita dificuldade para penetrar
a pele íntegra. Só quando encontra uma solução de continuidade provocada por
um pequeno corte ou arranhão, ela consegue invadir e se multiplicar no
local. Nesse caso, forma feridas pouco dolorosas chamadas carbúnculos,
fáceis de curar com penicilina e outros antibióticos comuns.
Raramente, porém, acontecem casos graves da doença. É quando os esporos são
inalados ou deglutidos com alimentos que os contêm. Nessas ocasiões raras, a
doença pode levar à septicemia e morte por choque toxêmico.
A maior epidemia natural de carbúnculo que se tem notícia foi a que ocorreu
no Zimbábue entre 1979 e 1985: mais de 10 mil casos, praticamente todos
limitados à forma cutânea da doença.
Uma característica que limita muito a capacidade do antraz em provocar
epidemias é a de que o bacilo não se transmite de uma pessoa infectada para
outra.
Se não existe transmissão inter-humana e os esporos encontram dificuldade
para penetrar a pele íntegra, o método de enviá-los pelo correio para
jornalistas e políticos não tem fôlego para causar mais do que uns poucos
casos de impacto jornalístico. Para matar em massa, os terroristas
precisariam empregar uma estratégia bem mais complexa: espalhar os esporos
em aerossol sobre as grandes cidades, de avião.
Embora os japoneses tenham usado o antraz contra os chineses na Manchúria na
década de 1930, não há experiência documentada cientificamente com esse tipo
de ato criminoso. Tudo leva a crer, no entanto, que a tecnologia necessária
para sua execução esteja muito distante de pequenos grupos de fanáticos
despreparados cientificamente.
Em 1979, num laboratório de microbiologia militar da cidade soviética de
Sverdlovsk, houve vazamento de um aerossol de antraz, inodoro e invisível.
Nos 43 dias que se seguiram, 79 moradores adquiriram a infecção. Deles, 68
(86%) morreram, demonstrando a letalidade da infecção quando ocorre pela via
inalatória. Passados os 43 dias, nenhum caso voltou a ocorrer na região,
apesar do absoluto descaso das autoridades soviéticas em descontaminar o
ambiente e vacinar a população (de 1 milhão de habitantes de Sverdlovsk
apenas 47 mil tiveram o privilégio de receber a vacina).
Em 1970, especialistas da Organização Mundial da Saúde estimaram que uma
bomba de antraz jogada dos céus sobre uma cidade de 5 milhões de habitantes,
precisaria ter 50 quilos de esporos para conseguir infectar 250 mil pessoas
e matar 100 mil delas -o número de mortos em Hiroshima.
Em 1997, um estudo do escritório de avaliação tecnológica do Congresso
americano calculou que, para provocar a morte de 130 mil a 3 milhões de
pessoas na área de Washington, precisaria ser jogada uma bomba com cem
quilos de esporos.
Se lembrarmos que cada esporo mede um milésimo de milímetro, é possível
fazer idéia do desafio tecnológico que seria construir e manipular uma bomba
dessas. Para produzir tais quantidades de esporos, é preciso dominar
técnicas industriais de cultivo e fermentação de bactérias que só existem
nos grandes laboratórios científicos dos Estados Unidos, da Europa Ocidental
e do Japão, custeados pelo Estado ou pelas grandes multinacionais do setor
farmacêutico.
Pode ser que, no futuro, esse tipo de tecnologia seja simplificado a tal
ponto que biobombas possam ser produzidas em fundo de quintal por um maníaco
qualquer. No momento, entretanto, isso não passa de ficção científica.









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